Como costuma acontecer nos dias de evento no IPEP, saí de casa acelerada, pensando nas tantas coisas que precisam ser feitas para preparar, junto com meus colegas, o espaço para aquele acontecimento. Naquele sábado de manhã com Cristiana Facchinetti, recheada de provocações sobre o lugar em que colocamos a história em nossos estudos dentro da nossa formação como psicanalistas — e como isso ressoa nas histórias de como se formam psicanalistas —, voltei para casa ainda mais acelerada do que quando saí.
Cristiana é uma mulher de carisma inegável, o tipo de pessoa que faz com que você diga a tão comumente usada frase após esses eventos — “foi um prazer te escutar” — querendo realmente dizer cada palavra contida nela.
Durante a discussão calorosa que a fala da Cristiana instigou no público presente, fiquei pensando sobre os momentos em que ela se referiu à coragem do analista em se autorizar para além do literal da psicanálise. Isto é, se autorizar a falar suas reflexões e questionamentos para além do que está dito pelos “Grandes” nos livros e seminários, assim como também se autorizar a descobrir o seu estilo na clínica — algo que, com certeza, não estará em nenhum livro nem seminário, não importa quantas vezes vocês leiam e releiam todos eles.
Falando de história, de contextos e de se autorizar, pensei: o que vem se tornando o “se autorizar” na psicanálise nos últimos tempos?
Na hora, lembrei de uma das primeiras supervisões que fiz, com Lauro Baldini, em que coloquei essa angústia para ele, sobre o tal do “se autorizar”, do tipo: “mas… como é que se faz isso?”. Ele me deu uma resposta que ficou gravada para mim assim: “a gente não se autoriza assim… na loucura, né? A gente se autoriza com os outros”.
E será que é assim que os analistas vêm se autorizando nos últimos tempos? Com os outros… ou na loucura?
Os primeiros dois anos do meu percurso na psicanálise estão muito marcados para mim pelos mandamentos de Lacan que eu escutava de novo e de novo nos grupos, nos eventos, nas palestras, nos cursos on-line ou presenciais, enfim… um desses mandamentos era o tal do “o analista deve estar sempre à altura de seu tempo”. E, agora pensando, acho que isso também significa pensar que a própria neurose do analista, sua subjetividade, seus sintomas e seu eu devem ser pensados à altura de seu tempo. O que ressoará, certamente, na forma como ele vai escutar a si mesmo, ler a teoria e escutar os pacientes que chegarem ao seu consultório (ou ao seu direct do Instagram). Afinal, seus sintomas também são sintomas da época em que ele vive, é lógico.
E a leitura que vem sendo feita desse tal de “se autorizar” me parece que ressoa, de forma bastante nítida, um discurso que se prolifera nas redes sociais, nas relações e nas subjetividades contemporâneas: o discurso da autossuficiência.
Será que não estamos vendo um número tão grande de self-made analistas — com ótimos perfis profissionais no Instagram, conteúdos frequentes e grande engajamento — oferecendo análise, supervisão e cursos sem serem reconhecidos pelos outros? Ou será que esse outro no qual se busca o reconhecimento deixou de ser o outro com o qual consigo trocar de fato, e passou a ser o outro virtual, o outro como número de seguidores, curtidas e compartilhamentos; o outro como comentários de aprovação; o Outro que, na realidade – na realidade mesmo – é só a tela do seu smartphone?
Parece que “se tornar analista” passou a ser um traço identitário que se pode alcançar tal como algum outro traço de autoestima que dizem que você pode conquistar se você acreditar em si mesmo. Reconfigurando, assim, o que se trata de um percurso de formação em um processo excepcionalmente interno de transformação (espiritual, talvez?).
Como se o analista da geração atual — da minha geração — tivesse em seu processo-de-transformação-em-analista, a prática incontornável de acordar pela manhã, olhar-se no espelho e repetir com convicção para si mesmo: “você é bonito, interessante, inteligente e psicanalista! Bonito, interessante, inteligente e psicanalista!” fazendo uma espécie de um novo uso da repetição, talvez?
Se autorizando a fazer esse novo uso, talvez?
Se autorizando a se chamar e se dizer psicanalista na bio do Instagram e por aí afora; se autorizando a escutar uma pessoa “em nome da psicanálise” a partir de uma relação imaginária com ela, desconsiderando o valor do percurso em autorizar-se como analista. Um percurso do qual eu mesma não falo como quem o guarda no bolso ou sabe bem do que se trata. Mas algo sobre as trocas que venho tendo nos lugares que frequento me diz que se autorizar em psicanálise não é um processo via mantra.

O que há de simbólico no autorizar-se, talvez tenha a ver com algo que Cristiana também falou naquele sábado: sobre como nossos estudos em psicanálise situam nossas questões. Claro, escolhemos estudar na psicanálise algo que faça sentido para nós, algo com que nos identificamos. E o que faz sentido para nós, como já dizia Lacan — para citá-lo sem recitá-lo —, ressoa do nosso processo de constituição subjetiva.
Por isso, também, a importância de fazer um recorte seu de toda a teoria psicanalítica para aprofundar os estudos. Pois estudar um tema que diz respeito a você, partilhar disso com os outros colegas e gerar discussões teóricas, não é um mero estabelecimento de status quo; é um gesto de se colocar naquilo que se faz. Um gesto arriscado, temeroso. Falar disso em psicanálise e não daquilo, é expor-se. Expor-se como sujeito, como teórico, como clínico; como alguém que quer falar disso, alguém que deseja algo sobre tudo isso. Algo que vai muito além daquilo que se vê no espelho e no feed.

Carolina Manente, formada em Psicologia (PUCC), com experiência clínica pelo Serviço-Escola no Hospital PUC-Campinas, pelo Treinamento em Psicoterapia de Apoio e Arteterapia do Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas (UNICAMP) e pelo Instituto Hospitalar de Psicanálise do GHU Hôpital Sainte-Anne em Paris. Pós-graduada em Teoria Psicanalítica pelo IPEP/UNIFAJ e mestranda em Linguística no IEL-UNICAMP.
- Instagram: @carolinamanente_
