Sobre telas e cidades – Cosmopolita
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Sobre telas e cidades

Segundo Aristóteles a cidade deve ser concebida enquanto espaço da felicidade. Certamente o filósofo grego cairia para trás se desse um rolê pelos centros deteriorados das metrópoles capitalistas do Brasil contemporâneo. Trânsito convulsivo, atropelamentos corriqueiros, violência gratuita e centenas de imagens que gritam pelos olhos e cegam a sensibilidade dos ouvidos. Não que a cidade-estado de Atenas fosse o céu: Aristóteles fazia parte daquela meia dúzia de intelectuais que discutia democracia, refletia sobre o conhecimento e os patrimônios da cultura,  mas pisava simultaneamente  sobre as costas de milhares de escravizados que sustentavam a base material daquela sociedade. Pois é, do ponto de vista da história o surgimento das cidades é indissociável da exploração econômica, logo da clássica divisão entre trabalho físico e trabalho intelectual.

O cidadão ateniense da Antiguidade acordava pela manhã e  em seguida dirigia-se, junto aos outros cidadãos que formavam um punhado de gente, para a Ágora. Esta pode ser entendida como o espaço para se discutir a vida da Pólis, a vida da cidade, numa palavra:  política. Partindo desta experiência política citadina dos gregos antigos, tentemos agora pensa-la nos dias que correm. Certamente a cidade, a chamada “ morada dos deuses “ segundo as sociedades do Mundo Antigo, ainda permanece como espaço do debate político. Na atualidade ela é o cenário vivo das lutas sociais:  greves, protestos, manifestações etc. Todavia, o espaço físico da cidade hoje coexiste de maneira complexa e contraditória com o espaço digital. Este último articula-se com as lutas das cidades e os debates dos países(as redes sociais muitas vezes preparam, mobilizam, organizam, as ações no espaço físico). Mas ao mesmo tempo o espaço digital é portador de um mundo paralelo que se aliena da vida “ da pólis “.

Seria muito feijão com arroz discorrer aqui sobre o protagonismo do celular em nossas vidas e as graves questões de saúde mental que surgem com o uso desta ferramenta. É uma discussão corriqueira e ao mesmo tempo complexa, que ainda está longe de um consenso entre autoridades, pais, professores e terapeutas. O que não podemos fazer é tentar nos  esquivarmos das dramáticas alterações que o celular apresenta na experiência do nosso corpo. Na contraditória evolução da espécie humana, ficar apoiado sobre os dois pés  e erguer a cabeça para o horizonte representou uma revolução sensorial. A partir desta transformação os olhos e os ouvidos estão compenetrados na realidade circundante, percebem o movimento ao redor, percebem o que está rolando por aí.  Impossível pensar o longo período Paleolítico  e tudo o que veio depois sem esta conquista do humano. Mas eis que no século XXI as cabeças baixas e os olhos fixos nas telinhas retiram durante parte significativa do dia a capacidade de muitos indivíduos perceberem o movimento da vida: desde o orvalho na folha, a flor que se abre,  o canto da pássaro, a lua atrás da nuvem, os olhos de alguém que caso se cruzassem com os nossos poderiam mudar uma vida inteira. 

A sopa rala de imagens servida na cela  online se soma com a degradada  experiência nas cidades. Não se percebe muitas vezes que  o ônibus  passou. A mudança no sinal do semáforo não é vista. Ninguém parece se dar conta  de que o sol deu as caras ou se ele se mandou. O bar, o cinema, o teatro: as trocas de ideias e as reflexões que aqueles proporcionam enquanto formas de experiência coletiva, passam para o segundo plano perante o mundo animado das telinhas. Certamente isto traz graves consequências sociais e políticas. Os famintos que passam, as dores anônimas de quem circula pelas ruas, o desespero de quem perdeu o emprego ou que possui um trabalho precário, aqueles que não conseguem ser atendidos no hospital. Para os olhos exilados nas terras das telas, aquelas pessoas que passam e sofrem tornam-se parte da trama de uma realidade que não “ lhes diz respeito “.

Não se pode perder de vista o caráter dialético das relações entre celulares e a vida nas cidades. Se a alienação e o modo de vida individualista prevalecem no movimento solitário do individuo que segue de cabeça baixa vidrado na tela do celular, como dito acima o debate político e as lutas sociais de hoje em dia passam pelas redes sociais, fazem parte da vida online. Porém, é preciso ter em mente sempre a necessidade de uma relação libertária com os espaços e as imagens capaz de alargar a imaginação e logo transformar as relações sociais dentro e fora das telas. Guy Debord, escritor francês que foi o cabeça do barulhento movimento situacionista, denunciava a condição de espectador passivo do individuo nas metrópoles. Em seu clássico A Sociedade do Espetáculo(1967), obra que fazia parte das leituras da juventude revolucionária do Maio de 1968, Debord  apresenta as novas realidades políticas e culturais da sociedade capitalista. É o espetáculo que consiste numa relação social mediatizada por imagens. O que observamos neste espetáculo  é o movimento das mercadorias, a representação das mercadorias,  a espetacularização das mercadorias que separa/isola os indivíduos. Quer dizer, o eixo da produção econômica no capitalismo alimenta o isolamento e a alienação. Isto é historicamente verificável com o automóvel e a televisão. 

A crítica de Debord poderia seguramente se estender para o celular e outros exemplos da tecnologia digital. Outrossim, o espetáculo não é um muro sem fissuras. Tendo como exemplo as intervenções dos situacionistas no século passado, é possível apropriar-se das imagens e dos espaços urbanos e subverte-los a partir do ponto de vista do desejo. O Desvio, o Détournement , possibilita formas de crítica e oposição através da abordagem, utilização e apropriação dos signos que nos rodeiam nas cidades e nas telas. Não se trata de memes ou coisas deste tipo. Dentro da ação cultural e da crítica, estas práticas podem ser entendidas como um assalto poético que coloca em debate o triste espetáculo em que vivemos.

 Aqueles que trabalham possuem uma posição histórica que é incompatível com as longas horas passadas com a cabeça baixa olhando para o celular. Uma outra cultura pode nascer no interior da pólis decadente.

Afonso Machado (1981) é escritor, historiador e professor. Autor dos livros Modernidade E A Estética Do Credo Vermelho(2016) e A Arte De Narrar As Lutas de Classes(2025), sua produção abrange artigos, ensaios, poemas e contos.
– Instagram: @afonsomachado68

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