Em quanto tempo se faz um sujeito? – Cosmopolita
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Em quanto tempo se faz um sujeito?

Eu sempre fui meio obcecada pela ideia de que a minha mãe viu a nossa cidade crescer. Nossa, porque tanto ela quanto eu nascemos aqui. Ela conta que morava na rua de cima de um córrego, cheio de mato, e ali praticamente terminava a cidade. Hoje, é uma das maiores avenidas, e está longe de ser o fim. 

Quando eu cheguei, isso tudo já havia acontecido.

Eu ficava fascinada tentando imaginar como era antes, qual é essa sensação de ver as coisas mudando assim, de forma tão intensa. Mas a verdade é que eu também vejo isso acontecer, todos os dias. Passo nos mesmos lugares há anos. Tudo com certeza está muito diferente. E também muito igual. Pensando bem, muitas coisas na vida acontecem dessa forma. 

Nossa relação com o tempo é algo muito curioso….não é à toa que Lacan fala do tempo lógico, e não cronológico. Quando a gente se dá conta, já foi. 

Você já tomou a decisão, já não está mais onde estava, não se incomoda mais com isso ou aquilo, se veste de um jeito diferente, não usa mais o mesmo perfume. Já para outras coisas, morremos de medo que elas mudem. Não suportamos a ideia de  perder alguém, de sair daquele apartamento, não ter mais aquele hábito. 

A análise e os diários funcionam como essas memórias estranhas, certos marcadores de tempo inconsciente. Quando você deita no divã e está falando da coisa mais importante do mundo, e seis meses depois você nem lembra mais o porquê estava tão tomado por aquilo. Em outro momento, releio meus diários de quando eu tinha oito anos de idade, e levo um susto ao me ver falando da minha mãe da mesma forma como falo hoje. Repetições e novidades. O analista é o testemunho dessas mudanças despercebidas.

A experiência da psicanálise mostra que essa coisa de passado e futuro pro inconsciente não cola muito. Basta pouca coisa para que a gente se questione:

“Mas quem sou eu afinal?”

As pessoas chegam assim até nós, analistas

“Não me reconheço”

“Queria voltar a ser quem eu era”.

Jamais seremos essa imagem completa no espelho, e nem tudo o que o outro diz estar vendo em nós. 

E enquanto analistas, acredito que estamos nesse manejo de “eus”. Aquele bastante regido pela via imaginária, com a certeza da consistência, mas que está sempre em diálogo com esse outro eu que o interrompe, que o deixa confuso. “Não sei porque fiz aquilo”. 

O que interessa ao analista é esse outro eu aí, que atravessa e vira uma pergunta. É nele que seus ouvidos ficam flutuantes, que enuncia as combinações possíveis de letras, frases, suturas e buracos de um sujeito. Ah sim, sujeito do inconsciente. Esse em que passado e futuro e presente se misturam formando uma rede de tecidos nada lá muito cheia das certezas, mas muito mais real e interessante. 

Com o passar das deitadas no divã, talvez já não seja mais sobre “voltar a ser quem se era”, porque a experiência da análise leva a esse encontro com o próprio inconsciente. A isso que nunca havia sido dito, não daquela maneira. Mas, de uma forma estranha, já estava lá. Leva a todas essas memórias que nos constituíram e nos marcaram, e que ficam bem esquecidas. Essa cidade cheia dos prédios altos é também a mesma do córrego com o mato. 

Acredito que essa abertura, e tem de haver uma abertura, para o encontro com o inconsciente, de poder receber do analista aquilo que você não estava escutando do que estava dizendo, é um grande desafio. Ainda mais em mundo absolutamente centrado nessa história de eu, onde acreditamos que esse ‘eu’ do outro (esse sim!), seja absolutamente estável, equilibrado. Coerente. Todos se vigiam a todo momento para poder SER. E bem rápido! Como nas cidades, para ninguém lembrar o que havia antes, no lugar daquele prédio de 30 andares na esquina.

E qual seria então o trabalho do analista? É possível fazer quem chega ao consultório criar essa abertura? Qual o tempo do analista?

O trabalho caminha para uma certa reelaboração temporal, situado por Lacan a partir do futuro anterior, que permite uma reordenação das contingências passadas. Ou seja, das expectativas, promessas, acasos, cenários e possibilidades. Criando, assim, outro sentido para o futuro. Tomar a palavra em análise já causa uma abertura temporal possível. 

E sobre o tempo do analista, é preciso paciência. Mesmo porque, essencialmente, ele oferece um tempo a transcorrer também, não só o transcorrido. Sem pretenções grandiosas. Paciência, porque, acima de tudo, o sujeito é suposto, não sabido. O tempo de quem está ali, sendo escutado, não é individualizado, mas é o tempo das relações em que a pessoa está inserida, já que a clínica insiste em apontar que o eu não é nunca sem o outro. 

Ou seja, nada disso combina muito com pressa. É um trabalho, em transferência, de poder ser suporte de um tempo em suspenso, onde há dúvida, medo, decisões a serem tomadas. E claro, uma boa dose de curiosidade para poder se surpreender em cada sessão. Analista e analisando.

Júlia Fiorello é graduada em Psicologia pela Puc Campinas, e pós Graduada pelo Instituto Israelita Albert Einstein, em Psicologia da Saúde e Hospitalar. Atuou como psicóloga clínica na saúde pública, na Unidade Básica de Saúde, ao longo de três anos, executando o trabalho junto às equipes interdisciplinares. Hoje está na clínica com crianças, adolescentes e adultos, em formação contínua.

Autor

Julia Fiorello

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