Harari diz, em um de seus livros, que o principal aspecto que distingue o Homo sapiens de outras espécies é a capacidade de falar de alguém ausente. Dito de outra maneira, seria quando “evoluímos” (e guarde muitas aspas aqui) no processo de comunicação: saímos de um estágio em que utilizávamos a linguagem apenas com finalidade objetiva — por exemplo, avisar o grupo do perigo, pedir coisas para suprir necessidades básicas, dar ordens — e passamos a falar de alguém que não está materialmente presente, a falar a um outro sobre um terceiro. A fofoca derivaria daí. Julgamentos à parte, a vida dos outros nos interessa.
Não importa a plataforma que veicula tais informações. Sejam os primeiros periódicos populares ingleses do século XVIII, a ágora helênica da Antiguidade, as reuniões inquisitórias da Idade Média ou, até mesmo, o Instagram contemporâneo. As plataformas variam de acordo com a capacidade “evolutiva” tecnológica; já o interesse pelo outro parece continuar o mesmo.
Mas por que falar disso hoje?
Na última semana de abril, foi a estreia mundial do filme Michael. A película busca retratar a vida do artista que revolucionou a indústria musical, a música pop e o videoclipe. A performance de Jaafar Jackson, sobrinho de Michael Jackson e intérprete do artista no filme, tem seu ponto alto na execução de Billie Jean, momento em que o passo moonwalk foi apresentado ao mundo pela primeira vez, em 1983, durante o especial de TV Motown 25: Yesterday, Today, Forever. O filme está repleto de cenas desse tipo, que encenam processos de criação e performance. Eu poderia dizer, de forma simples, que se trata da história das músicas de Michael, tendo como pano de fundo o conflito familiar, sobretudo com seu pai. Mas não sei se é exatamente isso.
Eu fui ver o filme, mas minha opinião, neste momento, não interessa. O fato é que vi, nas redes sociais, vários comentários críticos sobre a dramaturgia adotada pelos roteiristas e produtores, que, supostamente, estariam a serviço dos espólios de MJ. Encontrei desde críticas pertinentes até as mais toscas. Apontava-se a ausência de elementos importantes da vida de Michael, como os traumas na infância, a relação com a própria aparência, o casamento, as acusações de crimes sexuais e suas excentricidades, entre outras coisas. Em outras palavras, o filme teria sido superficial demais. Ainda assim, há uma espécie de consenso: o ponto alto são as músicas. E, curiosamente, essa é a frase-chave de Michael no filme: “a música nos une”. E, de fato, você sai do cinema com essa sensação.
Mas eu não quero falar de Michael. Quero falar de outro que também não está aqui. Quero falar de Miguel. E de seu pulo. Possivelmente eu tenha juntado uma história à outra porque, além de ter tomado contato com ambas recentemente, os nomes Miguel e Michael têm a mesma origem etimológica: ambos vêm do nome hebraico Mikha’el, que significa algo como “Quem é como Deus?”. Este último, no caso, é outro que também não está aqui e do qual podemos falar.
A história de Miguel tem um ponto de partida interessante. Ele foi o brasileiro que pulou o Muro de Berlim, mas não da parte oriental para a ocidental. Pulou no sentido contrário do habitual: saiu da Berlim capitalista para a Berlim comunista, a DDR. Isso já causa espanto, e também curiosidade. Logo pode vir à cabeça a expressão: “mas só podia ser coisa de brasileiro”. Sim, isso mesmo. Enquanto centenas de pessoas tentavam fugir da DDR para o lado ocidental, Miguel fez o contrário. Ora, o que poderia motivar tal ato, se o fluxo das massas era justamente o oposto?
Essa história eu escutei em um podcast, fruto de uma longa investigação do jornalista Fábio Corrêa, da DW Revista, sobre a vida de Miguel Carmo. Uma das fontes centrais utilizadas é um dossiê de cerca de 600 páginas da Stasi. Nesse material, que é, em linhas gerais, o registro dos interrogatórios de Miguel enquanto esteve sob custódia após a travessia, encontram-se detalhes sobre o que aconteceu antes e depois, as possíveis motivações e o que ele estaria fazendo de volta ao lado oriental. Vale dizer que os pais de Miguel eram militantes comunistas brasileiros, ligados à esquerda durante a ditadura militar no Brasil, instaurada após o Golpe de 1964. Perseguidos pelo regime, foram obrigados ao exílio e acabaram se estabelecendo na Alemanha Oriental, onde Miguel cresceu.
Comunista de berço, Miguel aprendeu a ler muito cedo e discutia ideias de autores socialistas nas reuniões em sua casa, com seus pais e seus camaradas. Ao chegar à Alemanha Oriental, rapidamente aprendeu a língua e, em pouco tempo, já se tornava um crítico do regime. Via naquele governo uma ditadura, algo que, para ele, não correspondia a um verdadeiro comunismo. A partir daí, lutar contra a DDR passou a ser sua bandeira. Tornou-se militante, mas não como seus pais. Segundo a pesquisa de Fábio Corrêa, Ana Montenegro, sua mãe, nunca se colocou contra o regime socialista alemão. Temos aqui, com clareza, um conflito instalado dentro da própria casa. Mas seria esse conflito fruto apenas das posições distintas em relação ao regime oriental?
Suas recorrentes indagações, questionamentos e manifestos contra a DDR foram os motivos que levaram à sua expulsão da cidade. O que não nos fica claro, a princípio, é por que ele retorna à cidade que o expulsou. Vale uma reflexão: contextos complexos precisam ser tomados como tais, pois, ao mesmo tempo em que havia uma Guerra Fria, um contexto político tenso e autoritário, havia também conflitos familiares e, por que não dizer, subjetivos, que atravessavam Miguel. No pulo de Miguel, o narrador desliza, com uma narrativa envolvente, uma espécie de ficção não ficcional, por essas duas possibilidades de leitura, mas sem avançar muito nas questões subjetivas do brasileiro. Talvez isso fique mais evidente aos meus olhos devido à minha formação. Faz parte.
Enquanto o Leste era marcado por vigilância e proibições, o Oeste surgia como uma promessa, ainda que também capaz de expulsar, como vocês ouvirão se forem ao podcast. O mapa da Alemanha da década de 1970 emerge, de certo modo, como o mapa subjetivo do próprio Miguel. E mais: ele parecia não encontrar lugar em nenhum dos dois lados. Seu drama individual encontrava ressonância no drama daquele povo. Suas tentativas de se inscrever naquela nova realidade fracassavam.
Talvez seja justamente aí que a história de Miguel nos captura. Não apenas pelo ato improvável de atravessar o Muro no sentido contrário, mas pelo enigma que esse ato sustenta. Em um mundo organizado por oposições aparentemente claras — Leste e Oeste, liberdade e opressão, certo e errado — Miguel introduz uma espécie de ruído. Seu pulo no escuro não revela uma certeza, mas sinaliza um vazio, diante do qual algo precisa ser construído.
Confesso que histórias assim me motivam a criar hipóteses que preencham as lacunas com explicações. Quero saber o motivo, encontrar a causa, decidir as razões pelas quais ele pulou. Não acontece isso com você? Como no caso de Michael Jackson, voltamos às narrativas, aos conflitos, às faltas, como se isso pudesse organizar o que, no fundo, escapa. E é bem possível que organize, em grande medida. Mas sempre haverá algo que insiste em não se deixar capturar. Algo que não está nem no dossiê da Stasi, nem no roteiro do filme, nem nos comentários nas redes.
Afinal de contas, seguimos fazendo aquilo que nos distingue: falamos de quem não está aqui. Falamos de Michael, falamos de Miguel, falamos de um outro ausente na tentativa de dar forma ao que nos inquieta. Falamos contra, falamos a favor. No fundo, falamos de nós mesmos.
Francisco Capoulade é psicanalista, diretor e cofundador do Instituto de Pesquisa e Estudos em Psicanálise nos Espaços Públicos (IPEP) e pesquisador convidado no Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS – EHESS/Lier-FYT, Paris) em 2025. Doutor em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e em Psychopathologie et Psychanalyse pela Université Paris Cité (Paris-Diderot), é bacharel em Filosofia e mestre em Psicologia pela PUC-Campinas. Atualmente, realiza pesquisa de pós-doutorado na USP sobre a recepção do ensino de Lacan no Brasil (Bolsa FAPESP). Em 2016, dirigiu o documentário Hestórias da Psicanálise: Leitores de Freud, que discute a recepção do ensino freudiano no Brasil. Coordena o curso de pós-graduação em Teoria Psicanalítica do IPEP/UniFAJ e tem publicações sobre história e epistemologia da psicanálise. Foi membro da ACP de 2010 a 2025, presidindo a instituição entre 2018 e 2020.
- Instagram: @francisco.capoulade

1 Comentário
Alan Diniz Souza
As pessoas que passam pela nossa vida raramente passam “inteiras”.
Elas deixam restos, marcas, gestos, frases, silêncios.
Algumas nos atravessam como um corte; outras, como um abrigo.
Há encontros que duram anos e não deixam quase nada.
E há presenças breves que reorganizam completamente quem somos.
A psicanálise talvez diria que somos feitos justamente dessas inscrições: daquilo que o outro deixou em nós — mesmo quando foi embora.
Porque ninguém sai de um encontro exatamente igual ao que entrou.
No fim, carregar marcas também é uma forma de memória.
E talvez amar seja isso: aceitar que o outro continue existindo um pouco dentro da gente, mesmo na ausência. Obrigado Francisco