A poesia na rebelião e a rebelião enquanto poesia – Cosmopolita
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A poesia na rebelião e a rebelião enquanto poesia

As novas rebeliões populares que tomaram de assalto países  europeus( França, Espanha, Portugal etc)  interromperam a morna e opressora normalidade do cotidiano. As vozes dos imigrantes e dos estudantes falam a mesma língua dos insurgentes, exprimem o vocabulário político dos oprimidos que é internacional. Por certo, estes acontecimentos sacodem a poeira da vida política e social  , suscitando importantes análises sociológicas e inflamando as mentes inconformistas com ricas analogias históricas. 

Dentre tais analogias históricas a mais recorrente, sem dúvida, é o Maio de 68.  Eis que esta última referência histórica, quando relida, provoca em nossos dias ecos políticos a partir de provocadoras imagens e explosivas palavras. Assim, a poesia e a política rasgam as cortinas do tempo e geram fendas na realidade.

Não seria este o espaço para reconstituir o Maio de 68 e nem mesmo discorrer sobre possíveis releituras históricas á luz das necessidades políticas das novas gerações.  Poderíamos optar por um comentário histórico que realizaria, partindo das necessárias considerações sobre as diferenças entre os conteúdos históricos de 1968 e 2026, um balanço das experiências políticas na contemporaneidade. Seria uma opção importante e uma tentativa crítica para esclarecer as coisas. Mas insistindo mais uma vez aqui na assertiva de que na alta temperatura dos acontecimentos históricos a cultura torna-se febril, é preciso localizar no tempo o corpo desejante que se rebela, que fala/se expressa.   

De olho na psicanálise, fica fácil sacar que não existe agitação política fora dos corpos que realizam a ação: estes corpos expressam o desejo. A intenção aqui é demonstrar que em cenários políticos e sociais de agitação,  a poesia tende a  ser mobilizada para falar a linguagem da liberação. Não tenhamos dúvidas de que a rotina é a principal inimiga da poesia na sociedade capitalista. 

Os gestos corriqueiros, os barulhinhos do celular, os memes previsíveis, os cacoetes que aumentam o abismo entre o sujeito e o objeto do desejo…  A verdadeira vida estaria escondida em algum lugar?  A ilusão de continuidade dos segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses e anos é uma armação dos ponteiros dos relógios regidos pelo tempo do capital. É por estas e por outras que os calendários passam voando como folhas de árvores levadas por um vento que ninguém se pergunta de onde vem. Entretanto, basta que uma pedra atravesse o vidro da janela das instituições dominantes, que a percepção sensorial altera-se de cima a baixo. É a partir deste susto que a história entra pela janela e obriga a todos prestarem atenção nas lutas e nas reivindicações do mundo do trabalho, nas pautas dos movimentos sociais. 

No momento em que o tempo maquinal é interrompido pelas lutas sociais, a realidade torna-se algo em aberto: a vida se manifesta de maneira pulsante, exigindo um considerável aumento das formas de expressão de um corpo até então anestesiado. A poesia, sua capacidade de elevar as emoções e condensar em poderosas imagens um aprofundamento sensível do mundo, tende a se manifestar em tais circunstâncias. 

A exemplo de outros escritos desta coluna, mais uma vez concebe-se a poesia como algo que vai muito além da literatura: trata-se de um aprofundamento da realidade, de um êxtase que nos arranca das convenções sociais e culturais, de um relâmpago que ao evocar as qualidades alquímicas do verbo coloca em cheque o racionalismo.  É esta  reivindicação de uma mais realidade que confirma a atualidade do programa do Surrealismo; e neste sentido acontecimentos históricos como o Maio de 68 tornam-se realizações poéticas, ou ao menos demonstrações poéticas, das ideias surrealistas. 

No final do célebre Discurso no Congresso dos Escritores redigido por André Breton em 1935, o autor estabelece não apenas a palavra de ordem do movimento surrealista mas também uma lição revolucionária que seria anos mais tarde compreendida pelos estudantes e operários no ano de 1968:

(…) “ Transformar o mundo “, disse Marx; “ Mudar a vida “, disse Rimbaud: para nó estas duas palavras de ordem não são mais que uma só “(…).

A concepção que Karl Marx possui da história pautada pela luta de classes e a atitude rebelde que Arthur Rimbaud assume contra a cultura estabelecida, formam aos olhos de Breton uma unidade inseparável na condução dos combates pela emancipação humana. Fica fácil entender como esta posição a um só tempo política e poética se manifestou nos famosíssimos slogans do Maio francês : A imaginação no Poder, Sejamos realistas: peçamos o impossível,  É proibido proibir etc. Mais de um comentarista já observou que se Breton estivesse vivo em 1968(o escritor faleceu em 1966) ele teria se amarrado nas revoltas dos meses de maio e junho; o cara teria ficado maravilhado com a coisa toda. 

Em 2026 temos novas situações que apresentam velhos problemas. São problemas que não foram historicamente solucionados(a exploração do trabalho…). Em meio a este cenário político arretado, perante as demonstrações de contestação social, a poesia é escrita nos atos de quem luta pela liberdade.

Afonso Machado (1981) é escritor, historiador e professor. Autor dos livros Modernidade E A Estética Do Credo Vermelho(2016) e A Arte De Narrar As Lutas de Classes(2025), sua produção abrange artigos, ensaios, poemas e contos.

Instagram: @afonsomachado68

Autor

Afonso Machado

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