Celulares  e os olhares opacos – Cosmopolita
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Celulares  e os olhares opacos

Este texto faz parte de uma colab1 com outros autores do IPEP, tendo como proposta ser escrito a partir de um mesmo ponto disparador: o vídeo de lançamento do primeiro iPhone, apresentado por Steve Jobs em 2007 . 

No bolso da calça jeans reside o aparelho portador de todas as paisagens da terra. Dentro da bolsa o mesmo aparelho carrega o universo inteiro. Pois é, o celular aproximou realidades separadas no espaço.  Desde  que o aparelho tenha a  bateria carregada e os créditos em dia, é possível ouvir os mortos que cantam canções imortais e ver as imagens de seres fantásticos em qualquer lugar, em todo lugar. Pois é, o celular aproximou realidades separadas no tempo e levou para todos os cantos a imaginação que até então estava trancafiada nos romances, nos contos de fada e nos filmes. Entretanto, aquele que mergulha na tela do celular submerge sozinho.  

Todos estão no restaurante mas ninguém saiu para jantar com ninguém. Esta situação paradoxal é recorrente num recinto em que as pessoas bebem, comem, mas ignoram aqueles que convidam ou aqueles que são convidados.  Com a visão e a audição presas no pequeno aparelho se esquecem de quem está ao lado. Não se trata daquela nostalgia em que jornais e revistas impressas eram companhias palpáveis nas salas de espera do dentista e das clínicas médicas da vida. É que o ato de submergir nas telinhas também fez com que as mamães sentadas nos sofás se esquecessem  de que o pequeno filho está na beira do abismo ou próximo de outro perigo qualquer.  

Um pedestre  deu um leve passo fatal sem ver o sinal verde. O motorista do pé pesado não viu o pedestre. Ambos com o celular nas mãos não notaram o movimento dos seus corpos que seguiram adiante. Se o sentido da visão aguçou-se a partir de fins do século XIX nas grandes cidades por uma questão de sobrevivência física diante do sistema de transportes, as pequenas telas oferecem um processo de desorientação no espaço que pode ser fatal para motoristas e pedestres. Olhos fechados para toda a eternidade enquanto imagens verdes, vermelhas e amarelas seguem perigosamente efêmeras nas ruas. Dentro das telinhas as cores das imagens também são efêmeras (e não menos perigosas). 

A criança suga no seio eletrônico um leite que provém de uma mãe anônima. As imagens animadas da telinha dispensam o toque mágico dos brinquedos que jazem na distante terra dos objetos concretos. Para jovens e adultos as praias, os bosques,  praças e  parques são meros detalhes cenográficos: o centro do palco, o eixo da vida, está no mundo online. Nas redes sociais existe uma multidão perante o indivíduo solitário hipnotizado pelo seu aparelhinho digital.  São centenas de seguidores de um sujeito que encontra-se empalhado na silenciosa sala de estar. 

Até os antigos vícios da modernidade são transformados nos dias que correm. Roletas e carteados  aterrissam no colo de milhares entregues aos jogos de azar no contexto online. Dados líquidos rolando em dimensões que não são palpáveis. Não tem cheiro de adrenalina.  Fumaça imaginária e drinks digitalizados. Viciados se esquecem até mesmo da fria dureza da sarjeta. Multidões agarradas pelos olhos olham para o nada. Feras ocultas nas esquinas das telas devoram espectadores e fogem dobrando os quarteirões das imagens. 

A organização da memória coletiva torna-se um desafio. Historiadores que não vão aos arquivos físicos procuram agora congelar fatos virtuais que ocorreram dentro da tela: o desafio é comprovar aquilo que é verídico e desmascarar os loroteiros. Não existe nenhuma novidade ao constatarmos que hoje ocorre a profissionalização dos mentirosos, a sofisticada e descarada adulteração da história. Editores de jornais que  fecham edições com relógios sem horas, precisam estar atentos ao que é fato e ao que é  conversa fiada. 

Através  do celular, monstros, dilúvios e apocalipses são transformados em  fatos históricos numa segunda feira de manhã ou numa noite de sexta-feira. A pessoa amada está oculta por uma neblina online. Aquela lua que tinha por testemunha corpos misturados na cama, é vista com frequência na gelada tela do celular.

  1. Colab (abreviação de colaboração) é um termo emprestado das artes urbanas, especialmente usado entre os grafiteiros, que designa a produção conjunta de uma obra por dois ou mais artistas, em um mesmo espaço de criação e/ou sobre o mesmo tema, preservando seus traços singulares. ↩︎

Afonso Machado (1981) é escritor, historiador e professor. Autor dos livros Modernidade E A Estética Do Credo Vermelho(2016) e A Arte De Narrar As Lutas de Classes(2025), sua produção abrange artigos, ensaios, poemas e contos.

– Instagram: @afonsomachado68

Autor

Afonso Machado

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