Você se lembra da primeira vez que andou de bicicleta?
Talvez sim. Talvez não.
Mas é curioso perceber que, mesmo quando a cena desaparece, alguma coisa dela permanece. O corpo ainda sabe se equilibrar. O medo da queda talvez ainda exista. A sensação de liberdade talvez ainda visite você de vez em quando, sem avisar.
A memória tem dessas coisas. Ela não guarda apenas acontecimentos. Guarda atmosferas. Guarda cheiros. Guarda silêncios. Guarda pessoas que já não estão mais aqui e conversas que nunca chegaram ao fim.
Existe uma ilusão muito comum de que a memória seja uma espécie de arquivo organizado dentro de nós. Como uma biblioteca onde tudo estaria catalogado, esperando o momento certo para ser consultado. Mas basta viver um pouco para perceber que não é assim.
A memória é menos uma biblioteca e mais uma casa antiga.
Há cômodos iluminados, onde entramos com facilidade. Há portas emperradas. Há gavetas que jurávamos vazias e que, de repente, revelam fotografias esquecidas. E há quartos inteiros que evitamos visitar.
Quem nunca foi surpreendido por uma lembrança que parecia perdida?
Você está andando na rua, escuta uma música qualquer, e pronto: volta a ser criança. Não apenas lembra da infância. Você a sente. Por alguns segundos, ela retorna inteira. A voz de alguém. A textura de uma parede. O gosto de uma comida.
É como se o tempo, que parecia tão distante, continuasse morando dentro de nós.
E talvez more mesmo.
Porque a memória não é um museu do passado. Ela é uma presença.
O passado não fica para trás da forma como imaginamos. Ele continua participando das nossas escolhas, dos nossos medos, das nossas alegrias e até das nossas manias mais estranhas.
Há pessoas que carregam uma cidade inteira dentro de si. Outras carregam uma mesa de almoço de domingo. Outras ainda carregam uma ausência.
Sim, as ausências também têm memória.
Às vezes lembramos mais intensamente daquilo que perdemos do que daquilo que possuímos.
Uma cadeira vazia pode permanecer anos ocupando um lugar dentro de nós.
Uma voz pode continuar sendo escutada muito depois do último encontro.
Uma despedida pode atravessar décadas.
E, ainda assim, seguimos.
Talvez porque a memória não tenha a função de nos prender ao passado, mas de nos ajudar a atravessar o tempo.
É ela que costura as diferentes versões de nós mesmos.
A criança que você foi.
O adolescente que sonhava.
O adulto que precisou desistir de algumas coisas para realizar outras.
Todos coexistem de alguma maneira.
Nenhuma dessas versões desapareceu completamente.
Elas continuam conversando dentro de você.
Por isso é tão difícil responder à pergunta: “Quem sou eu?”
Quem responde?
A criança?
O adolescente?
O adulto de hoje?
Ou todos eles ao mesmo tempo?
A memória não produz uma identidade fixa. Ela produz uma narrativa.
E narrativas mudam.
Talvez seja por isso que duas pessoas da mesma família contem histórias completamente diferentes sobre os mesmos acontecimentos.
Não porque alguém esteja mentindo.
Mas porque cada um se lembra a partir do lugar que ocupou naquela história.
Não guardamos os fatos. Guardamos os sentidos.
E os sentidos mudam.
Há lembranças que envelhecem conosco.
Uma cena que parecia insignificante aos vinte anos pode se tornar fundamental aos quarenta.
Uma frase dita por um pai ou uma mãe pode levar décadas para revelar seu verdadeiro peso.
Um gesto banal pode adquirir importância apenas quando já não é mais possível repeti-lo.
A memória trabalha devagar.
Ela tem outro ritmo.
Enquanto o mundo exige velocidade, produtividade e atualização constante, a memória insiste em fazer o contrário.
Ela retorna.
Ela revisita.
Ela pede pausa.
Talvez por isso sejamos tão fascinados por fotografias.
Não porque elas recuperem o passado, mas porque mostram aquilo que o tempo levou sem conseguir apagar completamente.
Uma fotografia não captura apenas uma imagem.
Ela captura uma distância.
Quando olhamos uma foto antiga, não vemos apenas quem éramos.
Vemos tudo o que aconteceu desde então.
Vemos os encontros, as perdas, os caminhos tomados e os abandonados.
Vemos o tempo.
E talvez seja justamente isso que a memória faça: tornar o tempo visível.
Vivemos em uma época que registra tudo.
Fotografamos refeições, viagens, aniversários, paisagens, animais de estimação e até o café da manhã de uma terça-feira qualquer.
Nunca produzimos tantos registros.
Mas isso não significa que produzimos mais memória.
Porque a memória não nasce do registro.
Ela nasce do encontro.
Nasce daquilo que nos toca.
Há momentos que nunca fotografamos e jamais esquecemos.
E há centenas de imagens armazenadas em nossos celulares que talvez nunca mais vejamos.
O que permanece não é necessariamente o que foi registrado.
É o que foi vivido.
E viver, convenhamos, é uma atividade bastante desorganizada.
Ainda bem.
Porque são justamente essas imperfeições que tornam a memória humana tão bonita.
Ela falha.
Confunde.
Mistura.
Reescreve.
Acrescenta.
Esquece.
E, ao fazer tudo isso, continua produzindo uma história.
A nossa história.
Talvez seja por isso que envelhecer seja também um trabalho de memória.
Não apenas acumular lembranças, mas aprender a conviver com elas.
Dar lugar às alegrias sem negar as dores.
Guardar quem partiu sem deixar de acolher quem chegou.
Permitir que o passado exista sem exigir que ele volte.
No fundo, a memória é uma das formas mais humanas de resistir ao desaparecimento.
Ela nos lembra que o tempo passa, mas nem tudo vai embora.
Algumas coisas permanecem.
Uma voz.
Um abraço.
Uma rua.
Um cheiro.
Uma canção.
Um amor.
E, de vez em quando, quando menos esperamos, essas pequenas permanências nos encontram novamente.
Como velhos amigos.
Sentam-se ao nosso lado.
E nos contam, mais uma vez, quem fomos.
E, talvez, quem ainda somos.
Suzane Costa é psicanalista, doutoranda em psicologia social (USP), mestre em educação e graduada em psicologia pela Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP). Professora universitária nos curso de pós-graduação: Teoria Psicanalítica (IPEP) e em Clínica Psicanalítica (UNASP). Supervisora Clínica (Psicanálise Lacaniana). Pesquisadora no IPEP na linha de na História do movimento psicanalítico e Epistemologia. Autora do livro “Psicanálise e Educação no Brasil: traços de uma formação”, lançado pela editora Dialética (2024).
- Instagram: @suzanecostapsi

1 Comentário
Ismael Imer
Texto cativante.