Uma serpente cheia de cores desfila livremente pela mata. O seu silvo é música que assusta e encanta, gera desconfiança mas seduz. Um pássaro desavisado entra no ritmo da serpente. Dentro de pouco tempo, ele deixa as penas crescerem e passa a emitir um canto louco e agressivo. Um coelho que também se amarra no som do silvo da serpente passa a ter visões libertárias, decide usar óculos escuros e não voltar mais para a toca. Mas quando menos se espera, surge um sujeito que captura aquela serpente tão barulhenta. Colocada agora numa redoma de vidro, o ser rastejante passa a ser observado a partir de uma distância segura. Podemos afirmar que a mesma coisa ocorreu com o bom e velho rock ´n´ roll. Será que este gênero musical foi definitivamente embalsamado, assimilado pela indústria da diversão e teve seu delicioso veneno neutralizado pela cultura estabelecida?
Caso o rock realmente tenha sido convertido em item de museu, isto não é necessariamente uma má notícia. Como veremos mais adiante, arquivos de um museu permitem que o passado atue/influencie o presente. E diga-se de passagem, música não tem data de validade. O jazz e o samba atravessaram o mesmo processo que o rock e nem por isso perderam o seu vigor dentro da cultura: jazzistas e sambistas possuem muito fôlego na atualidade, assim como os rockeiros. Mas para além da habilidade e competência dos músicos, deve-se ter em vista o significado histórico do gênero musical.
Temido pelos papais e mamães, denunciado por instituições educacionais e religiosas, atacado pelos defensores dos bons costumes, o rock em seu problemático laço com os meios de comunicação de massa não era, no século passado, uma simples questão de gosto musical. Não era apenas estilo pessoal que cabe tranquilamente nas redomas de vidro. O rock, muito especialmente nas décadas de 1960 e 1970, exprimia uma visão de mundo e fornecia a trilha sonora pulsante, logo adequada, para os movimentos de rebelião da juventude. Se na atualidade os ícones do rock( que não morreram de overdose) estão pra lá da casa dos oitenta anos, interessa saber o que sobrou desta experiência musical em termos políticos; e diga-se de passagem, a palavra “ política “ neste caso não envolve militantismo ou unidade ideológica por parte dos artistas: é naquele movimento pélvico, na quebra de padrões musicais e de comportamento, no canto desabusado e irreverente, que residem as qualidade estéticas subversivas do rock, logo sua natureza política contestadora. É neste sentido que um artista politicamente conservador como Elvis Presley, exercia contraditoriamente um caráter altamente transgressor quando cantava e requebrava, deixando a América puritana da década de 1950 com a pressão arterial altíssima.
É inquestionável o papel crucial que o rock ocupa na cultura contemporânea. Para além das discussões musicais propriamente ditas, o rock esteve, desde suas origens, intimamente vinculado a temas polêmicos indissociáveis das transformações morais e comportamentais da segunda metade do século XX. Delinquência juvenil, liberação sexual, embriaguez, diversidade étnica , desobediência frente ás autoridades e protesto político, são alguns dos temas historicamente associados ao rock. Este gênero musical minou os valores de uma sociedade cujas velhas formas não se adequavam aos novos conteúdos. O impacto cultural do rock é explicável a partir da forte presença que a juventude passa a ter na vida social e política.
Após a Segunda Guerra Mundial(1939-45) , as potências capitalistas, tais como os EUA, apresentaram condições de vida que alteraram a posição da juventude na sociedade. Se do ponto de vista econômico o fenômeno baby boom gerou um poderoso mercado para adolescentes e jovens nas décadas de 1950 e 1960, as transformações nos espaços educacionais, os novos hábitos e costumes que surgem em torno dos meios de comunicação de massa, revelaram uma situação contraditória: muito mais do que consumidores de mercadorias, os jovens passam a se destacar no processo social/político na medida em que estabelecem de maneira desafiadora uma nova linguagem e ideias distintas.
O rock surge no centro da crise da civilização burguesa(curiosamente, nos tempos da Guerra fria, as autoridades soviéticas reprovavam o rock, achavam que era coisa de gente maluca e expressão de uma cultura decadente). No bloco de países capitalistas avançados, assistimos a uma concentração de poderosas empresas que visam a sua mundialização. As multinacionais passam a controlar mercados e esferas de investimento de capitais. É portanto dentro de uma escalada econômica internacional que ocorre o desenvolvimento das telecomunicações. As novas tecnologias em torno da eletrônica e dos satélites(produtos da corrida espacial entre EUA e URSS) apresentam novas relações sociais. Uma contraditória consciência planetária ganha corpo com o cinema, o rádio, a televisão, com os discos tocando nas vitrolas ; e pode crer que esta consciência não está descolada do corpo, de um novo corpo, inquieto e cheio de energia, difícil de ser disciplinado pelos domesticadores do espírito.
Se durante o período entreguerras a França foi o centro internacional das principais tendências da cultura, no pós guerra os EUA assumem este papel de acordo com os fenômenos culturais de massa. No cenário bipolarizado da Guerra Fria, os Estados Unidos se afirmam como sociedade afluente e tecnocrática que exporta para o mundo capitalista o american way of life. Tais características não puderam no entanto ocultar as graves contradições daquela sociedade: racismo e segregação racial, miséria, repressão sexual e constante vigilância política sobre intelectuais e artistas provenientes da esquerda. O que estava rolando na América dos anos 1950 e início da década de 1960, era a prática de uma educação liberal que acabava por criticar e denunciar o próprio liberalismo. A expansão de cursos superiores demonstrou que o campus das universidades proporciona o surgimento da crítica, do questionamento e de reivindicações. Quer dizer, a concentração de jovens num espaço aberto de debates e experiências, acentuava um conflito crescente com as estruturas políticas estabelecidas e o choque com os padrões e gostos dos adultos.
As transformações educacionais se somam a uma mudança no repertório de informações dos jovens através dos meios de comunicação de massa. Toda esta nova realidade social e cultural não se limitava aos EUA. Os produtos da cultura de massa e as informações via rádio e televisão trouxeram uma aproximação de realidades até então afastadas. Para além do círculo íntimo da família e da igreja, o jovem trabalhador e de classe média passam a ter contato com diferentes manifestações políticas e culturais, de dentro e de fora do seu país. A música negra americana será uma demonstração precisa disso: o jazz e o blues, expressões da cultura negra, apresentam uma outra relação com o corpo, apresentam novas gírias, novas realidades. De um lado o puritanismo branco e do outro a sensualidade da música negra. O jazz e o blues desafiavam o abismo da segregação racial nos EUA, como comprova o crescente interesse dos jovens brancos pela música negra. O rock irá radicalizar este cenário. Uma parte da garotada branca de classe média passa a adotar o modo de vida dos músicos negros boêmios. Existe uma inversão psicológica: os tradicionais modelos de heróis patrióticos e a recatada moral da pequena burguesia são alvos de transgressões nos âmbitos da linguagem musical, da moda e das atitudes dos jovens.
Os padrões tecnocráticos da sociedade capitalista do pós guerra, apresentam um modelo de racionalização técnica e planejamento econômico que atua em detrimento das condições de vida de grande parte das populações. As consequências deste modelo no plano da consciência implicam na noção de carreira, valorização das aparências, a massificação dos gostos e o adiamento do desejo em prol da produtividade. Esta sociedade será questionada, de diversas maneiras, por jovens profundamente insatisfeitos mas que ao mesmo tempo não se identificavam com as formas tradicionais de luta política e nem com o legado cultural do passado ocidental. Tais jovens irão canalizar sua revolta e seus anseios na música e nas artes em geral. Esta afirmação torna-se documental quando observamos a juventude inglesa da década de 1960.
É interessante focarmos nossas atenções na Inglaterra do início da década de 1960, quando jovens operários se identificam, via blues, com o sofrimento e a linguagem do negro norte americano. A crise do Império Britânico(que perdeu várias colônias após a Segunda Guerra) propiciou o colapso dos padrões da Era Vitoriana. A hegemonia conservadora do período vitoriano, em que a Inglaterra era o centro da economia mundial, perdera sua base material a partir do pós-guerra. Uma Inglaterra destruída foi reconstruída pelo Plano Marshal(1948), o que trouxe a crescente penetração dos produtos culturais de massa norte americanos. Assim o modo polido, recatado e cheio de discrições cede lugar ás influências do rock americano e da literatura da Beat Generation(esta última preconizadora da contracultura).
O reprimido corpo do jovem inglês do pós guerra é subvertido por novas tendências culturais: da minissaia de Mary Quant aos conjuntos de rock que se formam em cidades como Liverpool e Londres. Os Beatles(John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr) e posteriormente os Rolling Stones(Mick Jagger, Keith Richards, Brian Jones, Bill Wyman e Charlie Watts) foram responsáveis por uma revolução musical. Num momento em que o rock corria o risco de se tornar uma moda passageira da década de 1950, estas duas bandas (e algumas outras que surgem em solo britânico)deram uma nova vitalidade internacional ao gênero. Quando os Stones ou os Beatles se apresentavam ao vivo, notamos um ambiente em que os jovens podiam expressar seus desejos, sua energia. Num concerto de rock ninguém fica sentadinho, quieto e pedindo silêncio quando alguém ao lado abre a embalagem de um chiclete. Quando uma banda de rock se apresenta as paixões são liberadas numa atmosfera elétrica( gerada por instrumentos elétricos). Em tais condições a sexualidade(e, em alguns casos, a violência ) surge com tudo.
Bem, sabemos que outros gigantes do rock entraram em cena naquela década: Dylan, Hendrix, Janis, Doors, Who, Floyd etc. Na guitarra de Jimi Hendrix, por exemplo, uma época inteira era condensada: estridência, liberdade, sensualidade, improviso, rebelião… A invasão imperialista dos Estados Unidos no Vietnã aprofundou a crise da sociedade norte americana, fazendo a revolta da juventude explodir. Hippies e estudantes rebeldes do final da década de 1960 encontram no rock seu principal canal de expressão. Com o bicho pegando em volta do mundo durante o ano de 1968, a juventude insurgente de vários países fez do rock uma espécie de linguagem internacional da rebeldia. Será que todo este legado cabe num museu? E se couber, quem disse que o museu é feito de coisas mortas?
Historiadores e museólogos comprometidos com a Educação sabem, como diria Benjamin, atualizar o passado. O que está exposto no museu permite que as imagens(e os sons) do passado se comuniquem com o presente. Numa época tão conservadora como a nossa, se alguém passar pelo museu do rock do século XX encontrará uma força musical que ainda bate no quadril e abre a cuca.
Afonso Machado (1981) é escritor, historiador e professor. Autor dos livros Modernidade E A Estética Do Credo Vermelho(2016) e A Arte De Narrar As Lutas de Classes(2025), sua produção abrange artigos, ensaios, poemas e contos.
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