Diante de uma dívida – Cosmopolita
Skip to content Skip to footer

Diante de uma dívida

A entrevista que o leitor encontra aqui é a segunda da série “Um Psicanalista numa Instituição de Psicanálise”1.

Carolina Manente: Você pode me falar sobre como foi o seu percurso numa instituição de psicanálise, pensando em como era o seu funcionamento e a organização entre vocês?

Mauro Mendes: Bom, a minha primeira experiência com instituição psicanalítica foi no Rio, com o Colégio Freudiano do Rio de Janeiro, onde eu posso praticamente indicar como lugar privilegiado do meu percurso inicial na instituição. Lá nós tínhamos, o que nós considerávamos um mestre, que era o Magno, que esteve com Lacan. Então nós recebemos essa presença do ensinamento de Lacan de forma muito viva através dele. A minha experiência com o Colégio Freudiano foi uma experiência de muita criatividade — o Magno era um homem aberto a pensar várias questões relativas ao Brasil. Depois de alguns anos, essa história se modificou, ele acabou abraçando muito unilateralmente a maneira dele ver a psicanálise, o que foi responsável por uma ruptura com muitas pessoas de altíssima qualidade. 

C.M: Foi quando você saiu?

M.M: Eu saí quando eu já estava morando em Campinas. Eu tinha fundado o Colégio Freudiano de Campinas, ainda na companhia do Magno, mas durou pouco, porque essa experiência de separação veio em seguida e eu não via muito sentido em manter a mesma denominação. Em seguida, fundei junto com uma colega da época, Nina Virgínia Leite, a Escola de Psicanálise de Campinas, uma escola que teve uma longa duração. E foi muito importante inclusive na região porque na época havia apenas uma outra instituição, que ainda existe hoje, a do Durval Checchinato – que tinha também uma posição muito própria de como entendia a condução da instituição – e fazia uma contraposição muito saudável. 

Mauro contou que a Escola se distinguiu muito em função do rigor da leitura dos textos — “tínhamos a Revista Literal, que foi muito importante nos temas que fez circular”. Nessa revista tinham muitos artigos traduzidos do francês, pois ele e Nina Leite tinham como objetivo realizar uma iniciativa compartilhada daquilo que Lacan chamou de “passe”. Eles realizaram reuniões em Paris para fazer um passe compartilhado, porque nessa época, ele já se dava entre Escolas. Depois, pela questão da língua, eles decidiram que esse passe não seria da parte deles (os franceses).

M.M: Para mim, a instituição psicanalítica cumpre, em primeiro lugar, o próprio objetivo que ela deve manter: instituir um modo de funcionamento para os interessados na formação do psicanalista poderem contemplar a proposta da instituição e saber se essa proposta está de acordo com as expectativas ou com aquilo que acredita possível e necessário. Um trajeto de estudo e de dedicação para discussão clínica.

A Escola de Psicanálise de Campinas reunia pessoas muito qualificadas, muito bem formadas universitáriamente, o que contribuía significativamente, mas também trazia problemas — porque eu não era tão a favor de uma certa orientação do ensino de uma maneira mais formal, como eu lia. 

C.M: Acadêmico, você diz?

M.M: Acadêmico, sim. Tem razão em pontuar isso porque nós sempre seguimos um certo formalismo no sentido de poder apreender o que é mais importante na obra dos autores que nos orientávamos, né? Bom, e ao lado dos estudos, eu tive sempre um trabalho com psicose — trabalhei muitos anos com a doutora Nise da Silveira — e fui o primeiro a fazer em Campinas o trabalho de apresentação de pacientes, no hospital São João de Deus em São Paulo. Então comecei a mostrar a importância de modificar a estrutura da sessão clínica que havia na Escola e privilegiar a apresentação de pacientes como lugar de ensinamento para clínica do psicanalista – e não mais de seguir um padrão que vigorava nas Escolas de levar um caso e fazer discussões. Insisti para que isso fosse incorporado à Escola, inclusive propus uma Escola organizada inteiramente a partir dos estudos da clínica da psicose. Isso bateu muito de frente com a grande maioria das pessoas. Então isso me levou a uma ruptura, me levou a sair de lá. E quando isso aconteceu, a proposta da Escola tal como estava sendo praticada já não me capturava mais.

C.M: A Escola mudou muito ao longo dos anos, então?

M.M: Mudou. Me levou a sair de lá, mas eu, como sempre, procuro construir laços com as pessoas com as quais eu trabalho. Fiz questão de preservar os laços e não sair assim: “Fui!” e bater a porta. Fiz algumas reuniões com aqueles que ficaram. Isso para mim teve uma importância muito grande porque até hoje eu mantenho boas relações com a instituição, de tal forma que até hoje eles me convidam pra ir lá falar, assistem seminários meus no Instituto Vox.

Isso para mim foi muito importante porque eu estava acostumado com essa história que é praticamente um sintoma no meio lacaniano: quando você vai embora, você necessariamente se torna inimigo de todo mundo. 

E um outro fator importante: eu notava que depois de um tempo as pessoas faziam mais por obrigação do que por entusiasmo. Quando se desmarcava uma reunião, as pessoas comemoravam. Aquilo chamou a minha atenção. Porque afinal de contas, ninguém era obrigado a participar de nada, estavam lá porque queriam, né?

C.M: O que você acha que fez com que as pessoas começassem a se sentirem obrigadas?

M.M: Eu acho que, em primeiro lugar, Lacan introduziu um vínculo onde a obrigação é um fator decisivo, no sentido de que ele tenha nomeado como compromisso, implicação, tantos outros. Ele foi muito rigoroso e exigente com os vínculos e compromissos com a Escola, e isso se transmite.

É como se você tivesse uma dívida com o Lacan. E você tem sempre duas alternativas diante de uma dívida: ou você a salda fazendo alguma coisa de diferente com aquilo que você recebeu, ou você se mantém sempre devedor, e consequentemente o traço comum do devedor é o sentimento de obrigação, de ter que prestar contas.

Eu continuo achando válido tudo que ele propôs, mas eu mesmo criei um instituto de pesquisa e formação em psicanálise, que é o Instituto Vox, um projeto autoral. Quando saí da Escola, recebi propostas para assumir posições de direção em São Paulo, mas não aceitei nada disso. Achei que eu precisava de um tempo de afastamento. Comecei a dar um seminário sobre o tempo [um tema que foi retomado de um projeto de doutorado que Mauro não levou adiante] para um grupo de analistas. Esse núcleo inicial que se reunia comigo toda sexta-feira foi ganhando mais adesão e fundei o Instituto Vox, que acabou de fazer doze anos de funcionamento. Vox é um projeto que procura dar um tratamento ao que eu via como problemático na Escola. 

Não vou dizer que eu criei uma coisa que resolveram esses impasses, mas boa parte dos problemas foi pacificada porque eu acredito que a Escola, um espaço que é voltado para formação dos analistas, precisa ter um projeto e esse projeto implica o compromisso e engajamento das pessoas. Acho que o ensino deva estar ligado a atividades que promovam aprofundamento das experiências clínicas e que sejam a partir de discussões que intercalam uma depuração maior da teoria de maneira a tocar em problemas por vezes não teorizados. 

Então, para você ter um projeto, preciso ter pessoas responsáveis à altura. Por isso eu nunca fui a favor de espaços onde a lei de organização é uma lei da equivalência das funções, dissolvendo a distinção dos percursos. Porque os percursos se diferenciam e são reconhecidos em função da autoridade que você conquista, em função do que você dá prova. Então eu nunca achei que o mais importante fosse, por exemplo, uma estrutura horizontal, mas uma estrutura que pudesse levar em conta os percursos diferenciados e que aqueles que têm percursos diferenciados, pudessem assumir responsabilidades para orientar os outros.

No Vox, por exemplo, com exceção do meu lugar, o de fundador – que sempre se mantém – as funções têm três anos de duração. Ao final de três anos, a pessoa indica alguém que deu prova de ter condições de dar prosseguimento. 

Faço questão de criar uma barreira a algo muito comum nas instituições psicanalíticas: conquistar distinção em função de amizades ou de alianças em nome de encontrar solidariedade para criticar os colegas ou acusações mais pueris, somente para ter esse gosto de se achar melhor que o outro. Acho que isso é uma coisa que não se dissolve com horizontalidade, mas sim com a distribuição responsável pelos percursos e alternância das funções de tempos em tempos.

E eu acho muito importante também que aqueles com percurso mais avançado não retirem satisfação apenas por serem reconhecidos entre os seus próximos — o convite para se expor com outros analistas é decisivo.

C.M: Como é que você percebia a relação entre as instituições de psicanálise de Campinas quando estava aqui?

M.M: Campinas é uma cidade marcada por três presenças mais destacadas: a do Durval, que é a mais antiga em termos de transmissão da experiência lacaniana; a Escola de Psicanálise de Campinas, hoje Tykhè; e um núcleo da IPA. Eu acho que Campinas padece de um certo fechamento no sentido de valorizar excessivamente a tradição universitária. Quando a universidade ganha um destaque mais expressivo que a instituição psicanalítica, o primeiro sintoma que se manifesta é que os analistas começam a achar que faz parte da formação deles ter algum tipo de titulação de pós-graduação. E isso torna a instituição pouco cativante.

C.M: Então você acha que em Campinas as instituições dialogam mais com a universidade do que entre si?

M.M: Com certeza. E com a universidade significa também se valer da tradição do ensino universitário dentro das instituições — não é só frequentar a universidade fazendo cursos de pós-graduação, mas também uma certa forma de leitura. Mas aí você pode me perguntar “Bom, mas isso não está presente em São Paulo também?”. Sim, mas a USP tem uma tradição de incluir mais analistas na universidade do que a Unicamp.

O discurso universitário é movido por uma promessa de gozo onde pode ser conhecido tudo. Esse saber que visa o “tudo saber” cria uma rivalidade, uma disputa para saber quem é que sabe mais. Quando você tem um clima de desqualificação dos seus próximos em função de saber quem sabe mais, você já tem o primeiro indicador que você está longe de uma ética à altura da convivência do que é esperado entre analistas.

C.M: Estou curiosa para saber mais sobre o que você enxerga como causa do que torna as instituições de Campinas pouco atrativas.

M.M: Um primeiro fator que eu modifiquei no Instituto Vox desde o início: no Vox só entram seis pessoas por ano. Eu não quis uma instituição que reunisse muita gente, porque se os analistas não mantêm laço de trabalho, a instituição vai mais servir aos desígnios de prestar serviço do que criar ligações. Em Campinas, na instituição do Durval, havia uma tendência a que o importante fosse você dizer que queria ser psicanalista e depois ir fazendo análise — como se o interesse com a psicanálise fosse condição suficiente. Eu nunca fui adepto disso. Por que você foi buscar essa instituição e não outra? Essa é uma pergunta que é feita aqui no Vox.

Quando você não dimensiona a importância desses elementos, começa a contar com pessoas que rapidamente vão constituir núcleos de relações dentro das instituições para se autofavorecer. E a partir daí começam as rivalidades. 

A instituição analítica pode se tornar um lugar de cristalizar sintomas. Você não precisa ser amigo de todo mundo — eu sempre falo aqui para o pessoal do Vox: a gente precisa ter um clima de boa relação para dar prosseguimento ao trabalho de formação. A gente está aqui porque precisa compartilhar uma experiência e ter mais condições de enfrentar os desafios que a clínica nos coloca. 

C.M: Te escutando, eu fico com a impressão de que uma parte muito importante da formação do analista é aprender a se relacionar com as pessoas por bastante tempo. E essa parte do “por bastante tempo” parece muito importante, pelo o que você está falando, né?

M.M: Muito importante. Porque você sabe, né, todos nós que participamos do meio analítico sabemos que o meio analítico é muito mais decepcionante do que ele se anuncia. Aí você pode se perguntar: “Bom, mas as pessoas não fazem análise?” Sim, fazem análise, mas a verdade também é que se você não cultiva essas relações de maneira a promover um tipo de troca que onde as pessoas têm gosto de manter as relações em função das trocas que elas estabelecem, as pessoas não vão trabalhar juntas para colaborar, mas para mostrar para o outro que o outro não sabe tanto.

É preciso se experimentar com outros, que muitas vezes a gente não simpatiza muito… Olha, eu acho que o analista, para a própria clínica, ele precisa enfrentar os desafios da instituição na sua formação.

C.M: Tem alguma razão específica por você ter mudado de Escola para Instituto?

M.M: Primeiro eu queria me separar dessa tradição que eu vinha da Escola — eu já reconhecia os problemas. Tinha uma relação muito estreita entre Escola, o passe e o Cartel, né? Como é que eu ia dar tratamento a essa questão do passe, que continua sendo uma questão até hoje? Lacan ter restringido o passe aos membros da Escola Freudiana de Paris foi um dos motivos que colocou o passe num lugar de conquista por notoriedade. Era tudo para o quê essa proposta não servia, mas foi no que desembocou. E o próprio Lacan foi responsável pelo Instituto de Ensino da IPA em Paris. Então, fiz questão de pegar o nome Instituto por aquilo que seria o mais decisivo na formação: que esse instituto seja um instituto de pesquisa.

C.M: Como é que você vê a questão da autorização em psicanálise?

M.M: Vou responder a partir da experiência prática do Vox. Você entra e diz: “Gostaria que o meu nome constasse na lista de analistas praticantes do Instituto Vox.” Então você tem a obrigatoriedade de participar do dispositivo clínico — um dispositivo onde você vai apresentar para os seus colegas, com a coordenação de um responsável.

A autorização só se sustenta quando ela é compartilhada. Quando você discute com seus pares dentro de uma modalidade de funcionamento — não é ir lá e falar o que você quer, e nem as pessoas virem dizer o que achavam que você devia ter falado. Ali você sustenta que, segundo aquilo que você entende do tratamento, aquilo é sustentável — e você vai ter possibilidade de escutar os efeitos disso. Assim você reconhece os furos do seu percurso.

E outra coisa muito importante na autorização é você construir condições para transmitir o saber psicanalítico sem necessariamente ter que se valer da mesma forma cifrada que muitas vezes o Lacan se vale. Você começa a construir uma voz própria. Como um segundo autor: aquele que vai procurar transmitir o que o autor em que ele se baseia transmitiu. Ou seja, não é o que eu acho, o que que eu penso, o que eu sinto — mas como é que eu posso fazer uma transmissão que não seja apenas repetição do mesmo.

C.M: Você trouxe a importância da obrigatoriedade de participar desses encontros, e me lembrou do que você comentou no começo — de quando, na Escola, a coisa começou a desandar quando as pessoas iam por obrigação. Então, a obrigação aparece agora em outro lugar?

M.M: É, porque a pessoa vai continuar sendo analista, ela só participa do dispositivo clínico se ela quiser ter o nome dela como analista praticante do Vox. É direito dela se ela quiser. Direito, um lado, de participar da rede de atendimento; compromisso, obrigação, de outro, de participar do dispositivo clínico. Porque essa autorização, essa formação, ela se dá a ver quando você se dirige aos outros.

  1. “Sobre a série: https://cosmopolita.ipep-psicanalise.com.br/psicanalise/04/08/2026/um-psicanalista-numa-instituicao-de-psicanalise-a-serie/ ↩︎

Mauro Mendes Dias é psicanalista, membro fundador do Instituto Vox de pesquisa e formação em Psicanálise em São Paulo, e do Laboratório de Topologia psicanalítica, política e paranóia, coordenador do Projeto internacional “Por que tantas guerras?” pelo MSF – Paris e autor de artigos e livros de Psicanálise, sendo o último deles, “As fronteiras da psicose”. 

  • Instagram: @mendes6701  e  @instituto.vox

Autor

Mauro Mendes Dias

Comentar

0.0/5