Psicanálise e tecidos do laço social – Cosmopolita
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Psicanálise e tecidos do laço social

Se tem uma coisa que fez com que nos afastássemos de fazer laços sociais mais saudáveis, essa coisa é o advento das especializações. No mundo contemporâneo, quanto mais especializados somos, mais incrível, mais situado, mais competente é o nosso trabalho. Eu me pergunto muito sobre isso. 

Porque penso que tecnologicamente é fundamental ser especialista, descobrir ferramentas, inventar modos de cura com avanço tecnológico. A cura da AIDS aconteceu assim, as opções de tratamento medicamentoso para doenças diversas, os dispositivos que funcionam no corpo para que um coração sem força muscular possa bater com a força suficiente pra bombear sangue para o corpo, etc, etc.

Mas o mundo humano subjetivo interfere na constituição e no funcionamento do corpo, então, é necessário observar e levar em conta os efeitos da medicação na subjetividade, os efeitos de um coração transplantado em outro corpo, no pensamento, no sentimento, e por aí vai.

Perdemos essa via que na época em que Freud viveu ainda estava lá. As investigações científicas partiam muito mais da clínica para a teoria do que da teoria para a clínica. Os modos como fazemos laços uns com os outros, essa articulação psíquica no emaranhado da subjetividade, são singulares, cada um de nós se arranja de um jeito nas relações. 

Então, nesse campo, é preciso primeiro ouvir, pra depois sustentar com as ferramentas teóricas, na medida em que as maneiras como nos relacionamos, os gatilhos, os sofrimentos psíquicos e corporais e também as alegrias, são diferentes entre nós e, desse lugar singular, podemos refletir, ampliar e repensar a teoria a partir de outros pontos de referência. 

Dá pra afirmar, com isso, que cada caso clínico traz novas descobertas teóricas, a partir dos caminhos peculiares de construção subjetiva. Toda construção subjetiva fala de laços, já que nenhuma subjetividade deixa de apontar para o Outro. Se não houvesse um Outro pra quem dirigimos nossos afetos, não seria possível a existência humana, né? 

Morreríamos um tempo depois de nascer, pois ninguém viria em nosso socorro para aliviar a fome e os desconfortos que existem desde que chegamos a esse mundão cheio de coisas e de gente. Nossa vida depende de um Outro. Vida do corpo e vida psíquica. Que são indissociáveis.

O eu se dirige a um Outro sempre, a seu modo. Quando digo “o Outro”, estou falando dos investimentos que fazemos nas relações e, por sua vez, no mundo em que vivemos. Estou falando de laços sociais.

As especialidades podem eliminar o Outro. Pra tratar o músculo cardíaco, a medicação provoca um mau funcionamento renal, por exemplo. E assim vai. Na psiquiatria, uma medicação psicotrópica tira completamente a angústia de um sujeito delirante, porém o põe para dormir nocauteado, o desliga do mundo. Num momento de crise, é essencial poder desligar esse botão em busca de reset mesmo, ainda que momentâneo. Mas tem que ser momentâneo, ou então inviabiliza a vida, inviabiliza a construção de laços afetivos, ou laços sociais, dá no mesmo.

A relação entre o interior e o exterior de nós é a própria vida. Freud construiu a psicanálise dizendo isso. Não tem exterior sem interior e vice-versa. Não somos impenetráveis, não podemos nada absorver do exterior ou extinguir tudo o que nos é estranho. Não se pode silenciar o sofrimento, porque ele retorna. Freud é portanto, contemporâneo, perfeitamente contemporâneo, não apenas do seu próprio tempo, mas também do nosso. 

Essa concepção serve, ainda, como base pra gente pensar a natureza e a relação tóxica que temos hoje com ela: somos a natureza, não só estamos nela. Aílton Krenak, líder indígena, ambientalista e filósofo, nos traz essa clareza em cada fala dele. É sobre ser parte do rio e da floresta e não sobre ter o rio e a floresta a nosso serviço, a serviço de uma lógica mortífera, entranhada pelo capitalismo, que leva a gente a destruir justamente o que permite a nossa vida.

Em seu tempo, ouvindo as histéricas e investigando traumatismos de guerra, logo depois da Primeira Guerra Mundial, Freud construiu uma teoria que fornece até hoje elementos bem potentes tanto pra pensar problemas clínicos, como, por exemplo, a compulsão à repetição, quanto pra pensar a política, por exemplo, com a instrumentalização perversa da pulsão de morte a serviço da necropolítica. 

Freud deu voz ao sofrimento das histéricas silenciadas pelo dispositivo médico, retirou os sonhos e as fantasias sexuais infantis do campo do absurdo e da própria inexistência. A partir de Freud é possível dizer no divã, em associação livre, aquilo que não se podia dizer. E esse dizer pode finalmente ganhar corpo, surpreendendo inclusive aquele que fala.

A psicanálise age na raiz, como testemunha e como transformadora da história. Como diz Ianinni, no livro Freud no século XXI, a psicanálise esteve à frente de seu tempo e, em certa medida, está à frente do nosso…

Ianinni nos lembra que o mega trágico ataque terrorista contra as Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001 começou a encerrar o século XX. E que parecia o fim dos tempos, o fim geral dos tempos. Mas não foi. 

Teve ainda, 20 anos depois, a paralisação planetária provocada pela pandemia de Covid-19, o evento de dimensão mundial que durante o tempo em que durou, nos levou a perder as principais referências que nos localizavam no mundo que a gente conhecia. “De fato, fomos dormir em um mundo e acordamos em outro, se e é que acordamos.” (Ianinni, 2024, p. 73)

O horizonte se dissolveria?, a gente pensava.

Fomos surpreendidos por um corte que afetou quase todas as esferas de nossas vidas, como se mergulhássemos no escuro, desorientados, sem reconhecer o mundo ao qual estávamos acostumados. 

Assim chegou o século XXI. Entre outras muitas questões sociais e políticas, a pandemia não inventou o sujeito digital, mas mostrou nossa dependência ao discurso digital como nova figura do laço social contemporâneo. 

Peter Paul Pelbart (2021, p. 14) diz que “a pandemia funcionou como um revelador fotográfico: o que estava debaixo de nosso nariz, mas não enxergávamos, apareceu à luz do dia.”

Por mais que a sensação de normalidade já esteja colocada no nosso dia a dia, há cicatrizes que não silenciam. E não por acaso, a clínica nos mostra um efeito tardio na forma dos sofrimentos, os mais diversos. 

Quais são os sintomas de nosso tempo? Como ler Freud hoje, ler nosso mundo, nosso tempo e suas questões, sem ficarmos fascinados com respostas rápidas ou conclusões trazidas pela Inteligência Artificial? Conclusões trazidas a partir de nossas próprias experiências, como o Instagram está propondo treinar a IA.

A psicanálise não pode ser indiferente às camadas de mundo, aos horizontes. Jamais! Não pode ser insensível às múltiplas formas contemporâneas de segregação, às diversas lutas por reconhecimento, como as lutas antirracistas. Não pode ser insensível às conquistas e desafios das novas formas de viver e de pensar o corpo, o gênero e a sexualidade. Também não tem chance de se abster do que significa fazer psicanálise no contexto brasileiro. 

Não pode ser insensível ao aumento das desigualdades. Nem neutra em relação à urgente e provavelmente duradoura luta antifacista. Tudo isso fala dos modos como fazemos laços sociais. É possível ler Freud nos responsabilizando por estar à altura da subjetividade, dos corpos e dos laços de nosso tempo.

Talvez, ao invés de ler Freud como uma caixinha de ferramentas, possamos, como Ianinni propõe:  ler Freud como uma máquina de luta que nos fornece uma lanterna para ver, ou ler o mundo, na escuridão, sem nos situarmos fora dele. (Ianinni, 2024, p. 80) Sim, certamente a psicanálise serve pra isso.

Então agora eu vou trazer uma reflexão sobre o que venho pensando. Poderíamos chamar essa reflexão de: Ressonâncias de uma possível conversa entre Ailton Krenak, Arnaldo Antunes e Jacques Lacan.

Ailton Krenak é indígena, líder ambientalista, filósofo e escritor, recentemente imortalizado pela Academia Brasileira de Letras. Em seu livro Ideias para adiar o fim do mundo (2019), Krenak nos lembra como somos feitos de natureza e chama atenção para o absoluto descolamento humano “desse organismo que é a terra.”  (2019, p. 17)

Na lição de 15/04/1975 de R.S.I., Lacan sustenta a partir da descoberta freudiana do inconsciente que o ser humano manifestamente não tem nenhum saber instintual e, nesse sentido, afirma que só há o inconsciente para dar corpo ao instinto.

Somos feitos de linguagem e a linguagem tenta encobrir o real, encobre o que seria a natureza humana, o que não tem representação simbólica possível. É praticamente a função da linguagem, que fracassa, não dá conta desse papel, né. Está sempre de certa forma furada também.

Arnaldo Antunes é um artista da palavra, inclassificável, como ele mesmo diz. Antunes fala de uma paixão pela caligrafia que é correspondente ao que aparece em suas canções, como se fosse uma “entonação gráfica”. 

Como se a curvatura do traço, a espessura, o tremor da mão, a disposição das letras na página, a velocidade do traço, pudesse “entoar uma melodia”, dar uma sugestão de sentido a mais do que as palavras estão dizendo, assim como a entonação melódica faz. 

Lacan se interessa profundamente pela escrita caligráfica em seus estudos, como uma prática da letra que revela uma escrita que possibilitaria para o sujeito um tipo de relação diferente com o inconsciente. Que inclui o gozo como algo que ressoa do corpo de modo singularmente poético. 

Numa conferência proferida em Genebra, Jacques Lacan nos traz a ressonância da palavra como algo que constitui o psiquismo. Porque ouvir a “entonação melódica” forma parte da palavra, que podemos pensar como traço da palavra. A caligrafia e a ressonância da palavra estão ligadas ao corpo, porque a voz é emitida pelo corpo e o traço caligráfico tem o gesto do braço, incorporado ali. 

Podemos pensar se a ressonância da palavra, que faz existir o inconsciente, constituindo seu núcleo real dentro da cadeia simbólica, se a ressonância da palavra poderia alcançar a natureza do ser como um organismo vivo e pulsante, a se enlaçar talvez com outra lógica, que não seja a engolidora lógica capitalista capturando radicalmente o ser em prol do ter?

Como podemos ouvir novamente, e de outro lugar, a ressonância, a vibração, da voz da mãe que nos trouxe ao mundo? Território de vida, território de cuidado, território de amor, território de natureza, território de mãe, Mãe-Terra, onde jamais navegamos sem mapas que nos protejam de qualquer intempérie ou barbaridade do real. Onde vivemos mais gozando do consumo e do excesso e menos investigando sobre ancestrais saberes da natureza já acessados por povos originários ao longo de toda a extensão do planeta azulzinho. Como fazer ressoar o originário em nós?

Referências:

ANTUNES, A. Caligrafia. Disponível em: https://www.arnaldoantunes.com.br/. Acesso em 1 de abril de 2025.

IANINNI, G. Freud no século XXI. Volume 1, O que é psicanálise? Belo Horizonte: Autêntica, 2024.

PELBART, P.P.; FERNANDES, R.M. [org.]. Pandemia Crítica outono 2020, v.1. São Paulo: n-1 edições; edições SESC, 2021, p. 168-172.

LACAN, J. (1975). Conferência de Genebra sobre o sintoma. In: Opção Lacaniana. São Paulo, n. 23; 1998, p. 6-16. 

________, J. (1974/75) O Seminário, livro 22: R.S.I., liçao de 18 de fevereiro de 1975 (inédito)

KRENAK, A. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
Foto de Capa fornecida pela própria autora.

Maritza de Magalhães Garcia, Psicanalista. Docente do Curso de Psicologia do Centro Universitário Serra dos Órgãos (UNIFESO). Possui Especialização em Atendimento psicanalíticos Instituição (IPUB), mestrado em Psicanálise pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2003), doutorado em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010) e pós-doc (2013) no Programa de Pós-Graduação em Psicanálise – PGPSA/UERJ. Tem mais de 20 anos de experiência clínica em consultório particular. Membro do Corpo Freudiano Escola de Psicanálise – Seção Teresópolis. Psicóloga do Espaço Nosso Quintal de Educação para a Infância. 

  • Instagram: @maritzimidades 

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