Inconsciente da vida cotidiana: palco de uma história – Cosmopolita
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Inconsciente da vida cotidiana: palco de uma história

“Livres dos nomes, as coisas ficavam distantes, misteriosas. Não tinham sido feitas por gente. E os indivíduos que mexiam nelas cometiam imprudência.” Essas palavras, que o autor de Vidas secas (Ramos, 2024, p. 80) enxerta na pouca fala que se pode desenrolar entre o menino mais novo e o menino mais velho, filhos de Fabiano e Sinhá Vitória, podem nos aproximar do debate que eu pretendo provocar com este texto. O trecho se encontra no capítulo “Festa”, que aborda principalmente a ida de Fabiano, Sinhá Vitória, os meninos e a cachorra Baleia à festa de Natal na cidade. Juntando a essas palavras outras como “esquisito”, “mundo subitamente alargado” e “medo”, Graciliano Ramos nos transporta para diante de uma modalidade bastante específica do incômodo, talvez uma em que o estranho, o infamiliar, esteja antes do lado do que está impedido de se escrever do que aquela em que algo já escrito comparece como retorno do recalcado. Talvez, antes do que um sintoma, uma complexidade para o núcleo pulsional que nele se repete e/ou se traumatiza.

Inserindo-me no eixo Psicanálise nos espaços públicos, conforme interesse desse periódico, pretendo abordar aqui algumas impressões — já notáveis até o momento — advindas do projeto Bem-estar psíquico no laço social, que se constitui enquanto uma prática do cuidado com populações em situações de vulnerabilidade. Desenvolvido no âmbito do Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal de Goiás e nascido como espaço de escuta às 13 ocupações urbanas assessoradas pelo Movimento de Trabalhadoras(res) por Direito em Goiás (MTD), tal projeto busca alcançar em seu horizonte algumas coordenadas vinculadas às seguintes dimensões: inserção e coparticipação no cotidiano político-social vivenciado por essas comunidades; construções clínicas cujas demandas advêm dos espaços públicos; ações educativas com as crianças, objetivando construções referentes à nomeação, à história e à memória.

Primeiramente, junto com o exercício de me aproximar do estilo gracilianeano, vou arriscar-me a misturar ao discurso-desabafo[1] de uma moradora de uma das ocupações algumas reflexões que advieram dos estudos que esse e outros endereçamentos de demandas puxaram. Darei destaque ao item I do texto de Lacan “Função e campo da fala e da linguagem”, em Escritos (1998a). Dois pontos para começar: essa moradora endereça sua fala (a nosso projeto, ao MTD e a mim) quando encaminha, no grupo de whatsApp, um áudio convocando as vizinhas para se manifestarem pública e contundentemente contra as constantes ameaças de despejo que a comunidade vem enfrentando (trechos entre aspas, a partir do próximo parágrafo). Semelhantemente ao dito de que “uma carta sempre chega a seu destino”, Lacan inicia essa parte do seu texto nos dizendo que “toda fala pede uma resposta”, que “não há fala sem resposta […] desde que ela tenha um ouvinte, e que esse é o cerne de sua função na análise” (p. 248-249).

“Nós estamos querendo organizar, estamos organizando, na verdade, uma ação para ocorrer no domingo, aqui na nossa associação, onde nós iremos, meninas, montar um documentário, montar um relatório, onde a gente vai … é… usar esse relatório pra gente expor as nossas grandes dificuldades de nossos desafios!, o medo do despejo iminente.” O inconsciente, enquanto parte do discurso concreto, pulsa nessa Ocupação. No cotidiano, um fio misterioso da matéria vida humana tão fina, não sem muitas dificuldades, costuma tomar a dianteira e marcar a toada, pra gente não parar de desejar, assim como canta Caetano Veloso, em Cajuína. É que, muito constantemente também, esse tal desejo sente-se vulnerável à fome, à sede, à poeira, à falta de saneamento, à falta de teto e, pior, às esculhambações políticas, econômicas e morais, mas, mesmo assim, mantém-se em sua função de modelar as nossas necessidades.

“Nós iremos montar um documentário, um relatório, e nesse material o que a gente vai abordar, de forma muito incisiva, muito emocionante, impactante, é justamente sobre os impactos emocionais e psicológicos que as mulheres das ocupações estão sendo submetidas pelas constantes ameaças de despejo.” Diante do tanto que o capitalismo propaga atualmente, esse grito não pede muita coisa; ele pode inclusive ser simplificado na dimensão da dignidade. Em síntese, ele é o desejo de um palco para que se encene uma história, uma vez que ela já se escreveu no sonho, na imaginação e no discurso que circula entre nós e nos marca. Um palco para encenar a vida psíquica capaz de nos fazer sentir bem, com os nossos corpos, nossa saúde e nossa convivência diária com os demais companheiros da comunidade.

“E nós vamos trabalhar nesse material para que a gente comece a mostrar tanto para o poder público, quanto pra todos aqueles que nos rodeiam, o quanto nós estamos prejudicadas, e a tamanha violência emocional-psicológica à qual nós estamos sendo submetidas.” Então, será também um material recheado de direitos básicos, porque não é simples, não, chegar à tal dignidade. Tem hora que a gente acredita, tem hora que não, pois pesa muito essa coisa que acabei de dizer, a falta de teto. Em vez dessa metonímia, que traz em sua contiguidade o 1 que puxa o 2 que puxa o 3 e o 4, encontramo-nos ainda no quase zero de territorialidade, de memória, de nomeação e história. Quem nunca viveu esse sem… não consegue entender, e muitos são os que lançam a primeira pedra, e com ela as demais. Se falta casa, falta endereço; se falta endereço, falta documento; se faltam documentos, faltam as demais figurações e nomeações ao redor deles — falta arquivo. Falta cidadania; se falta cidadania, fracassa-se o processo educativo, e daí mais ainda se complica a sanidade do corpo.

É como testemunham as hesitações dos meninos em Vidas secas: quando a gente não tem recursos e não sabe nomear e dizer as coisas que nos rodeiam, corremos sério risco de “desencadear as forças estranhas que elas porventura encerram” (p. 80). Mas, se falo de quase zero nessa construção é porque já passamos pelo desafio de formar um grupo, apossar-se de um terreno e escrever em sua geografia a nossa ocupação, nomeada Marielle Franco, em cujas ruas erguemos as nossas lonas e, um pouco depois, os nossos barracos de paletes e, na sequência, partes de alvenaria. Também, com essas mesmas características e história, erguemos um espaço coletivo, com o nome de tenda, ou centro comunitário, nossa associação. Tudo isso se deu junto e ao mesmo tempo em que nos unimos num movimento popular, o MTD, que nos põe numa luta maior, em parceria com outras 12 comunidades em situações semelhantes à nossa, sendo 5 delas nossas vizinhas.

Quase zero, mas também quase Um, não fossem as constantes ameaças de despejo que nos traumatizam; formam pesadelos sucessivos até reproduzir a cena do horror final, que vem encerrado na frase “Estão passando a patrola”. Ameaças que, cotidianamente, causam o medo, geram ansiedade, agravam muito nossos problemas emocionais — daí é que vem a crise do pânico, “nesse cenário de não saber pra onde ir, de como recomeçar. Fazer o quê, depois do despejo?” Disseram-nos alguns representantes do prefeito que vão nos levar para um ginásio de esportes, “mas como a gente vai?” Significa nos jogar de vez para a insanidade, com o desmantelamento de nossas famílias e com o destino selado de intensificar, ainda mais, o número, insabido,[2] das pessoas que vivem em situação de rua — outro cenário de desalento, maior ainda, que nos assombra cotidianamente. “É descartável isso, a gente não pode simplesmente aceitar isso, e precisamos fazer algo.”

Sem fugir ao estilo aqui ensaiado, a partir de agora pretendo pelo menos esboçar uma elaboração em torno de algumas coordenadas que podem nos aproximar de uma psicanálise no espaço público em sua dimensão clínica, ou seja, dizer mais pontualmente do que se imprimiu, quanto a isso, no âmbito do projeto de extensão Bem-estar psíquico no laço social. Para tal, as perspectivas já anunciadas estarão em foco: coparticipação, prática do cuidado e construções referentes à nomeação, à história e à memória.

De novo, vem à cabeça a música de Caetano Veloso. O que somos, e o que seremos? “Existirmos, a que será que se destina?”. Pelo sim e pelo não, alguns outros nos fortalecem na convicção de que este manifesto seja justo, certeiro e impactante. Nosso movimento, político, nos levou aos círculos educativos inspirados em Paulo Freire, que nos levaram às discussões sobre justiça social, que, por sua vez, têm-nos levado à psicologia social comunitária e à psicanálise. Foi aí que começamos a entender a dimensão política do inconsciente; entender que nossos sonhos são costumeiramente interrompidos pelo traumático. Também, em nosso fantasiar diário, muito frequentemente, nossas poesias esboroam por causa do medo, medo de sermos despejadas.

Clínica psicanalítica no espaço público. Isso a gente não sabe bem ainda o que é. Talvez esteja chegando agora no nosso vocabulário, encostado em expressões do tipo “política e psicanálise”, “bem-estar no laço social”, “cuidados com a vida psíquica”. Cuidados de quem com quem com quê? Cuidar de mim pra poder cuidar dos outros, ou cuidar dos outros pra poder cuidar de mim? Acho que essas duas coisas se misturam muito a partir do momento em que nos agarramos a alguns fios da tecelagem de uma história. Como nossos pais, e mais alguns, puderam ou não cuidar de nós? Com que educação e com que políticas públicas eles viveram? Agora, fico pensando nas crianças, nos bebês e também nas crianças-adolescentes da Ocupação. Pensando com tristeza, porém sem fraquejar o desejo desta outra cena que compõe este grito.

Li num livro de psicanálise esta expressão, que me pareceu importante: “historicização primária”, que quer dizer que “a história já se faz no palco em que será encenada depois a escrita, no foro íntimo e no foro externo” (Lacan, 1998a, p. 262). Fiquei pensando no grito de guerra do nosso movimento “Direito de morar, morar com direitos!” Será que algum direito se escreve ou se encena se o Outro antes não o sonhou, ou então se nós não aprendermos a dizê-lo? Nossas casas, nossas ruas, nosso bairro, sonhado, servirá de palco para que nossas crianças possam escrever uma nova história a partir desta?

Os estagiários do curso de psicologia me falaram também esta frase, antiga, de um professor da Universidade de São Paulo: “a visão dos bairros pobres parece, às vezes, ainda mais impiedosa do que a visão de ambientes arruinados: […] são bairros que mal puderam nascer para o tempo e para a história” (Gonçalves Filho, 1998, p. 16). É, de fato! Aqui em nossas comunidades, o trabalho humano sobre a natureza e sobre a cidade está interceptado, mas lutamos para resgatar, construir e guardar as nossas memórias, mas… sem teto, sem mesa, estante, gaveta, livros, cadernos, fotografias, endereço, documentos, certificados, isso se torna muito difícil, principalmente para as nossas crianças. De novo, volta a questão da nossa existência e de nossa história. Será como está se escrevendo, para cada criança aqui, seu primeiro capítulo, inconsciente, que, conforme diz a psicanálise, será repetidamente atualizado no decorrer da vida?

Com o seu texto O mal-estar na civilização (1974, p. 95), Freud pode nos ajudar a discutir a respeito disso — nomeação, história e memória: mal-estar, bem-estar nos espaços e nos laços sociais. Ele diz que “as nossas possibilidades de felicidade sempre são restringidas por nossa própria constituição”. Enquanto que ser plenamente feliz é impossível, a infelicidade pode nos alcançar de modo bem mais fácil, advinda seja de nosso próprio corpo (adoecimentos), seja da força destruidora do mundo externo, seja do quão difícil é a nossa relação com os outros homens. Precavido, ele ainda nos alerta do seguinte: “o sofrimento que provém dessa última fonte talvez nos seja mais penoso do que qualquer outro”. Como diz ele, um sofrimento “fatidicamente inevitável”.

Lacan também pode entrar nessa discussão, com sua frase “O inconsciente é o discurso do outro”. Ele diz: sou um dos elos desse discurso, que é também o discurso dos meus pais, bem como os discursos de cada um dos meus próximos, e dos pais deles, na medida em que todos eles cometeram “faltas as quais estou absolutamente condenado a reproduzir”, porque não se para a cadeia do discurso, sendo que agora é chegada a vez de também eu transmiti-la… (1998b, p. 118). É talvez por isso que a gente fala, fala e fala, entende, desentende, aborrece, luta, joga a toalha, mas retoma sempre, novamente, o problema em torno da situação vital, dos nossos sonhos de construção, da nossa busca pela dignidade como condição mínima para, pelo menos, não deixar tão desigual essa disputa entre mal-estar e bem-estar, a qual se faz presente no conjunto dos fatos com que lidamos no cotidiano.

Em seu texto “Função e campo da fala e da linguagem” (1998a), pelo menos em dois momentos, Lacan repete, com pequenas diferenças, a proposição acima: “O inconsciente é a parte do discurso concreto, como transindividual, que falta à disposição do sujeito para reestabelecer a continuidade de seu discurso consciente” (p. 260). Depois: “O inconsciente do sujeito é o discurso do outro” (p. 266). A primeira questão importante aqui é relacionar o conceito de inconsciente ao fato de que um mesmo enunciado abarca ideias contraditórias, desafiando o senso comum, bem como a lógica clássica. A segunda é que esse conceito também não nos permite separar uma realidade individual do cotidiano social. Nele está implicado um paradoxo de que não podemos fugir, pois a experiência “mostra claramente que o inconsciente participa das funções da ideia e do pensamento”, e isso tem a ver com “o verbo realizado no discurso que corre como o anel, de mão em mão” (p. 260). Em síntese, mesmo se tomado nos limites de um consultório, um caso clínico, com suas “redes comunicantes de discurso”, não se desvincula dos fatos da vida cotidiana.

Com essa sua discussão, sustentada durante vários anos, Lacan arrisca dizer uma frase ainda mais radical: “o inconsciente é a política” (2008, p. 350). Isso quer dizer que o inconsciente não se encontra nas nuvens. Ao contrário: seu primeiro palco é uma história, individual e coletiva ao mesmo tempo, cujos capítulos vêm recheados de contradições, ou até mesmo de trechos em branco. Sem dúvida, então, disso que a psicanálise chama de inconsciente, conceito fundante de sua clínica, participam as nossas casas, as nossas ruas, os nossos bairros e os demais territórios em que fazemos laços. Sua pulsação modela nossos corpos. Lacan completa a sua frase mais ou menos assim: o inconsciente é o que liga os homens entre eles, o que os separa e também o que lhes fornece uma outra lógica, que não a lógica do ser extremamente racional, fechado em suas certezas, ou em seus maniqueísmos de mal versus bem. Ou seja, não há então, nessa dimensão do inconsciente, os bonzinhos que fazem caridade e os coitados que imploram a sua ajuda ou a sua aceitação. Trata-se de um enfrentamento em que a gente constrói a vida. A gente cuida.

Foto de Capa: Circo Laheto, fotografia de Alex San.


Referências

CARVALHO, F.; COSTA, M. A. (Direção). Direito de morar, morar sem medo. Goiânia, 2025. Disponível em: https://vimeo.com/1168635371. Acesso em: 26 fev. 2026.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Rio de Janeiro: Imago, 1974. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 21). p. 67-148.

GONÇALVES FILHO, José Moura. Humilhação social: um problema político em psicologia. Psicologia USP, São Paulo, v. 9, n. 2, p. 11-67, 1998.

LACAN, Jacques. Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise. In: LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998a. p. 238-324.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 2: o eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise (1954-1955). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998b. 374 p.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 14: a lógica do fantasma (1966-1967). Tradução de Centro de Estudos Psicanalíticos do Recife. Recife: CEP, 2008. p. 350.

RAMOS, Graciliano. Vidas secas. 166.ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2024. 176 p.

VELOSO, Caetano. Cajuína. [S. l.]: Letras.mus.br. Disponível em: https://www.letras.mus.br/?q=letra+de+cajuína. Acesso em: 24 fev. 2026.


Cristóvão Giovani Burgarelli é psicanalista, doutor em Linguística pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e professor titular da Faculdade de Educação e do programa de pós-graduação em psicologia da Universidade Federal de Goiás (UFG).


Notas

[1] Áudio de WhatsApp, de Carliane Alves de Souza, da Ocupação Marielle Franco, Goiânia-GO, cuja escuta constituiu o ponto de partida para a produção do filme Direito de morar, morar sem medo (https://vimeo.com/1168635371), dirigido por Fernão Carvalho e Maria Alice Costa.

[2] O IBGE, em seu Censo de 2022, não apura especificamente o número de pessoas em situação de rua no Brasil. Registrou, porém, que, neste mesmo ano, 160.485 pessoas viviam em domicílios improvisados, como tendas e barracas. Em maio de 2024, uma pesquisa do Ministério Público de Goiás estimou que, em Goiânia, 2,5 mil pessoas vivem em situação de rua.

Autor

Cristovao Giovani Burgarelli

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