Uma instituição de psicanálise na cidade? Seguido de notas sobre o Colégio Freudiano do Rio de Janeiro – Cosmopolita
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Uma instituição de psicanálise na cidade? Seguido de notas sobre o Colégio Freudiano do Rio de Janeiro

As instituições de psicanálise lacanianas de grande renome, justamente aquelas procuradas como referências no campo, costumam estar localizadas em bairros de classe média e alta das maiores cidades. Situadas em suas salas comerciais, casas ou até mesmo prédios, geralmente passam despercebidas pelos não-iniciados ou não-desejosos de se aventurarem pela transmissão de seus preceitos teóricos e clínicos. Não passam de mais um espaço onde uma determinada quantidade de gente se reúne para fazer discussões intermináveis sobre esses assuntos difíceis de especialistas que ninguém mais entende.

Claro que as redes sociais e demais ambientes virtuais de encontro e divulgação vieram para bagunçar os caminhos de acesso a esse conhecimento e que os coletivos de psicanálise (para citar somente uma das iniciativas mais recentes de intervenção em diferentes espaços públicos) vieram para mostrar que muitos analistas estão colocando suas orelhas à disposição nas ruas, praças, estações e outros redutos onde antes sequer se havia ouvido falar em psicanálise. 

As coisas e os analistas vêm circulando de outra maneira, e isso não é de hoje. Certamente essas novas configurações têm efeitos, mas não é disso que me proponho a falar. De maneira não completamente desatrelada com essas mudanças todas, pergunto-me se as instituições de psicanálise, de modo geral, podem marcar algum lugar na cidade para além desse espaço restrito a membros e simpatizantes e, caso sim, através de quais meios e aliados isso acontece. Como elas podem constituir sede de uma produção que ecoe também em outros espaços? Como elas podem deixar suas portas e janelas entreabertas para outros ares que circulam no próprio local que escolheram se situar? Quais efeitos podem advir desse movimento de idas e vindas?

Formulo essas questões bastante provocada pela topada com duas imagens que fazem parte de momentos distintos da história do Colégio Freudiano do Rio de Janeiro e, inclusive, retratam duas visões conflitantes da cidade sede. Ambas parecem destoar deste imaginário de uma instituição fechada sobre si mesma e acusam uma determinada presença, que pode ser discutida.

A primeira delas pode ser encontrada na reportagem intitulada Promessas de verão – Está chegando a hora em que o Rio vira uma festa, publicada em 18 de dezembro de 1985 no Jornal do Brasil1, período em que a instituição se localizava no bairro Leblon.

Seguindo o texto, vemos que a chegada do calor escaldante é anunciada junto aos surfistas e garotas de biquini nas praias, aos cometas Halley e Hartleygold, aos shows, baladas, bares, peças de teatro, lançamentos de discos, preparação para o carnaval, campeonatos aquáticos, e… “saraus com leitura de poemas e exibição musical no Colégio Freudiano do Rio de Janeiro”, que “prometem muito inconsciente no ar”.

Em meio à grande festa que agita a cidade, vemos na parte central da borda inferior um homem indo “pro colégio froidiano” carregando uma prancha-banana, símbolo associado a esta instituição de psicanálise desde o II Congresso da Causa Freudiana do Brasil, ocorrido em outubro daquele mesmo ano e que ficou mais conhecido, justamente, como Congresso da Banana2. Nesta ocasião, pretendeu-se discutir e quiçá construir as especificidades de uma psicanálise brasileira, ou seja, uma psicanálise que, mesmo filiada a Freud e Lacan, não deixasse de considerar e ser afetada pelas particularidades nacionais, abrindo lugar, assim, para a discussão de uma identidade. Junto a esse gesto teórico, vinha outro, analítico e político, bastante provocativo e brincalhão, ainda que sério: “dar uma banana, mandar às favas, as moções que, estrangeiras ou nacionais, vinham criando dificuldades ao trabalho teórico, clínico e institucional desenvolvido no Colégio Freudiano do Rio de Janeiro”3.

A instituição e, consequentemente, a psicanálise ali transmitida, são retratadas como badaladas, divertidas, criativas e, sobretudo, abertas a um público diverso e antenado no cenário cultural da cidade. 

Anos depois, o Colégio surpreendentemente passa de um lugar de destaque para as margens do cenário psicanalítico nacional e internacional. Sua presença na mídia também diminui progressivamente. A partir do final dos anos 1980 e início dos anos 1990, sua proposta teórica passa a ser a formulação da Nova Psicanálise, a qual, bastante centrada no trabalho de MD Magno, propõe um distanciamento do pensamento de Lacan e uma aproximação com as mutações tecnológicas e paradigmas das ciências naturais.

A segunda imagem data de um longo percurso após esse novo trilhamento e introduz alguns dos vídeos da instituição publicados em seu canal do youtube, Psicanálise NovaMente, ao longo dos últimos anos4.

A instituição renomeada a partir de 1991 como UniverCidadeDeDeus5, passa, neste mesmo ano, a estar situada em nova sede, desta vez em um casarão cedido em regime de comodato pela arquiteta Rosane Araújo no bairro Jacarepaguá6, onde ainda permanece em atividade até hoje. Trata-se de um local situado entre a comunidade Cidade de Deus e o bairro Barra da Tijuca, da burguesia de classe média e alta, que, segundo Nelma Medeiros, “foi uma presença que se mostrou decisiva nos rumos da nova instituição”7.

A imagem, que mostra um morador de rua deitado sobre um papelão cobrindo seu rosto com um livro de Freud, nos daria, então, indícios de uma afetação pelas desigualdades sociais em seu novo entorno? Ela nos acusaria algum tipo de intervenção? Por ser alguém que até agora somente observou de fora a intrigante produção desta instituição, não tenho respostas para essas perguntas. Mas creio que ela nos aponta que algumas saídas já foram traçadas por aí e é questão de as ler e debater. 

Elisa Mara é, bacharela e mestra em Linguística pela UNICAMP, atualmente é doutoranda desta mesma instituição com uma pesquisa voltada às primeiras décadas do Colégio Freudiano do Rio de Janeiro a partir de uma perspectiva da análise materialista do discurso.

  • Instagram: @elsia.mara

1: Disponível em: https://memoria.bn.gov.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=030015_10&Pesq=Liberati&id=329560229072&pagfis=158598 (acesso em 24 fev. 2026).

2: Cf. Kyrillos Neto, F.; Marques, T. P.; Fonseca, T.. Congresso de Psicanálise da Banana: evidências inaugurais da discriminação na política institucional lacaniana. Estudos e pesquisas em psicologia, v. 23, n. 2, maio-ago. 2023, p. 786-806. Disponível em: https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1808-42812023000200786 (acesso em 24 fev. 2026).

3: Medeiros, Nelma. Percursos e recursos de MD Magno. In: Magno, M. D.. Razão de um percurso. Rio de Janeiro: Novamente, 2015. p. 104.

4: Tomo esta imagem da introdução ao vídeo “MD Magno – O caminho de volta”, publicado em 2020 e disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=41U2BQipySk&list=RD41U2BQipySk&start_radio=1 (acesso em 25 fev. 2026).

5: Cf. https://www.novamente.org.br/historico-univercidade/1991-2 (acesso em 25 fev. 2026).

6: Medeiros, 2015, p. 124.

7: Ibid.

Autor

Elisa Mara

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