Clínica, cinema e sofrimento contemporâneo
Abro este espaço para debater e refletir sobre ideias que me parecem importantes ou que, de algum modo, me tocam. A partir deste mês, passo a ter uma coluna mensal aqui no Cosmopolita. Minha intenção é compartilhar reflexões e encontrar interlocutores dispostos a fazer avançar o debate. Convido-os a construir este espaço comigo.
Então, vamos ao que interessa!
É muito comum, sobretudo entre psicanalistas de orientação lacaniana, recorrer às três grandes estruturas clínicas — a saber, neurose, psicose e perversão — para pensar os casos clínicos de modo geral. Há também quem proponha incluir o autismo como uma estrutura à parte, formando assim uma quarta categoria nesse quadro, ou estrutura, como se queira. Porém, a prática clínica contemporânea parece ter nos colocado diante de configurações subjetivas que dificilmente se deixam enquadrar nesses modelos já consagrados pela tradição psicanalítica.
Podemos, é claro, nos perguntar se tudo isso não resulta simplesmente de uma imprecisão diagnóstica, possibilidade inerente ao nosso ofício. Afinal, o fato de nos depararmos com algo que não reconhecemos de imediato não exclui a possibilidade de que estejamos, nós mesmos, lendo de modo ainda insuficiente certos sinais clínicos. Mas gostaria de incluir um outro tipo de reflexão: diante das transformações sociais, das mudanças nos modos de vida e, em especial, nas duas últimas décadas, do lugar crescente das tecnologias, não seria possível que isso tenha produzido efeitos reais sobre as subjetividades? Em outras palavras, será que as formas de construção subjetiva não vêm sendo reorganizadas de maneiras que ainda estamos aprendendo a compreender?
Longe de querer contestar o que Freud e Lacan construíram ao longo do último século — seria preciso uma boa dose de audácia para isso —, o que me interessa aqui é considerar a possibilidade de existirem outras configurações subjetivas que não se inscrevam na dita lógica neurótica, sem que, por isso, precisemos imediatamente despachá-las para os demais quadros já mencionados.
Esse tipo de reflexão sempre me acompanhou ao longo da minha formação em psicanálise e no exercício de meu ofício. No entanto, as formulações do campo psicanalítico e a apropriação dos conceitos — dos conceitos clínicos, em particular — levam tempo. Gasta-se anos com isso! Pois bem. À medida que avançamos nos estudos e ganhamos experiência clínica, nos permitimos ir incluindo reflexões de outros campos para nos ajudar a pensar as questões complexas e os impasses que encontramos na clínica e, principalmente, nas relações sociais.
Digo isso porque, há alguns meses, tive a oportunidade de debater essas questões com o psicanalista e filósofo Pierre-Henri Castel, em conversas que giraram diretamente em torno das produções subjetivas e das formas contemporâneas de sofrimento. O que estava em jogo ali não era apenas uma discussão conceitual, mas a tentativa de pensar, a partir da clínica e das transformações sociais recentes, se não estamos diante de modos de subjetivação que escapam às categorias com as quais estamos habituados a trabalhar. Nada é mais caro a um psicanalista do que sustentar esse tipo de interrogação: pensar como os sujeitos se constituem hoje e quais modalidades de sofrimento essas formas de vida tendem a produzir.
Tudo isso me fez lembrar de um filme que revi no último mês e que, já na primeira vez, havia me chamado inquietantemente a atenção: The Power of the Dog (2021), lançado no Brasil como Ataque dos Cães, dirigido por Jane Campion, baseado no romance homônimo de Thomas Savage, publicado em 1967 — indicado ao Oscar e tudo mais. Um filme muito bom.

A história se passa em Montana, nos anos 1920, e acompanha os irmãos Burbank, grandes proprietários de uma fazenda. Phil, o mais velho, encarna uma personalidade austera, inflexível e aparentemente inabalável, por vezes debochado com aqueles que considera fracos, mas líder incontestável entre os trabalhadores. George, mais gentil e sensível, além de responsável pelas finanças, casa-se com Rose, uma viúva dona de uma pensão, que se muda para o rancho com o filho adolescente, Peter (guarde esse personagem). A partir daí, o filme acompanha a crueldade calculada de Phil contra mãe e filho e, ao mesmo tempo, a maneira como essa violência vai revelando fissuras, desejos recalcados e um jogo de poder muito mais ambíguo do que sua postura “viril” deixa transparecer. Num ritmo lento, tenso e poético, Campion compõe um faroeste psicológico sobre dominação, medo, sexualidade reprimida e fragilidades, verdades que acabam por se impor a qualquer custo.
Preciso avisar: a partir daqui, haverá spoilers.
Deixe-me apresentar um pouco do drama dos dois personagens centrais — Phil e Peter —, e logo você entenderá por que os destaco. Bem no início do filme, Peter, em voz off e ainda com a tela preta, enquanto passam os créditos iniciais, diz: “Quando meu pai morreu, eu não queria nada além da felicidade da minha mãe. Que tipo de homem eu seria se não ajudasse minha mãe? Se eu não a salvasse?”. Se escutamos isso apressadamente, poderíamos atribuir tais frases a uma posição edípica: alguém falando do pai morto e da mãe viva. Talvez pela aparição do triângulo amoroso clássico, intuitivamente, ou desavisadamente, poderíamos seguir por esse caminho. Mas não. O que parece haver ali é outra coisa. Mas sigamos com a apresentação das características dos personagens.
De um lado, Phil encarna um tipo de construção subjetiva forjado por uma lógica marcada pela rigidez e pela austeridade, sustentada por um ideal viril que não admite rachaduras — aquilo que podemos chamar de uma lógica da formalização, numa leitura sociológica tal como propõe Wouters. A sombra de Bronco Henry funciona como uma matriz superegóica, fonte de um código de conduta que Phil tenta repetir como último guardião de um mundo que já não existe. A dureza, a crueldade e até o sarcasmo que dirige a Rose e a Peter não são sinais de força, mas o preço psíquico que ele paga para manter de pé uma armadura identitária que ameaça ruir.
A forma como se relaciona com objetos como a sela, o couro e seus rituais meticulosos, assim como com atos como castrar o touro ou trançar o couro, revela um traço obsessivo característico desse tipo subjetivo, preso ao ideal de autocontrole e ao medo da desorganização interna. Phil é uma subjetividade que se sustenta na repressão, na autoridade e na tríade edípica clássica, tal como postulada por Freud; e é justamente por não conseguir se descolar dessa gramática que ele próprio acaba se tornando vítima dela.
Por outro lado, não exatamente oposto, mas diverso, Peter surge como a figura que encarna um tipo subjetivo emergente no cenário contemporâneo: menos organizado pela Lei do Pai e mais pelas questões pré-edípicas de ligação e desconexão. Lembremo-nos de sua frase inicial: o desejo de “ver a mãe feliz”. Não se trata do início de um Édipo, mas da inscrição de sua subjetividade num eixo de dependência afetiva e de proteção simbiótica. Seu modo de operar revela aquilo que Castel descreve como um “afrouxamento controlado do autocontrole”: um sujeito capaz de parecer vulnerável, maleável, quase frágil, mas que conserva uma aparente lucidez estratégica e um certo domínio das situações, cuja extensão jamais se revela por completo. Peter não se rebela simbolicamente contra Phil, ele o remove como quem corta uma ameaça à continuidade da ligação com Rose, sua mãe.
Aqui vale lembrar a única cena em que podemos ver Peter verdadeiramente transtornado. É quando Phil, movido por ódio, ciúme e medo, briga com o irmão por causa de Rose e faz emergir, para Peter, uma ameaça mortal. Aquilo cai como uma angústia irremediável. No entanto, ele consegue controlar essa angústia e parte para a resolução do problema que o orienta desde o início do filme: “Que tipo de homem eu seria se não ajudasse minha mãe? Se eu não a salvasse?”.
Peter arquiteta e executa a morte de Phil de modo a não deixar transparecer que se trata de um assassinato, mas sim de um descuido do próprio Phil na lida com animais possivelmente contaminados. (Se você ainda não assistiu ao filme, assista!).
O que impressiona não é a suposta ausência de culpa, mas o fato de que sua ação responde a uma lógica pragmática, quase cirúrgica, que já não passa pelo crivo do superego freudiano. A cena final é talvez o exemplo mais contundente disso: a serenidade com que observa a mãe ao lado de George sugere que o que está em jogo é algo da ordem da separação. Peter representa uma subjetividade que age por regulação afetiva, e não por interdição; que se organiza mais pela coesão da unidade mãe-filho do que pela inscrição simbólica na ordem edípica.
Isso não significa, evidentemente, que Peter sofra menos ou que represente uma forma “mais avançada” de subjetividade. Nada disso. Trata-se de outro regime de sofrimento, menos organizado pela culpa e mais exposto ao risco da perda da ligação e da desorganização afetiva. A eficácia de sua ação não elimina a angústia; ela apenas se redistribui segundo uma economia psíquica distinta.
O encontro entre Phil e Peter não é apenas o embate de duas personalidades, mas a colisão de duas épocas psíquicas, se posso colocar nesses termos, pois o psiquismo muda. Phil pertence ao regime da formalização: acredita na força do ideal, na autoridade do pai e nas identidades sólidas; em suma, na encarnação da lei. É por isso que tenta moldar Peter pela via da submissão e da repetição.
Peter, por sua vez, opera segundo a lógica da informalização: não responde à lei de Phil, não o confronta no registro do conflito simbólico e tampouco internaliza sua culpa. Ele contorna a estrutura que Phil tenta lhe impor, e sua ação final — fria, silenciosa e eficaz — é a prova de que o regime subjetivo ao qual estou enquadrando Peter não passa necessariamente pela dialética clássica da castração, mas, antes, por uma economia psíquica orientada pela ligação afetiva e pela preservação do self.
Talvez o maior mérito de O Ataque dos Cães não esteja em nos oferecer heróis ou vilões, nem em fornecer chaves rápidas de leitura moral. A narrativa do filme pode nos inclinar a ver em Peter uma figura de triunfo silencioso, assim como pode nos convidar a reduzir Phil a uma caricatura de masculinidade violenta ou repressiva. Mas esse caminho pouco nos ensina sobre o que realmente está em jogo. O que o filme expõe, de maneira muito mais incômoda, são diferentes modos de sofrimento e de organização psíquica, cada qual com seus impasses, seus riscos e seus custos subjetivos.
Phil sofre sob o peso da lei, do ideal e da exigência de coerência identitária; Peter, sob a ameaça permanente de ruptura da ligação que sustenta sua economia afetiva. Nenhum deles está fora do sofrimento, nem representa uma solução exemplar. Se o encontro entre os dois nos perturba, é justamente porque ele nos confronta com formas contemporâneas de subjetivação que já não se deixam ler facilmente pelas categorias clássicas, mas que tampouco autorizam celebrações ingênuas. Talvez seja aí que o filme mais nos interpele: não como alegoria de um progresso psíquico, mas como convite a pensar, com mais cuidado e menos moralização, as novas maneiras pelas quais os sujeitos sofrem — e se defendem — no mundo de hoje.
Francisco Capoulade é psicanalista, diretor e cofundador do Instituto de Pesquisa e Estudos em Psicanálise nos Espaços Públicos (IPEP) e pesquisador convidado no Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS – EHESS/Lier-FYT, Paris) em 2025. Doutor em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e em Psychopathologie et Psychanalyse pela Université Paris Cité (Paris-Diderot), é bacharel em Filosofia e mestre em Psicologia pela PUC-Campinas. Atualmente, realiza pesquisa de pós-doutorado na USP sobre a recepção do ensino de Lacan no Brasil (Bolsa FAPESP). Em 2016, dirigiu o documentário Hestórias da Psicanálise: Leitores de Freud, que discute a recepção do ensino freudiano no Brasil. Coordena o curso de pós-graduação em Teoria Psicanalítica do IPEP/UniFAJ e tem publicações sobre história e epistemologia da psicanálise. Foi membro da ACP de 2010 a 2025, presidindo a instituição entre 2018 e 2020.
Instagram: @francisco.capoulade
