Rumo ao Oriente – Cosmopolita
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Rumo ao Oriente

Uma flor de cerejeira levada pelo vento desliza num dos raios do sol nascente. Uma pequena estátua de Siddharta Gautama está envolta em uma leve e delicada fumaça de incenso, que dança silenciosamente pelo ar da manhã.  Na hora de nos situarmos entre os pontos leste e oeste, o primeiro pode significar uma assertiva para os futuros passos da humanidade. As culturas do extremo oriente tais como  China, Japão e Coreia  influenciam hoje o modo de vida dos países ocidentais.   

Além de exemplos evidentes que passam por temas como culinária, artes marciais, chá, meditação, medicina, religião, filosofia, cinema e séries, existem inúmeros produtos industriais produzidos do outro lado do mundo que estão no nosso cotidiano. A própria distribuição das forças econômicas e políticas do globo personificadas em potências ocidentais e orientais, é cada vez mais pautada por esta realidade percebida de maneira cristalina na cultura. 

Talvez o debate central que marca os nossos dias seja aquele que trata do crescente protagonismo histórico da China. Se nos últimos quinhentos anos foi incontestável a hegemonia do ocidente na condução dos principais acontecimentos econômicos, políticos e culturais da humanidade, atualmente a polarização entre Estados Unidos e China expõe que este último país(junto a outras potências orientais como Rússia e Índia) influi de maneira crescente no quadro geopolítico.

Obviamente não se trata de um repeteco da Guerra Fria. Ainda que o Partido Comunista esteja á frente do Estado Chinês, este possui uma economia capitalista, e que portanto carrega todos os dramas e desigualdades sociais produzidos pelo capitalismo; a despeito do que alguns autores consideram como sendo as possíveis conquistas históricas da Revolução chinesa de 1949. A verdade é que  tanto em Washington quanto em Pequim as lutas sociais se processam; e esta realidade conflituosa se manifesta nas diversas sociedades, valendo tanto para as potências quanto para os países economicamente atrasados. O fato é que os conflitos geopolíticos nunca substituem as lutas entre as classes sociais nos respectivos países. Mas não é exatamente este o papo aqui. Nosso objetivo é propor uma brevíssima reflexão  crítica a respeito do imaginário ocidental sobre o oriente.  

Não é de hoje que nações asiáticas exercem  grande fascínio sobre o Ocidente. As crônicas e relatos do comerciante e viajante italiano  Marco Polo em suas aventuras pelo extremo oriente(tais escritos datam de 1298) compreendem as primeiras grandes manifestações deste interesse ocidental. Estas pioneiras impressões que afetaram a sensibilidade de uma Europa ainda imersa nos quadros medievais, culminaram num processo de idealização, nas imagens fantásticas de um oriente distante.  Todavia, uma necessária crítica ao olhar eurocêntrico se faz necessária para refletirmos sobre do que é feito o brilho deste fascínio.

A noção de “ oriente “ corresponde a uma percepção ocidental que em muitos casos concebe  os povos orientais como sendo os “ outros “, os “ personagens secundários “ dentro do movimento da história. Ou seja, para o eurocentrismo  os mocinhos no grande enredo da humanidade são obviamente os europeus.  As noções de “ mistério “ e  “ exotismo “  aplicadas ás culturas do oriente, ocultam o ponto de vista da civilização europeia que já nos primórdios da expansão comercial capitalista impôs, com extrema violência aos povos do mundo, um ritmo internacional de desenvolvimento econômico e social. A China por exemplo recebeu diferentes apreciações pelos ocidentais ao longo das eras Moderna e Contemporânea. 

Entre os séculos XVI e XVII observa-se um crescente interesse comercial de nações europeias, em particular Portugal e Espanha, pela China. A China(ou Catay como era conhecida na época) era vista como uma terra encantada e forrada de riquezas . O vai e vem de mercadorias chinesas  proporcionou em meados do século XVIII uma moda chinesa entre nobres e burgueses europeus: membros da aristocracia europeia ficavam boquiabertos com a seda e a cerâmica chinesas. Este olhar deslumbrado seria modificado a partir da era industrial.

Com a expansão imperialista no século XIX a imagem da China se transformou: o saque do território chinês promovido por nações como Inglaterra, França e Alemanha fez que o povo chinês pagasse o preço de uma humilhação internacional.  Submetida á condição de semicolônia, a sociedade chinesa seria chacoalhada por uma série de movimentos insurrecionais e revolucionários; e  este é o ponto histórico que permite compreender parte significativa das manifestações culturais chinesas contemporâneas. A coisa toda começa com a Revolta dos Boxers(1898-1900), que exprime a força da cultura marcial de um povo oprimido enfrentando os exploradores estrangeiros, passa pela crítica ao imperialismo e ás desigualdades sociais com a produção plástica e literária vinculada ao movimento político contestador 4 de Maio de 1919 e desemboca na tumultuada história da Revolução chinesa(1927-1949).  

Dentro da nossa sensibilidade ocidental as imagens acerca das culturas orientais passam obrigatoriamente pelo tema das artes marciais. Vamos frisar em linhas gerais os contextos chinês e japonês.   Apesar deste conceito(arte marcial) consistir numa referência ao antigo deus romano da guerra(Marte), os mais genuínos exemplos de artes marciais não fazem parte do mundo greco romano mas sim das culturas orientais.   A grosso modo, as artes marciais consistem em estilos e sistemas de combate armado e desarmado utilizados historicamente na defesa de comunidades, classes sociais, clãs, castas e nações. O universo cultural das artes marciais vai muito além do conhecimento e aplicação das técnicas de combate. 

O conhecimento marcial associado ao entretenimento e educação  popular interpenetra-se historicamente com a literatura, o teatro, a religião e mais recentemente com o cinema, manuais ilustrados, revistas em quadrinhos e jogos eletrônicos. Na China, o gênero literário wuxia,  cujas raízes remetem ao século XIV,  abrange uma tradição romanesca em que guerreiros errantes combatem ,num cenário medieval, as injustiças e a tirania. Monges guerreiros também protagonizam diferentes gêneros literários que temperam o imaginário popular chinês. No caso japonês o gênero chanbara, que narra histórias protagonizadas por samurais, ilustra o fascínio pelo tema.  

As manifestações artísticas moldadas pela  temática marcial japonesa e chinesa  encheram os olhos do ocidente contemporâneo. Do romance  ao cinema os personagens samurais ampliaram o modelo de herói.  O samurai, este tipo militar  que atuava no contexto feudal como braço armado da nobreza japonesa,  possuía uma rica doutrina de exercícios marciais e outras práticas de aprimoramento espiritual( como a meditação zen e a cerimônia do chá). Os samurais e a sua cultura marcial foram muito popularizados através do cinema do pós guerra por autores como o talentosíssimo Akira Kurosawa. A kataná, célebre espada do guerreiro japonês, é a um só tempo arma de guerra e obra de arte. Produto de um aprimoradíssimo artesanato que consiste na fundição do aço das lâminas, as katanás possuem além da impressionante precisão do corte, um desenho sofisticado: o útil e o estético são indissociáveis. A arte da espada japonesa foi difundida  em inúmeros filmes. 

No caso chinês, a apreciação das plateias ocidentais por filmes que tinham por tema a arte do kung fu, só começou a rolar a partir da década de 1970. O motivo?  Entre o século XIX e a primeira metade do século XX, a narrativa imperialista imprimiu a mentirosa ideia de que “ os chineses são o povo doente da Ásia “. Deste modo,  manifestações como as artes marciais chinesas eram encaradas enquanto produtos de uma “cultura decadente”.  Cabe salientar que tal desprezo também oculta o temor das nações europeias da época pelas insurreições campesinas chinesas de caráter anti-imperialista, nas quais as artes marciais constituem seu principal aspecto cultural. 

A imagem do corpo do chinês associado ás tradições guerreiras não condiz com as necessidades ideológicas de dominação da narrativa imperialista: ao invés da figura servil, dócil, cômica e decadente, a imagem do povo chinês associada ás artes marciais se caracteriza pela altives, força, habilidade e capacidade de revidar e resistir ao imperialismo.

Distinta foi a apreensão da cultura japonesa realizada pelo ocidente a partir do início do século XX. Naquele momento o Japão já despontava enquanto potência industrial-militar, resultado do processo de modernização iniciado a partir da segunda metade do século anterior com a era Meiji. Este novo contexto permitiu que as manifestações culturais japonesas circulassem internacionalmente através dos meios de comunicação de massa e de atividades esportivas e de entretenimento. Assim, o ju jutsu, o judô , o karatê e outras artes marciais japonesas eram exibidos ao público ocidental em teatros, ginásios esportivos, circos, clubes, além dos manuais ilustrados e das menções em filmes e romances de aventura. Foi somente  com o artista marcial sino americano  Bruce Lee no início dos anos de 1970, que a expressão kung Fu em seu valor marcial e conhecimento milenar chinês,  tornou-se no ocidente tão popular quanto o rock ´n´roll , os super heróis das revistas em quadrinhos e os cowboys dos faroestes.  Lutador, filósofo, ator e escritor, Bruce Lee representa um marco divisor no universo contemporâneo das artes marciais. 

Além de guerreiros e artistas marciais encontramos em personagens históricos como Sen no Rikyu referências para um conhecimento que apresenta ricas concepções estéticas.  Este último é provavelmente  o maior nome da Cerimônia do Chá. O mestre japonês  Sen no Rikyu, que viveu durante o século XVI,   lega através do chado(caminho do chá)  uma experiência sensorial que valoriza o aqui e agora, a imperfeição, o inacabado, o rústico, o simples, a impermanência de todas as coisas… A ingestão do matcha( de acordo com uma famosa frase: “ o gosto do zen e o gosto do chá são o mesmo “) num ambiente calmo, respeitoso e intimista possibilita uma rica educação interior que é o oposto do modo de vida estressante em que vivemos.   

A abundância de pratos dentro das culinárias orientais é visível no cotidiano de qualquer cidade grande do Brasil e do mundo. Novos hábitos alimentares trazidos pela imigração japonesa no Brasil a partir de 1908, enriqueceram a cultura do país. O ikebana, a arte  do arranjo floral, assim como a  estética do wabi sabi, a poesia do haikai, o taoismo,  o zen budismo, a yoga, a acupuntura, os diferentes tipos de chá… Todos estes elementos estão no nosso cotidiano tal como os animis e os mangás, os doramas e a música pop sul coreana, as intersecções entre a literatura chinesa e as plataformas de streaming. 

É inegável que as diversas manifestações culturais orientais proporcionam vitalidade dentro da cultura brasileira. Sem exotismos, sem rótulos: é preciso abrir nossas mentes para o sol que nasce no leste. Este sol veio para iluminar o ocidente.  

Foto de Capa: Sen no Rikyū, também conhecido simplesmente como Rikyū, foi um mestre de chá japonês considerado a influência mais importante na cerimônia do chá japonesa, particularmente na tradição do wabi-cha.

Afonso Machado (1981) é escritor, historiador e professor. Autor dos livros Modernidade E A Estética Do Credo Vermelho(2016) e A Arte De Narrar As Lutas de Classes(2025), sua produção abrange artigos, ensaios, poemas e contos.

– Instagram: @afonsomachado68

Autor

Afonso Machado

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