Tô grávida de ninguém
Útero cheio, barriga vazia
Grávida de ninguém
Ventre como berço, cheio de adereço, pleno de apreço
E ninguém vem
Não estou conseguindo parir nem sangue,
Mas expurgando o medo de não poder gerar
Não confiar no corpo que se tem
Tô grávida de ninguém
Talvez o medo medonho do medo de ter medo
Faz do aborto espontâneo um espanto do corpo morto
Mas também sou mãe
E isso faz diferença!
Também foi cedo e feto pouco feito
Sem sexo, sem nome, sem imagem
É só uma gravidez de faz de conta.
Conta a fábula, que há de haver um final feliz
E se nem tudo é como eu sempre quis,
Melhor poder querer diferente
Intervalo. A cena um já foi.
Quer o só ver quando o sangue escorrer
O quê se esvai e o quê resta
Hei de recolher, talvez encolher, mas vou viver…
Com essa marca
Abre-se no meu corpo uma fresta
De alguém que viveu e quê é comum
E ninguém fala
Cala, calha, valha, vala.
