Há muitos anos, disse a um paciente que o tempo não fazia acordos. Na verdade, eu nem me lembrava de ter dito isso. Só quando ele repetia a frase, atribuindo-a a mim, é que eu parava para pensar no que, afinal, eu havia dito.
O tempo não faz acordos.
A frase voltou algumas vezes ao longo daquela análise. Não sei dizer com precisão qual foi o seu principal efeito. Por vezes, parecia ter sido escutada como advertência, ora como interpretação, consolo ou, até mesmo, uma ameaça que se aproximava. Essas possibilidades se intercalavam. O fato é que ela deu uma direção, ou melhor, ele pôde dar sentidos. Dia após dia, não apenas na clínica, experimento que algumas frases sobrevivem ao contexto no qual foram pronunciadas. Pronunciadas, seguem seu caminho, retornam por outras bocas e gestos e acabamos por escutá-las como se fossem estrangeiras.
Mas por que diabos o tempo não faria acordos? De que tempo mesmo estamos falando? Do tempo do relógio? Do tempo da espera? Do tempo da perda? Do tempo necessário para compreender alguma coisa? Ou daquele tempo seco, burocrático, que aparece sob a forma do prazo?
Hoje estou seguro de que essa frase não tem um sentido unívoco. Ela parece não se deixar fechar em uma explicação, quase um aforismo. Pensar o tempo como prazo é uma possibilidade. Há situações em que ele se apresenta como externo, impessoal, indiferente ao nosso desejo. O tempo de uma prova, por exemplo, não costuma negociar com ninguém. Pensemos nos vestibulares. A prova acontece em um dia e em uma hora determinados. Não se preparar para ela, ou não comparecer no momento marcado, significa ficar de fora. Nesse caso, de fato, não há acordo possível.
Mas há outros tempos. E há experiências que parecem nos colocar diante de uma relação menos obediente, menos administrativa, possivelmente mais íntima com o tempo. A leitura é uma delas.
Qual é, afinal, o tempo de um livro?
Um famoso cantor baiano disse certa vez que o verso “é o que pode lançar mundos no mundo”. Gosto dessa ideia. Um verso, quando acontece, não apenas diz alguma coisa. Ele abre uma passagem. Faz existir um mundo onde antes havia apenas a continuidade silenciosa dos dias. E por isso algumas frases, alguns poemas, mesmo livros, não cabem inteiramente no tempo em que foram escritos.
Sobre os livros, o mesmo cantor escreveu: “Os livros são objetos transcendentes / Mas podemos amá-los do amor táctil”. A formulação, de tão precisa, escapa a uma falsa oposição. O livro pode nos levar para longe, pode nos lançar a outros mundos, a outros séculos, a outras vidas, mas ele faz isso por meio de uma experiência palpável, pois é ele um objeto que seguramos com as mãos. Com peso, volume, textura, odor, o marcador, possíveis manchas e cansaço.
Um livro, portanto, nunca é apenas uma ideia. Ele tem corpo e toca o nosso corpo ao mesmo tempo que é tocado. Lemos sentados, deitados, no ônibus, no consultório vazio entre uma sessão e outra, numa mesa de bar (não, nesse caso eu não leria), numa sala de espera, na cama antes de dormir (frequentemente). Lemos com sono, com pressa, com fome, com ansiedade, com desejo. Às vezes uma frase nos desperta; às vezes uma página nos adormece. Às vezes avançamos depressa, como se o livro nos puxasse pela mão; outras vezes empacamos em uma palavra, voltamos, relemos, desconfiamos de que ali havia alguma coisa que passou rápido demais.
Um livro curto pode nos tomar muito tempo; um longo, às vezes, se deixa vencer de um só golpe. Os que parecem leves pesam por dentro; os que parecem densos, de repente, se abrem como uma janela numa manhã de verão. O tamanho, a espessura, o número de páginas, tudo isso conta, mas não decide sozinho o tempo da leitura.
Talvez porque um livro não tenha apenas duração. Ele tem ritmo.
E o ritmo de um livro nem sempre coincide com o nosso.
Lembro-me de uma estória sobre Doroteia e Filomena, duas meninas de aproximadamente onze anos que adoravam ler livros e, mais, adoravam lê-los juntas.
Era assim, elas geralmente iam a uma biblioteca pegar um livro. Escolhiam de acordo com o que estavam pensando naquele momento. Os assuntos eram diversos. Decidiam juntas, sempre com um toque de dúvida. E todos os dias no fim de tarde se encontravam para ler o livro escolhido. Sim, um único livro.
Doroteia era mais metódica. Sentava-se com a postura ereta, mantinha uma distância regular do livro, por volta de uns cinquenta ou sessenta centímetros, e lia em uma velocidade quase que constante, com poucas oscilações. Filomena, ao contrário, parecia ler em zigue-zague. Ia e voltava. Às vezes se distraía, perdia o ponto, retornava à linha anterior. Quando uma palavra a fisgava, aproximava o rosto da página e a lia não apenas com os olhos, mas também com os dedos, como se a degustasse.
As duas estavam diante do mesmo livro, mas cada uma em seu próprio ritmo.
Doroteia avançava com regularidade. Filomena preferia se demorar. Doroteia seguia. Filomena voltava. Doroteia compreendia depressa. Filomena se deixava capturar por uma palavra, uma vírgula, uma imagem qualquer que rompesse o fluxo da leitura. Ambas estabeleciam seus ritmos diante daquele objeto transcendente.
Quase sempre Doroteia esperava Filomena para virar a página.
Esperar alguém para virar a página possivelmente seja uma das formas mais delicadas de reconhecer que a leitura não pertence apenas ao livro, nem apenas ao leitor. Ela acontece entre ritmos. Entre o que o texto pede e o que cada um pode oferecer. Entre a pressa de seguir adiante e a necessidade de permanecer um pouco mais.
Doroteia e Filomena liam o mesmo livro, liam no mesmo espaço, mas não no mesmo tempo, ainda que o lessem ao mesmo tempo.
Talvez todo livro tenha algo dessa cena. Mesmo quando lemos sozinhos, há sempre mais de um tempo em jogo: o tempo que o livro pede, o tempo que temos para lhe dar e o tempo que ele ainda levará para produzir algum efeito em nós. Por isso, perguntar qual é o tempo de um livro nos leva a considerar o tempo a partir de uma dimensão relacional.
A leitura não obedece inteiramente ao relógio. Eu sei que você sabe disso. Ela tem pausas, desvios, retornos. Às vezes o livro me impõe um ritmo, e eu aceito; outras vezes resisto. Quero avançar, mas ele me obriga a desacelerar. Quero compreender, mas ele me deixa na opacidade. Quero terminar, mas alguma coisa nele pede demora. E, nesse ritmo que não controlo completamente, às vezes encontro um pensamento novo; às vezes apenas caio no sono. E o sono faz parte da leitura.
Volto, então, à frase inicial: o tempo não faz acordos. Em certa medida, ela continua verossímil. Há tempos que não negociam conosco: o boleto bancário, o envelhecimento do corpo, certas perdas, certos encontros que não se repetem, outros que se perdem. Mas os livros me fazem desconfiar de que nem tudo se encerra nessa dimensão.
Um livro também nos impõe algo. Tem seu ritmo, sua espessura, sua respiração própria. Podemos forçar a leitura, acelerar páginas, vencer capítulos, cumprir metas. Mas há livros que se vingam discretamente da nossa pressa: passam por nós sem nos tocar. Outros nos obrigam a permanecer. Pedem silêncio, demora, releitura. Pedem que sejamos um pouco Doroteia, um pouco Filomena: que avancemos, mas também saibamos esperar antes de virar a página.
O tempo de um livro nasce, muitas vezes, desse desencontro entre o ritmo que ele traz e o ritmo com que o encontramos. Por isso, perguntar qual é o tempo de um livro não nos leva a uma resposta simples. Esse tempo não é apenas o que nos conduz até a última página; é também o que o livro exige, o que guarda, o que desperta e o que continua trabalhando em nós depois que o fechamos. Há livros que abandonamos porque ainda não sabemos lê-los. Há livros que terminamos cedo demais. Há livros que só entendemos depois de sofrer alguma coisa. Há livros que lemos uma única vez e nunca mais saem de nós.
Se o tempo não faz acordos, a leitura inventa uma saída perspicaz. Não porque vença o tempo, mas porque nos ensina a habitá-lo de outro modo. Ler é aceitar que uma frase pode demorar anos para chegar, que uma página pode exigir espera, que uma palavra pode pedir que nos aproximemos dela como Filomena, cheia de apetite. O tempo de um livro talvez seja esse… não o que o relógio mede, mas o que em nós aceita ser transformado pela demora.
Francisco Capoulade é psicanalista, diretor e cofundador do Instituto de Pesquisa e Estudos em Psicanálise nos Espaços Públicos (IPEP) e pesquisador convidado no Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS – EHESS/Lier-FYT, Paris) em 2025. Doutor em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e em Psychopathologie et Psychanalyse pela Université Paris Cité (Paris-Diderot), é bacharel em Filosofia e mestre em Psicologia pela PUC-Campinas. Atualmente, realiza pesquisa de pós-doutorado na USP sobre a recepção do ensino de Lacan no Brasil (Bolsa FAPESP). Em 2016, dirigiu o documentário Hestórias da Psicanálise: Leitores de Freud, que discute a recepção do ensino freudiano no Brasil. Coordena o curso de pós-graduação em Teoria Psicanalítica do IPEP/UniFAJ e tem publicações sobre história e epistemologia da psicanálise. Foi membro da ACP de 2010 a 2025, presidindo a instituição entre 2018 e 2020.
- Instagram: @francisco.capoulade
