Imagine uma notícia em que uma pessoa é presa por maltratar animais, em especial cachorros e gatos, aqueles que comumente estão conosco de maneira bem próxima há pelo menos 15 mil anos. Imediatamente poderíamos pensar: “que crueldade”, “quanto sadismo”, “como poderia alguém fazer isso com um animal tão dócil?”. Mas é aí que encontramos um ponto interessante. Seria o sadismo um mal em si? Apenas pessoas perversas são capazes de atos desta feita? Identificar um culpado, condená-lo e, ao mesmo tempo, afastá-lo de nós costuma ser uma reação moral quase imediata. Como se o sadismo fosse atributo exclusivo de certos indivíduos peculiares – me desculpe o eufemismo –, habitantes de uma região obscura da experiência humana à qual não pertencemos. Mas será que as coisas são realmente assim?
Em 1885, Machado de Assis publicou um conto intitulado A causa secreta, muito antes do nascimento da psicanálise, diga-se de passagem. Sua hipótese é inquietante: talvez a crueldade não seja apenas um desvio moral que podemos localizar em algumas pessoas, mas uma possibilidade inscrita de maneira muito mais ampla na experiência humana. Algo semelhante encontraremos anos mais tarde em Freud, especialmente nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Não pretendo, contudo, transformar Machado numa espécie de protofreudiano. As reflexões do romancista brasileiro possuem sua própria consistência e se apoiam tanto nos dilemas sociais e individuais de seu tempo quanto no surgimento de uma forma moderna de sensibilidade que transforma a vida privada, os conflitos morais e as ambiguidades subjetivas em objetos privilegiados da observação literária.
É de praxe pensar o sadismo como uma característica pertencente a certos tipos de indivíduos. O senso comum tende a associá-lo a criminosos, torturadores, assassinos ou personagens que desafiam as fronteiras daquilo que consideramos humano. Esse modo de colocar as coisas nos permite acreditar que a crueldade é exclusiva de um grupo específico de pessoas. Mas o problema é que tanto Machado quanto Freud parecem sugerir outra coisa. O sadismo não seria uma anomalia particular de alguns indivíduos, mas uma possibilidade inscrita, em diferentes graus e formas, na própria experiência humana.
Tal hipótese pode ser encontrada em A causa secreta. Machado apresenta ao leitor três personagens: Garcia, jovem estudante de medicina; Maria Luísa, esposa de Fortunato; e o próprio Fortunato, homem respeitável, generoso e admirado por aqueles que o cercam, pelo menos à primeira vista.
Desde os primeiros encontros, Garcia sente por Fortunato uma mistura de admiração e curiosidade, eu diria. Há nele algo difícil de definir. Seus gestos parecem nobres, suas ações frequentemente generosas, mas, por trás delas, Machado insinua a existência de um elemento que escapa às explicações mais evidentes, que insiste diante dos fatos. Garcia se pergunta por que Fortunato se dedica com tanto afinco aos mais necessitados, sobretudo àqueles que padecem algum tipo de sofrimento. Sua curiosidade nasce justamente da dificuldade de compreender as razões de seus atos.
Ao longo da narrativa, pequenos episódios vão se acumulando. Em mais de uma ocasião, Garcia percebe que Fortunato demonstra um interesse singular por situações de dor e sofrimento. Nada suficientemente explícito para justificar uma desconfiança, mas o bastante para deixar uma pulga atrás da orelha. Apenas detalhes, olhares demorados, uma atenção incomum a cenas que a maioria das pessoas preferiria evitar. Tudo isso vai deixando Garcia cismado.
Até que Garcia presencia uma cena que lhe permite reunir, como de um só golpe, os fragmentos dispersos de suas observações. Ao visitar Fortunato em sua casa, encontra-o realizando uma experiência com um rato. O animal, preso e indefeso, é submetido a sucessivas mutilações. O que mais impressiona Garcia, no entanto, não é apenas a crueldade da cena, mas a expressão de Fortunato. Sem estar movido por raiva, ódio ou qualquer explosão passional, ele acompanha o sofrimento do animal com atenção meticulosa, quase contemplativa. Cada reação do rato parece despertar seu interesse. Cada manifestação de dor é observada com uma curiosidade que beira o prazer.
Garcia finalmente acredita ter encontrado a resposta para o enigma que o acompanhava desde o início da narrativa. Os gestos generosos de Fortunato, sua dedicação aos enfermos, seu interesse pelos que sofrem, tudo parece agora adquirir um novo sabor. O sofrimento alheio não era apenas algo que despertava sua atenção. Era algo que o atraía.
Não é difícil perceber por que um conto como esse costuma despertar tanto interesse entre leitores familiarizados com a psicanálise, e não somente. Afinal, a hipótese de que nossos atos possam ser movidos por razões que desconhecemos ocupa um lugar de destaque na obra freudiana.
Em Freud, essa hipótese assume contornos ainda mais sistemáticos. Se Machado nos convida a desconfiar da aparente transparência das razões humanas, Freud transformará essa suspeita em um dos pilares da psicanálise. Nossos atos, escolhas, sintomas e até mesmo nossas virtudes podem ser atravessados por motivações que escapam à consciência, como naquela famosa formulação de Freud segundo a qual o homem já não seria senhor em sua própria casa.
Não à toa, uma das teses mais controversas dos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade foi justamente a recusa em separar de maneira absoluta o normal do patológico. Freud sugere que os chamados desvios da sexualidade não constituem um território completamente estranho ao sujeito dito normal. Ao contrário, os elementos que encontramos nas perversões revelam tendências, possibilidades e disposições presentes, em graus variados, em cada um de nós. Uma operação metodológica que mudou significativamente o debate em questão e que levanta uma nova hipótese, pode-se até dizer, uma hipótese moderna.
A força dessa hipótese não está apenas em explicar determinados comportamentos. Ela também oferece uma resposta para aquilo que intriga Garcia ao longo de todo o conto: a possibilidade de que exista uma razão oculta organizando nossos atos.
Há um fascínio exercido por uma hipótese dessa natureza. Ela nos oferece uma espécie de chave interpretativa. Se encontrarmos a causa, acreditamos, encontraremos também a explicação. O sintoma deixa de ser um enigma. O comportamento deixa de ser um mistério. O presente passa a fazer sentido à luz de algo que o antecede, tão somente num segundo momento, como no trauma freudiano. Como Garcia diante de Fortunato, temos a impressão de finalmente compreender aquilo que antes nos escapava.
Agora, talvez haja uma diferença importante entre reconhecer que nem sempre sabemos o que nos move e acreditar que existe, em algum lugar, uma causa última esperando para ser descoberta.
Possivelmente tenha sido esse tipo de questão que levou Lacan a reler Freud por outro prisma. Afinal, reconhecer que nem sempre sabemos o que nos move não significa necessariamente admitir que exista uma resposta definitiva escondida em algum lugar de nosso passado. Em muitos momentos de seu ensino, Lacan parece menos interessado em descobrir uma verdade soterrada e mais interessado em saber como cada sujeito pode construir uma resposta singular diante de seus dramas.
Por essa via, eu diria que o inconsciente deixa de ser apenas aquilo que certas leituras de Freud fizeram dele — um arquivo de causas esquecidas — e passa a incluir aquilo que permanece por dizer. Nem toda resposta está à espera de ser encontrada. Algumas precisam ser construídas. Algumas sequer existem antes que o sujeito as invente. O inconsciente deixa então de ser apenas um arquivo de causas esquecidas para designar também aquilo que insiste, retorna e interpela o sujeito sem jamais se deixar reduzir a uma explicação final.
Garcia acredita ter encontrado a causa secreta de Fortunato. Talvez nós também nos empolguemos em acreditar que exista uma causa secreta capaz de explicar nossos atos, nossos fracassos e nossos sofrimentos. Isso me parece ser bem intuitivo. A aposta lacaniana, por outro lado, é mais desconfortável. Nem tudo o que nos move já está escrito. Há respostas que não esperam ser encontradas, mas que precisam ser construídas. Exige um trabalho. Há que ter fôlego. A causa secreta continua a nos inquietar mais de um século depois. Não apenas porque nos mostra que o “mal” nem sempre está onde imaginamos, mas porque nos confronta com algo ainda mais perturbador: nossa ânsia por encontrar uma explicação definitiva para aquilo que nos escapa. Como Garcia, gostamos de acreditar que o enigma foi resolvido.
Francisco Capoulade é psicanalista, diretor e cofundador do Instituto de Pesquisa e Estudos em Psicanálise nos Espaços Públicos (IPEP) e pesquisador convidado no Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS – EHESS/Lier-FYT, Paris) em 2025. Doutor em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e em Psychopathologie et Psychanalyse pela Université Paris Cité (Paris-Diderot), é bacharel em Filosofia e mestre em Psicologia pela PUC-Campinas. Atualmente, realiza pesquisa de pós-doutorado na USP sobre a recepção do ensino de Lacan no Brasil (Bolsa FAPESP). Em 2016, dirigiu o documentário Hestórias da Psicanálise: Leitores de Freud, que discute a recepção do ensino freudiano no Brasil. Coordena o curso de pós-graduação em Teoria Psicanalítica do IPEP/UniFAJ e tem publicações sobre história e epistemologia da psicanálise. Foi membro da ACP de 2010 a 2025, presidindo a instituição entre 2018 e 2020.
- Instagram: @francisco.capoulade
