A extrema direita da atualidade considera que a maionese desandou a partir da Revolução francesa de 1789. A separação entre Estado e Igreja, a construção de uma cultura laica e a atuação política revolucionária da plebe , apertam o sapato daqueles que defendem um modelo político teocrático e uma cultura espelhada em surtos puritanos, em sentimentos domesticados. Para a crítica do nosso tempo, necessariamente empenhada no combate ao conservadorismo, é sempre de grande serventia problematizar as relações progressistas entre o corpo humano e as realizações técnicas. São precisamente as potencialidades culturais libertárias destas relações que encontram-se ameaçadas pelos conservadores.
Os ventos políticos do conservadorismo tendem a conter qualquer voo do corpo. Do ponto de vista do desenvolvimento da técnica, já faz muito tempo que foram geradas as condições materiais para desobrigar o corpo ao trabalho desagradável, ao peso da labuta que faz do tempo pesadas algemas. Um corpo livre e criativo pede uma técnica voltada para a coletividade. Quando isto não ocorre o desenvolvimento da técnica leva ao controle, promove vigilância, punição, destruição e desemboca no culto da guerra, tal como o fascismo o fez no século XX. Um corpo solto voltado para a sensualidade , para a expressão artística e o desenvolvimento do pensamento crítico, é perigoso para uma ordem que quer perpetuar para toda a eternidade a ideia de que o caminho universal da felicidade consiste na aquisição de mercadorias.
Considerando que tal ordem embasada na mercantilização do humano exprime o desejo de uma classe social que é proprietária, a técnica e o corpo ficam limitados em suas referidas potencialidades emancipadoras: um tempo voltado para o encontro e a criação, em que a arte e a ciência são voltadas para a coletividade em espaços públicos e laicos, é inconcebível para os conservadores. O ódio aos imigrantes( que hoje na Europa e nos Estados Unidos formam em grande parte os trabalhadores que erguem com as costas os setores de serviços), o negacionismo e o fundamentalismo religioso(estes dois últimos presentes inclusive no Brasil) são elementos históricos que intimidam o avanço das experiências culturais emancipadoras.
A fusão cultural entre diferentes etnias e a defesa da diversidade sexual, plataformas de todos aqueles que concebem uma nova sociedade, formam o caldo cultural que deixam os caretas em pânico: o perigo político é que estes caretas estão na iminência de vestir o figurino da gestapo. É verdade: tal como diria Marx, a história não se repete. Mas sem entrar em contradição com esta premissa, sabe-se que os modelos políticos do passado podem inspirar o presente; e isto envolve tanto as experiências libertadoras quanto as experiências da barbárie. Infelizmente existem os cabeças ocas que ficam fascinados pela linguagem do totalitarismo.
Sem aquele referido caldo cultural embasado no conceito de diversidade, sem a consideração daqueles elementos étnicos e sexuais que desmentem(e denunciam) duzentos anos de razão branca e patriarcalismo que fundamentaram a dominação imperialista, a humanidade não pode avançar. Existem forças políticas e sociais que querem impedir a todo custo este avanço. Na Alemanha fala-se em escolas separadas para alemães e imigrantes e , a exemplo da América de Trump, de prisões e deportação em massa. No Brasil não são poucos os pais que olham desconfiados para as escolas, defendem a intolerância religiosa e enxergam os professores como “ doutrinadores “. No caso brasileiro é todo um retrocesso mental que se faz dentro de uma realidade em que o saneamento básico e a alfabetização não chegaram a todo território.
A grande ameaça que recai sobre os sujeitos que almejam fazer da cultura espaço do corpo livre e criativo é a ignorância e a intolerância alimentadas por narrativas que ignoram os limites entre os fatos e a mentira. Atualmente o chamado “ marxismo cultural “, tese delirante da extrema direita em suas hostes mais paranoicas e que se originou na década de 1990 nos Estados Unidos , rima muito com aquilo que os nazistas das décadas de 1920 e 1930 taxavam de “ cultura bolchevique judaica “. Quer dizer, caretice+ anticomunismo+ antissemitismo formam um conjunto que não apenas reprime o pensamento crítico: a censura, as prisões e os campos de concentração não estão tão distantes no tempo; são aliás terríveis possibilidades históricas.
A arte, a educação , a imprensa e os espaços digitais de interação(redes sociais, plataformas voltadas para a produção audiovisual e debates abertos) fazem parte da luta política, das estratégias para se lutar contra tudo aquilo que sufoca a sexualidade, legitima a exploração econômica e impede o avanço das ideias artísticas, científicas e filosóficas libertadoras. Neste pedaço de século XXI, aqueles que tem consciência histórica torcem para que não estejamos na República de Weimar(1919-33), na Alemanha ás portas de uma era voltada para o totalitarismo. De qualquer modo é preciso combater com crítica, astúcia e energia para impedir que o “ ovo da serpente “, tal como diria o cineasta Bergman, esteja sendo chocado novamente.
Afonso Machado (1981) é escritor, historiador e professor. Autor dos livros Modernidade E A Estética Do Credo Vermelho(2016) e A Arte De Narrar As Lutas de Classes(2025), sua produção abrange artigos, ensaios, poemas e contos.
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