Deus enfim nos olha! – Cosmopolita
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Deus enfim nos olha!

Este texto faz parte de uma colab1 com outros autores do IPEP, tendo como proposta ser escrito a partir de um mesmo ponto disparador: o vídeo de lançamento do primeiro iPhone, apresentado por Steve Jobs em 2007 . 

Uma história que me encantou:

Um dia após o lançamento do iPhone, um pai posta: sua pequena filha, depois de brincar com seu celular, tenta passar as páginas de seu livro deslizando o dedo sobre ele da mesma forma que fez no iPhone. 

Há, nesse ato, uma continuidade e uma ruptura. O que continua, de uma forma incorpórea, é o texto, que desliza entre o iPhone e o livro; a ruptura é o aparato de suporte, que não é o mesmo. Penso na carta roubada que circula, segundo Lacan, de mãos em mãos, sem que, em nenhum momento, no conto de Poe, saibamos de seu conteúdo.

….

A fala foi o primeiro logos: entonações, timbres de voz, expressões faciais e diversos outros signos. A tradição oral depende da fidelidade, daquele que conta com o escutado, a “verdade” depende do pequeno outro. Nesta transmissão, além dos feitos, transmite-se testemunhos, credibilidade:

Na Grécia arcaica, a palavra falada reina sob a forma de kléos, “fama” — transmitida pelos aedos homéricos. Significativamente, kléos tem o sentido fundamental de “som”.2

Entre o herói, o autor do feito a ser contado, e o kléos que difundia seus feitos, havia o “contador/cantador” — ativo, testemunhal.

Do oral para a escrita: o texto perde parte de seus dados sensoriais, mas ganha permanência. O tempo entre escrita e leitura se espaça e eterniza. Ainda hoje, há arqueólogos lendo aqueles textos. Há um “apagamento” daquele que escreve, do autor. O texto ganha vida própria. A fé migra do testemunho para o texto.

Com a escrita, a cadeia ouvinte/distribuidor é substituída por texto/distribuidor: a fé no feito do herói migra do contador para o texto. O leitor/distribuidor pode distribuir o texto “a si próprio, tornando-se seu próprio ouvinte”3. Impossível não pensar no dispositivo analítico: o analista como ponto de retorno, distribuidor da fala para aquele que, depois de falar, vai se escutar. Um retorno aos tempos arcaicos gregos? Isso me leva a pensar que naqueles tempos arcaicos era de um território dos pequenos outros que se trata.

O texto escrito arcaico grego substitui a memória, mas não prescinde da voz. Os gregos arcaicos praticavam a leitura em voz alta, “a escrita só interessa na medida em que visa uma leitura oralizada”. Mantendo minha leitura de desfazimento da estrutura, para que uma análise funcione, é preciso que o analisante, oralize, dê existência ao inconsciente.

Enquanto analistas, somos ouvintes dos cantos de nossos analisantes: precisamos ouvir as escanções, as métricas e os refrões que se repetem — deixar de escutar a prosa para encontrar a melodia.

Segue a ampulheta do tempo. Um fusionamento transforma leitor e ouvinte em um. Surge a leitura silenciosa. É esse “um” que chega em nossas salas e a quem a análise convida a desfusionar, percorrendo o caminho inverso ao que a humanidade levou milênios para construir.

Lembro que a introdução da escrita alterou o próprio aparelho psíquico e nossa ficção sobre os cérebros. Freud, em “Estudos sobre Afasias”, com efeito nos apresenta o esquema da representação palavra:

A presença da imagem da leitura e da escrita no esquema freudiano retrata a incorporação do logos escrito ao aparelho. Está longe de ser invenção especulativa: afásicos que perdem a fala espontânea podem se expressar se lhes é dado papel e caneta. A escrita/leitura assume, nesses casos, o papel que tinha para os gregos arcaicos.

Em dois milênios, o texto percorre suportes — rolo, pergaminho, papel, prensa — e concentra poder: do código romano à Bíblia oficial, de Gutenberg (1455), à censura dos livros, ao Index. A cena dos nazistas queimando os livros de Freud sintetiza o que está em jogo para nós: o inconsciente subverte a ordem.

Se a Grécia arcaica era o império do pequeno outro, quando o Outro começou a existir? Talvez com o apagamento do sujeito que escreve: o texto desencarnado instaura algo similar à palavra de Deus. Moisés recebe os mandamentos em pedra. Lacan nos diz: a questão não é que Deus não exista, é que ele não nos olha. O herói sai de cena para a entrada triunfal do autor.

E chegamos ao tema de nossa Colab: o iPhone.

Steve Jobs apresenta o iPhone como três aparelhos em um: iPod touch, celular e acesso à internet. Nenhum dos três isolados é revolucionário. Seu conjunto é:

  1. O espaço/geografia muda: alguém pode estar em Tóquio ou Paris e ao nosso lado. Os pequenos outros passam a nos acompanhar em todo lugar. O espaço deixa de ser o mundo; entra em cena o virtual, onde cabem todos que estejam interagindo;
  2. O tempo muda: podemos iniciar uma conversa com um outro pela manhã e só concluir à noite, ou na próxima semana, ou daqui a dois meses;
  3. O espaço público é expandido. É possível agrupar por interesses pessoas de diversas partes do mundo. Grupos de interesses, antes impossíveis, tornam-se factíveis;
  4. Criam-se duplos virtuais: uma espécie de caricaturas dos heróis da Grécia antiga. Alguns são líderes de massas. A monetização torna os duplos virtuais hegemônicos frente àqueles que lhe deram origem;
  5. O Outro corporifica-se: os buscadores de conteúdo (Google é o hegemônico) passam a oferecer o conhecimento do mundo, a enciclopédia das enciclopédias na tela. A “verdade” muda, mais uma vez, de lugar. Na Grécia arcaica, os distribuidores; na era medieval, o livro; agora, os buscadores;
  6. Os psicanalistas começam a fazer sessões “à distância” (antes, eram impensáveis); as instituições psicanalíticas se multiplicam e se esgarçam; o campo transferencial se desloca para as redes.

O iPhone é um elo entre dois tempos. Vinte anos para mudar a nós e nosso mundo.

O turbilhão continua: os agentes de IA já ocupam computadores e celulares, assumindo decisões que antes tomávamos — Waze; Uber. Nossa interação com o mundo híbrido (realidade aumentada) prescinde de nossas decisões.

O deus do mercado, do capitalismo, se moveu para algoritmos de busca. Trabalham com um Outro cristalizado. Prescindem de uma censura ativa porque conservam o mundo de onde tiram suas “verdades”. 

Faz alguns anos comecei uma ficção, um mundo distópico: os habitantes tinham, sobre os ombros, dois pequenos avatares 3D, um azul e um vermelho que pensam por eles. Frente a um acontecimento, começam a dialogar com seu “dono” dando argumentos prós e contra. Os “donos” não precisam pensar, apenas decidir que ação tomar. Era uma metáfora da “imprensa livre do mundo ocidental”. Era!

Os próximos dispositivos que se anunciam para final deste ano, início do próximo, vão prescindir de que você acione um determinado app. Você coloca o pé na calçada e ele chama o Uber para você; você entra no seu carro e ele mostra o caminho para onde você “quer” ir. O iPhone vai sumir, substituído por uma voz que adivinha nossas “intenções” antes de nos tornarmos conscientes delas. Vai colocar objetos em nossa frente como se fossem reais, mais ou menos como a linguagem faz. Lacan diz que podemos colocar um elefante na sala com a linguagem, pois bem, não precisaremos mais fazer isso, colocarão o elefante na sala por nós. A questão é: quem vai tirar ele de lá?

O inferno de Dante (Sartre, “Entre quatro paredes”, se preferirem) está logo ali na esquina.

Tenho buscado resgatar o que chamo a equação freudiana para o sujeito:

fonte 🡪 desvio 🡪 sujeito

Digo que é um dispositivo retroativo, pois aquilo que é produzido na instância sujeito da equação retorna e se soma à fonte. Assim, o que no início era um mundo precedente, material, vai sendo acrescido desde muito tempo de outras camadas:

fonte {mundo precedente; representações; falas} 🡪 desvio 🡪 sujeito {percepções; representações; falas [oral; escrita; leitura]}

O texto acima é uma análise rápida, a partir deste modelo.

O iPhone explodiu Deus, explodiu o Outro em milhares, milhões de pedacinhos. Com a inteligência artificial este quadro se agudiza. Deus já não é tudo! Ele, agora, é feito a nossa imagem e semelhança. Um Deus para cada um de nós, definido para aquilo que devemos ser. Deus finalmente nos olha e, pior, começa a falar conosco!

  1. Colab (abreviação de colaboração) é um termo emprestado das artes urbanas, especialmente usado entre os grafiteiros, que designa a produção conjunta de uma obra por dois ou mais artistas, em um mesmo espaço de criação e/ou sobre o mesmo tema, preservando seus traços singulares. ↩︎
  2. G. CAVALLO; R. CHARTIER. História da leitura no mundo ocidental. Vol.1. São Paulo: Ática, 1998. ↩︎
  3.  Ibid ↩︎

Imagem de capa: Carlos Andreassa @carlos.haa.psi  e @andreassacarlos

Eduardo Sande é psicanalista de formação freud-lacaniana (na medida do possível). Participou do Espaço Moebius e Colégio de Psicanálise na Bahia, onde fundou com outros psicanalista a Confraria dos Saberes. Em São Paulo, participou da Contrabanda e participa do IPEP e Banda à parte. É professor da UFRN.

  • Instagram: @sande.eduardo
  • Celular: (11) 99608-3025

Autor

Eduardo Sande

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