Meu dossiê não era carré – Cosmopolita
Skip to content Skip to footer

Meu dossiê não era carré

Antes de começar, um breve prólogo.

A reflexão que trago aqui é fruto de pequenos fragmentos de duas conferências que proferi entre 2015 e 2016, uma na cidade de Bauru e outra em Campinas. O título era: “Cher Lacan, au Brésil on ne parle pas comme ça” (ou “querido Lacan, no Brasil a gente não fala assim”). Esse título me veio à cabeça quando fazia parte de meu doutorado em Paris. Viver como imigrante me colocou, ao mesmo tempo, distante e próximo da minha própria língua, o que me fez ver coisas que antes me escapavam.

Àquela altura, eu ainda não havia traduzido nenhum tipo de texto — acadêmico, literário ou poema. Os únicos textos que traduzia eram e-mails da minha língua para o francês, quase sempre com intenções burocráticas, ou, no máximo, textos de estudo mais complexos. Por outro lado, recordo-me de começar a pensar sobre tradução já no início do meu percurso pela psicanálise. Os termos em alemão carregados de sentidos, para os quais nunca encontrávamos um equivalente perfeito em português; as formulações barrocas em francês, que exigiam longas notas de rodapé para dar conta de sua multiplicidade — e por aí vai. O próprio documentário Hestórias da Psicanálise: Leitores de Freud (2016) nasceu dessa reflexão. A exposição à língua estrangeira me despertava algo — e continua despertando. 

Você pode estar se perguntando: mas que reflexão é essa que um não especialista em tradução teria a nos trazer? 

À primeira vista, traduzir parece simples. Um falante de uma língua, conhecendo outra, poderia passar ideias de uma para a outra com relativa facilidade. Imaginemos, por exemplo, alguém cuja língua nativa seja o espanhol e que tenha lido um livro em inglês. Meses depois, por coincidência do destino, essa pessoa é contratada para traduzir esse mesmo livro do inglês (língua de partida) para o espanhol (língua de chegada). Bastaria compreender as ideias ali apresentadas e fazê-las surgir na outra língua. Simples, não? Não. Esse percurso é tudo menos simples. Ele é imprevisível e atravessado pela singularidade de quem traduz.

Quero te contar uma experiência, bastante peculiar, que vivi e que talvez ajude a ilustrar o que tento dizer. Quando, há mais de uma década, fui morar em Paris pela primeira vez, por conta dos meus estudos, precisei alugar um apartamento por um ano. Eu não tinha muito tempo, e a burocracia lá é tão (ou mais) irritante quanto aqui. A exigência de documentos era bastante semelhante à brasileira, exceto no formato. À época, era necessário produzir o que eles chamam de dossier: um conjunto de documentos relativos a uma pessoa ou a uma finalidade. Temos essa palavra em português brasileiro, mas não a utilizamos da mesma forma que os franceses. 

A elaboração do meu dossiê foi orientada por um amigo francês que morava em Paris há mais de 25 anos. Ele sabia bem do que se tratava. Após algumas tentativas frustradas — visitas a apartamentos, conversas com proprietários, eu fui percebendo uma certa rejeição ao meu dossiê. Isso começou a me preocupar. Liguei para esse amigo e disse: estou preocupado, ninguém aceita meu dossiê. Ele repassou comigo toda a lista de documentos e concluiu: o que lhe falta é um bom fiador (garant, em francês). E acrescentou: eu posso ser o seu fiador com prazer. Vou lhe enviar meus documentos e você poderá anexá-los ao seu dossiê. 

Agora sim, seu dossiê… disse ele. E eu preciso reproduzir a frase em francês para que você compreenda o problema: “maintenant, ton dossier est carré”. Eu, mais do que depressa, traduzi a expressão em minha cabeça e respondi: “não, acho que você se enganou, mon dossier c’est pas carré, il est rond”. Sylvian, meu amigo francês, não entendeu e repetiu: “ton dossier est carré, agora você vai conseguir alugar um apartamento”, afirmava com convicção. Insisti: “agora, mon dossier ce n’est pas carré, il est très rond”. Ainda acrescentei um très, para reforçar o que queria dizer. 

Sylvian não compreendia minha insistência, e ficamos por alguns minutos repetindo, cada um, sua própria frase. Um momento de incomunicabilidade emergiu daquela conversa de loucos. Eu não aceitava que, depois de tudo que havia feito, ele considerasse meu dossiê “quadrado”. Eu estava satisfeito — para mim, agora sim, meu dossiê estava “redondo”. Diante desse impasse, não percebi imediatamente o que estava em jogo: nos iludíamos de que falávamos a mesma coisa. Eu tentava introduzir, na língua do outro, uma equivalência que não produzia o mesmo efeito — ou, ao menos, não aquele que eu esperava. E ele tentava me fazer compreender algo para o qual não havia equivalência direta na minha língua. Resultado: fracassamos. 

Ao perceber o equívoco, tentei explicar que na minha língua, a brasileira, quando queremos dizer que algo está dentro dos conformes, que está certinho ou perfeito, usamos a palavra “redondo”. Cheguei a citar um comercial de cerveja. Após minha explicação, Sylvian sorriu e disse que aquilo não fazia sentido algum, pois, para um francês, quando algo está correto, está carré. Isso lhe parecia evidente, cartesiano, eu diria. 

Alongamos a conversa e percebemos que essas diferenças não se limitam a esse caso. Quando dizemos, por exemplo, “você está redondamente enganado”, em francês se diz vous êtes carrément en tort. Se traduzíssemos literalmente, diríamos “você está quadradamente enganado” — o que, para nós, não faz sentido algum. É estranho. 

Como duas formas geométricas distintas podem pretender dizer a mesma coisa? Será que dizem a mesma coisa — ou somos nós que nos iludimos quanto à possibilidade de nos compreendermos? 

Depois daquela conversa, meu dossiê foi aceito. Aluguei o apartamento, segui minha vida em Paris e, ainda assim, algo daquela cena nunca se resolveu completamente. 

Durante alguns minutos, falamos a mesma língua, ou acreditamos falar, e, no entanto, não conseguimos nos entender. Não por falta de vocabulário, mas porque cada palavra carregava consigo um mundo que não cabia na tradução do outro. 

Talvez o problema da tradução não esteja apenas nas palavras, mas naquilo que esperamos delas. Traduzir não é fazer passar um sentido intacto de uma língua a outra, mas lidar com o fato de que esse sentido nunca esteve inteiramente lá. Falamos, insistimos, explicamos e, ainda assim, algo escapa. 

Não seria justamente com isso que o psicanalista trabalha? Não com aquilo que se compreende de imediato, mas com o que falha, com o que tropeça, com o que não encontra lugar naquilo que se diz. 

Desde então, desconfio um pouco mais da ideia de que nos compreendemos. E talvez isso não seja um problema. Talvez seja justamente essa pequena falha, esse descompasso, que sustenta o desejo de continuar falando.

Francisco Capoulade é psicanalista, diretor e cofundador do Instituto de Pesquisa e Estudos em Psicanálise nos Espaços Públicos (IPEP) e pesquisador convidado no Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS – EHESS/Lier-FYT, Paris) em 2025. Doutor em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e em Psychopathologie et Psychanalyse pela Université Paris Cité (Paris-Diderot), é bacharel em Filosofia e mestre em Psicologia pela PUC-Campinas. Atualmente, realiza pesquisa de pós-doutorado na USP sobre a recepção do ensino de Lacan no Brasil (Bolsa FAPESP). Em 2016, dirigiu o documentário Hestórias da Psicanálise: Leitores de Freud, que discute a recepção do ensino freudiano no Brasil. Coordena o curso de pós-graduação em Teoria Psicanalítica do IPEP/UniFAJ e tem publicações sobre história e epistemologia da psicanálise. Foi membro da ACP de 2010 a 2025, presidindo a instituição entre 2018 e 2020.

  • Instagram: @francisco.capoulade

Autor

Francisco Capoulade

1 Comentário

  • Pedro Lalli
    Posted 15 de abril de 2026 at 09:54

    Ahhhh muito bom. Vivendo já a dez anos fora do Brasil esse texto me tocou por que vivo essas diferenças diariamente e acho rico como podemos aprender e praticar a empatia com isso. 👏 Excelente reflexão!

Comentar

0.0/5