Este texto faz parte de uma colab[1] com outros autores do IPEP, tendo como proposta ser escrito a partir de um mesmo ponto disparador: o vídeo de lançamento do primeiro iPhone, apresentado por Steve Jobs em 2007 .
“Quanto deveríamos cobrar por isso?” Essa foi a pergunta feita por Steve Jobs ao apresentar o iPhone no início de 2007. Sim, não faz nem 20 anos. Trata-se de uma pergunta retórica, mas, mais do que isso, de uma pergunta que atravessa o tempo e que alguns poucos interessados ainda se fazem: qual é, afinal, o custo de tal invenção tecnológica?
Por falar nisso, vale a pena situar você nessa cena. É claro que você pode ver o vídeo completo no YouTube, mas não precisa ser agora, pode deixar para depois. Veja, Jobs está em um grande palco, diante de uma tela gigante na qual se apresenta cada funcionamento do novo produto. Ele veste uma camiseta preta, uma calça jeans e um tênis branco, meio encardido. Minimalista, quase ascético. No palco, está apenas ele, uma mesinha ao canto e a grande tela. Há também mais de quatro mil olhares fixos. Ele começa falando do iPod e de como esse produto mudou a forma de ouvir música e, mais ainda, a própria indústria musical. E isso é bem verdade, que o digam músicos e compositores. Ele narra a introdução de cada produto no mercado como se fosse uma revolução tecnológica da humanidade e coloca a Apple quase como um agente civilizatório. O que seria de nós sem as invenções da Apple?
Nessa perspectiva, Jobs apresenta o novo produto como uma junção do iPod, do telefone e do dispositivo de internet, até então restrito aos computadores. Ecco qua!, temos o iPhone. Um aparelho que, segundo ele, iria revolucionar o modo de se utilizar o telefone. Soou profético, não? E, de fato, revolucionou. Só não sei se ainda podemos chamá-lo de telefone, pois as ligações, creio eu, são hoje uma das funções menos utilizadas. Com certeza, a geração Z sequer se interessa por isso. Eu, vez ou outra, ainda o utilizo como telefone. Gosto de ouvir as vozes das pessoas ao vivo, a respiração, nem sempre as cores. O produto surgiu com os componentes básicos que permanecem até hoje, à exceção de um, ao qual voltarei mais adiante: toca música, navega na internet, envia e recebe e-mails, tira fotos, consulta mapas e, para não esquecer, faz ligações. No fundo, o iPhone foi a promessa de um objeto que reúne funções dispersas. Um objeto quase completo, e talvez seja exatamente aí que começa o problema.
Na minha opinião, o que mais me chamou a atenção nesse “novo produto” foi a possibilidade de realizar todas as operações com um único dedo. Se você não se lembra, ou não sabe, àquela época os smartphones tinham teclas físicas, e o toque era realizado com uma pequena caneta. Jobs concentra tudo isso em uma tela que deveria receber apenas toques. Mas o principal ainda estava por vir. Ele começa a apresentar como seria possível ouvir músicas e acessar outras no aparelho. E imagine só: você não precisaria de um botão, nem de botões físicos nas laterais do aparelho, tampouco na própria tela, que agora era inteiramente sensível ao toque, ou melhor, multi-touch. Bastaria deslizar o dedo pela tela, o chamado scrolling. Você poderia passar alguns segundos, ou minutos, deslizando o dedo em busca de uma música, de fotos de uma viagem ou até mesmo de um contato na agenda, já que não seria mais necessário digitar os números completos. A possibilidade de scrolar altera a atitude corporal e parece funcionar “naturalmente” em um fluxo contínuo, sem esforço. O repetitivo ganha, então, um novo lugar físico, psíquico e temporal. Em outras palavras, o scrolar não apenas organiza a interface; tal ato reorganiza o tempo. Tudo passa a existir como fluxo contínuo, sem ponto de basta.
Não satisfeito com tantos avanços em um aparelho agregador de funções, em 2010, no lançamento do iPhone 4, a Apple inclui nada mais, nada menos, que uma câmera frontal e a possibilidade de realizar chamadas de vídeo, as videoconferências. Pronto! O futuro estava pronto. Agora, você poderia tirar fotos de si mesmo, a selfie, sem fazer peripécias; poderia falar com alguém vendo a pessoa e a si mesmo ao mesmo tempo. Não é apenas ver o outro, é ver-se sendo visto. O que muda aqui é que, pela primeira vez, o indivíduo não apenas se olha, ele toca a própria imagem.
Diante disso, é impossível não lembrar do afresco de Michelangelo, A criação de Adão. Na origem da vida, Deus e o homem quase se tocam. Há um pequeno espaço, uma distância que impede esse contato. Enquanto o dedo de Deus está levemente inclinado, o do primeiro homem parece fazer um esforço para alcançá-lo. Em vão. A tal da liberdade não permite. Será mesmo?
Cinco séculos depois, Jobs realiza um outro tipo de operação cultural. Ele possibilita ao homem ver-se nessa relação recíproca e tocar-se, a ponto de que a imagem de Deus deixe de ser o mais importante e que o que passe a valer seja a semelhança. Agora, é na imagem capturada pelo aparelho que podemos nos ver, nos tocar e até utilizá-lo como espelho. Conseguimos modificar defeitos, alterar traços, acrescentar cores, dentes, músculos etc. Somos altamente manipuláveis. Se a Renascença nos relembrou que fomos feitos à imagem de Deus, o iPhone sugere algo mais radical: somos uma imagem que pode tocar a si mesma. O toque deixa de ser encontro para se tornar um comando.
A invenção de Jobs, e de seus colaboradores, foi a base material para o desenvolvimento de outras invenções contemporâneas, como Facebook, WhatsApp e, sobretudo, Instagram. Com o compartilhamento de imagens instantâneas, áudios, vídeos, receitas de bolo, explicações metafísicas, há até quem ensine psicanálise. Tudo isso, e muito mais, circula o dia todo, de madrugada, a qualquer hora, nas telas dos celulares, ou, para ser mais preciso, dos smartphones. Hoje, não nos basta ver a postagem de um amigo ou a divulgação de um evento que nos interesse. Somos expostos a anúncios de coisas que nos interessam, e de outras que não nos interessam em nada; acompanhamos o dia a dia de pessoas que jamais imaginaríamos que existissem e de outras que conhecemos, mas das quais só temos notícias pelas telas. Fazemos tudo isso scrolando. E não para por aí. Hoje, podemos narrar nossas próprias aventuras cotidianas, contar ao “mundo” nosso projeto de felicidade, filmar-nos e fazer poses que provavelmente não faríamos se não estivéssemos equipados com esse dispositivo. Tudo isso parece instaurar um imperativo, uma espécie de ordem silenciosa: criar a própria imagem, recriá-la, ajustá-la, filtrá-la e tocá-la infinitas vezes. Não somos apenas espectadores de imagens; somos alimentados por um circuito que devolve incessantemente a nossa própria imagem. Um algoritmo narcísico?
Talvez possamos dizer que estamos diante de uma nova forma de informalização: quanto mais as relações parecem livres e flexíveis, mais exigente se torna o trabalho de se ajustar por dentro. O contato com o objeto torna-se imediato, quase sem mediações, abrindo um campo inédito de laços e, ao mesmo tempo, deslocando o controle para o próprio indivíduo. Há menos regras visíveis, menos controle externo e mais exigência interna, um certo afrouxamento controlado do autocontrole. O controle não desaparece, ele muda de lugar. E, quando falha, não há a quem recorrer.
No fundo, o que temos testemunhado é uma espécie de síndrome do protagonismo acelerado de si mesmo: as pessoas não apenas se exibem, elas se produzem sem descanso. Obrigam-se a ser autoras, personagens e público de si, tudo ao mesmo tempo. E, como o fluxo não tem ponto de basta, esse protagonismo não conhece pausa — é preciso recomeçar a cada postagem, a cada expectativa de likes, a cada scrolagem. O cansaço que daí resulta não é o de quem trabalha demais, mas o de quem nunca termina de se apresentar.
Lembra da pergunta que Jobs nos fez em 2007? “Quanto deveríamos cobrar por isso?” E então, o que você pensa? Qual foi, ou melhor, qual é o custo que isso tem para nós? Talvez a pergunta nunca tenha sido sobre quanto deveríamos pagar por um telefone, mas sobre quanto de nós estaríamos dispostos a entregar a ele, em tempo, atenção, silêncio e, talvez, na própria possibilidade de relação.
[1] Colab (abreviação de colaboração)é um termo emprestado das artes urbanas, especialmente usado entre os grafiteiros, que designa a produção conjunta de uma obra por dois ou mais artistas, em um mesmo espaço de criação e/ou sobre o mesmo tema, preservando seus traços singulares.
