Claustrofobia – um ensaio sobre o tempo – Cosmopolita
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Claustrofobia – um ensaio sobre o tempo

Sou claustrofóbica. Sempre soube.

Mas só entendi o tamanho da minha aflição, semanas atrás. Parada. Cheia de agulhas pelo corpo.

— Doutor…, não se esqueça de mim. Por favor! Reivindiquei quase chorando ao médico, que me disse mais uma vez, que seriam apenas 15 minutos a sessão de acupuntura.

É incrível. Não suporto me imaginar presa. Sem possibilidades. Começo a ficar sem ar.

Coração dispara. Mãos suam. Pés suam.

Isso vem desde sempre.

Lembro-me de quando criança e meu tio me jogando para cima e eu no ar, sem conseguir escapar. Ou quando ele me prendia para me fazer cócegas, e eu sem conseguir escapar. Ou então quando segurava minha mão e me puxava, e eu, sem conseguir escapar. Péssimas recordações para um momento em que não se consegue escapar.

— Doutor! Eu sou claustrofóbica — disse assim que ele entrou — Fiquei pensando coisas horríveis aqui deitada.

— Mas é para relaxar minha santa! Foram apenas 5 minutinhos… Mais 10 minutos e eu tiro as agulhas, tá bem?

Respirei fundo e me resignei. Tentei escutar a música suave de uma rádio americana que já tocava naqueles 5 minutos iniciais. Pensei que o local era bonito. Simples. Discreto. Bem típico.

Fui aos poucos percebendo que eu poderia mesmo relaxar. Que eu poderia sair a qualquer hora.

Arrancar as agulhas com minhas próprias mãos. Sair correndo e gritar: estou livre! Ou, se eu quisesse, poderia apenas me levantar. Ir embora. Dizer chega. Me dei conta que eu poderia escolher dizer não.

E passados quase 7 minutos pensei: eu poderia?

Agostinho de Hipona (354-430), no livro XI das Confissões (Agostinho, 2017), inicia sua indagação sobre o ser ou não ser do tempo colocando em oposição a eternidade e o tempo, sendo um chamado de divino e o outro de terreno. A eternidade, divina, não teria começo ou fim, seria eterna assim como deus, enquanto que o tempo terreno, o tempo dos homens, passageiro. Mas o que existiria antes de deus criar o céu e a terra? Se pergunta. Nada, responde. E o que fazia deus? Continua. “Me atrevo a dizer: antes de fazer o céu e a terra, não fazias nada” (Reis, 2018, p. 179). Logo não houve um tempo antes que deus fizesse o homem. Deus cria o tempo ao criar o homem, conclui. 

Mas o que é o tempo? Essa é a aporia que fundamenta a questão sobre o ser e o não ser do tempo. Sua hipótese cética, aponta para o “não” ser do tempo. Por outro lado, como poderia o tempo “não” ser se ele pode ser falado no passado, no presente e no futuro?

Aqueles dois tempos, passado e futuro, em que sentido eles são, se o passado não é mais, e o futuro ainda não é? Logo, se o presente, para que seja tempo, há de se tornar passado, como podemos dizer, a respeito dele também, que é, se a razão de sua existência é deixar de ser? De maneira que não afirmamos com verdade que o tempo é, senão porque ele tende a não ser (Agostinho, 2017, p. 319).

Agostinho avança sua questão indagando-se: então, se o tempo é, ele pode ser medido? Mas como se o futuro não é, o passado já não é mais e o presente não permanece? Como medir aquilo que não é? Como podemos dizer se o tempo é longo ou curto? Qual base para tal informação? Longo tempo passado, por exemplo, seria há cem anos? Ou longo tempo futuro, daqui há cem anos? Breve tempo poderia ser há dez dias, ou há daqui dez dias? O tempo passado foi longo quando passou, ou somente agora, quando é dito no presente? Agostinho deduz que “aquele tempo presente foi longo, porque, enquanto era presente, era longo” (idem, p. 320).

Qualquer pedaço de tempo, seja ele passado ou futuro só será no presente. Mas mesmo no presente este poderá ser reduzido ao mínimo, e este a um mínimo ainda, de modo que “passaria tão imediatamente do futuro para o passado, que se estenderia por duração alguma” (ibidem, p. 321), tendo o presente nenhuma extensão. Ao tentar reduzir a partícula do tempo, Agostinho chega apenas perto de algo que poderia descrever o tempo, podendo expressar o que é, sempre a partir do que não é, ou ainda do que já foi.

É também nesse trabalho de redução que Agostinho começa a desconstruir a noção de verdade. Nesse ponto, sendo esta não mais referida como algo exato (Gagnebin, 1997). Nas proposições sobre o ser do tempo, chega a percepção de uma verdade sem conteúdo, sem ocupação do espaço, que embora possa ser medida, ela o é a partir daquilo que já foi. A verdade passa a ser abordada não mais como uma coisa factual ou material, mas como uma construção do pensamento, e portanto, alguma coisa que possa não ser. Não ser seria a questão?

Das respostas sobre o ser e o não ser do tempo, Agostinho passa para um segundo momento quando se pergunta sobre os eventos passados e propõe que os acontecimentos passados deixam sinais, deixam indícios que se constituem no tempo presente como imagens compostas de vestígios do passado. São os rastros do passado que imprimem marcas na memória, que onde quer que estejam, o que quer que sejam, não são senão presentes.

Quando narramos, as coisas verdadeiras do passado são extraídas da memória, não as próprias coisas que passaram, mas palavras concebidas a partir das imagens que elas imprimiram na mente, como pegadas pelos sentidos. Assim, minha infância que não é mais está num tempo passado que não é mais, mas a imagem dela, quando a lembro e narro, vejo-a interiormente no tempo presente, porque ainda está em minha memória (Agostinho, 2017, p. 322).

Importante ressaltar que a ideia de “pegadas” sugere um duplo movimento: o aparecimento daquilo que é, a partir do “desaparecimento” ou do aparecimento daquilo que não é mais. Essa perspectiva sugere uma desubstancialização do tempo no sentido de que a noção de rastro alude ao estatuto de uma existência paradoxal de um ser que não é mais. As pegadas apontam para uma presença a partir da ausência. Interessante grifar a transformação do pensamento agostiniano que passa de uma configuração sobre a essência ou a substância para uma questão sobre as condições da apreensão da linguagem e da atividade intelectual. Será o uso da linguagem que sustentará o paradoxo sobre as questões do tempo para ele (Gagnebin, 1997). A partir desse ponto, pensará o tempo não como uma grandeza física, mas como uma construção subjetiva. 

Interessou-me pensar em Agostinho e suas indagações, porque esse tema é essencial à psicanálise. Principalmente quando o argumento sobre o tempo passa a configurar um efeito de linguagem. É nesse estágio que podemos coegendrar passado, presente e futuro retirando a ordem, ou a categorização sobre tempo. Sigmund Freud (2010, p. 84) escreve “passado, o presente e o futuro se enfileiram no cordão do desejo que os percorre […] A relação da fantasia com o tempo é de modo geral muito significativa. Poder-se-ia dizer: uma fantasia como que paira em três tempos, que são os três momentos temporais de nosso representar”.

A realidade psíquica reune no presente o desejo instalado num tempo anterior, abrindo uma possibilidade para o futuro. Aquela que está deitada cheia de agulhas pelo corpo, por exemplo, depara-se com o passado – presa nas mãos do tio – com o presente – na sala de acupuntura, e com o futuro – no desejo de livrar-se das agulhas: “o desejo se utiliza de uma ocasião do momento presente, esboçando para si, segundo o padrão do passado, uma imagem de futuro” (idem, p. 85). Três tempos convergindo para um acontecimento, para um resultado da equação dos tempos, que poderá ser a marca, na memória, do vivido ou poderá ter adquirido uma importância significativa a posteriori, como a resposta no pretérito futuro na moça na acupuntura – “eu poderia!”

Indagar-se sobre a existência da Acrópole, mesmo estando presente na antiga cidadela, fez Freud escrever para o amigo Romain Rolland (1936) dizendo – entre outras coisas – que duas características gerais das inquietações, dos estranhamentos são a defesa do Eu e a dependência do passado, “do tesouro de lembranças do Eu e de anteriores vivencias penosas talvez reprimidas” (Freud, 2010, p. 447), não admitidas sem contestação. A experiência da Acrópole que termina num “distúrbio de memória, numa falsificação do passado”,  demonstra para Freud que a marca da infância não era a dúvida da existência de Atenas, mas a descrença de que viajaria para Atenas “ir ‘tão longe’, parecia-me além de toda possibilidade”(idem, p. 447). Ao contrário da protagonista da crônica acima, Freud, mesmo incrédulo, pode dizer: “Eu pude”, mas não sem estar atravessado pelo tempo.

Referências

AGOSTINHO, Santo, Bispo de Hipona. Confissões. 1ª edição. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2017.

FREUD, Sigmund. História de uma neurose infantil (“O homem dos lobos”), além do princípio do prazer e outros textos (1917-1920): obras completas, volume 14. Tradução e notas de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

_________. O mal-estar na civilização, novas conferências introdutórias à psicanálise e outros textos (1930-1936): obras completas, volume 18. Tradução e notas de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

GAGNEBIN, Jeanne-Marie. Sete aulas sobre linguagem, memória e história. Rio de Janeiro: Imago, 1997.

REIS, Maria Letícia de Oliveira (org.). Perché mi piace: a vida com elas. São Paulo: Calligraphie Editora, 2018. p. 179.

Foto de Capa: harold eugene edgerton

Daniela Lucianeti Quevedo é psicanalista e escritora. Escreve ensaios a partir de cenas e narrativas breves, articulando literatura, filosofia e psicanálise. É mestre em Educação pela Faculdade de Educação da Unicamp, graduada em Jornalismo pela PUC-Campinas e formada em Teatro pelo Conservatório Carlos Gomes. Integra o Instituto de Pesquisa e Estudos em Psicanálise nos Espaços Públicos.

  • Instagram: _daniela_quevedo_

Autor

Daniela Quevedo

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