“Ou façam ou descubram o próprio caminho. Ou façam como eu, inventem, ou melhor, não façam como eu, inventem.” (Belchior)
A clínica de Freud é um tema vasto. Diante de tamanha amplitude, somos frequentemente levados a escolhas arbitrárias ou tendenciosas. Não busco me justificar: escolhi este recorte a partir de um sentido que ressoa em mim. Eu poderia, certamente, selecionar um dentre tantos temas tradicionais da clínica psicanalítica. No entanto, preferi contornar o previsível para tratar daquilo que se situa, talvez, para além dos temas.
Para dar conta da proposta, o presente ensaio será apresentado em duas partes, neste periódico. No presente texto, proponho abordar a especificidade da clínica inventada por Freud.
As Noções Fundamentais e Seus Limites
Se desconsiderássemos o caráter de “invenção”, poderíamos pensar o ensino sobre a clínica apenas desdobrando as noções fundamentais da técnica: a associação livre, sua contrapartida (a atenção flutuante) e a interpretação. Supostamente, o domínio dessas ferramentas bastaria para formar um psicanalista, pois é assim que a clínica funciona na superfície.
Poderíamos expandir essa lista e contemplar diversas outras noções que atravessam a prática: a interpretação dos sonhos; a transferência e a contratransferência; a ética da psicanálise e o desejo do analista; a importância da supervisão; a dimensão do tempo (a duração da sessão e o tempo lógico de Lacan); o fim da análise e as condições de analisabilidade (o manejo das entrevistas preliminares e a introdução do divã). Contudo, proponho um olhar “para além”. Situo esse horizonte nos inúmeros alertas e ressalvas deixados por Freud e Lacan ao caminharem por esses elementos, especialmente no campo da ética e do desejo do analista.
Essas advertências, espalhadas por suas obras, nos forçam a retornar à ideia da clínica como invenção. Refiro-me à clínica do inconsciente que Freud inaugurou, mas também à clínica que ele inventou para si mesmo. Da mesma forma, Lacan, à medida que teorizava, também inventava seu próprio modo de operar. Em suma, a clínica psicanalítica é, essencialmente, a clínica da invenção.
Em 1994, recém-formada em psicologia, eu estava ansiosa para aprender psicanálise e legitimar meu lugar profissional. Foi então que ouvi uma frase do professor Osmyr Faria Gabby Júnior que me marcou profundamente: “A teoria psicanalítica não justifica a clínica”. Levei um choque. Na ocasião, ele era professor do Centro de Lógica e Epistemologia da Unicamp, em uma especialização sobre os fundamentos filosóficos da psicologia e da psicanálise.
É preciso ler essa afirmação nas entrelinhas. Parte desse veredicto já havia sido anunciada pelos próprios fundadores. O que precisei compreender, superado o impacto inicial, é que o ensino da psicanálise comporta um limite exato onde começa o seu caráter inventivo. Com o devido cuidado, podemos propor que A Clínica (com letra maiúscula e universal) não existe. O que existe é uma clínica possível de Freud, assim como há uma clínica possível de Lacan.
Ao longo de sua obra, Freud demarcou a teoria sobre a técnica como algo inacabado, destacando o caráter particular de suas formulações. Em 1904, no texto Sobre a Psicoterapia, ao referir-se à aceitação provisória e ao tratamento de ensaio, ele sublinha que as indicações e contraindicações não podem ser fornecidas de maneira definitiva. Vale lembrar que Freud contraindicava a psicoterapia na psicose, nos estados confusionais, na depressão profunda e em pacientes acima dos 50 anos (curiosamente, ele tinha 48 anos quando escreveu o artigo). Diante disso, ele mesmo faz a ressalva: “isto é o que nos parece nesse momento” (p. 250).
Mais tarde, em 1912, nas Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise, ele é ainda mais direto: “As regras técnicas que estou apresentando aqui alcancei-as por minha própria experiência…”. E acrescenta na mesma página: “Devo, contudo, tornar claro que o que estou asseverando é que esta técnica é a única apropriada à minha individualidade…” (p. 125). O próprio uso do divã, além de favorecer a livre associação, atendia a um motivo estritamente pessoal: Freud confessou que não suportaria ser encarado por pacientes durante oito horas seguidas.
Em 1913, no texto Sobre o início do tratamento, ele compara as regras da psicanálise ao jogo de xadrez: “somente as aberturas e os finais dos jogos admitem uma apresentação sistemática exaustiva […] a infinita variedade de jogadas que se desenvolvem após a abertura desafia qualquer descrição desse tipo.” Logo em seguida, conclui: “Penso estar sendo prudente, contudo, em chamar estas regras de ‘recomendações’ e não reivindicar qualquer aceitação incondicional para elas” (p. 139).
A Transmissão e o Estilo
Não se trata de radicalizar, descartar o rigor e inventar qualquer prática sem critério. A clínica da psicanálise está sempre inacabada e nos exige invenção, mas essa invenção não surge do nada. Desde Freud, a psicanálise é transmitida de analista para analista, isto é, sabemos que a problemática da identificação e da transferência com a pessoa do mestre é central. Contudo, essa transmissão de herança é complexa, truncada e atravessada por falhas. Há uma prova ética fundamental colocada a todo aquele que ocupa o lugar de mestre: mais cedo ou mais tarde, ele será traído.
É nesse ponto que se unem e se separam os analistas de seus antecessores. Entramos no terreno de um conceito crucial: o estilo.
Todo candidato a analista recebe o conselho de esquecer a teoria enquanto escuta. O rumo de uma análise não pode ser determinado a priori, nem depende exclusivamente do acúmulo de saber teórico do profissional. É por isso que Freud afirmava que cada paciente reescreve a psicanálise.
Nas Recomendações, ele resume o fazer analítico resgatando uma frase do cirurgião francês do século XVI, Ambroise Paré: “Fiz-lhe os curativos: Deus o curou” (p. 129) Freud completa dizendo que o analista deveria contentar-se com algo semelhante: a modéstia de saber que há algo que escapa ao seu controle e opera no cerne do seu ofício.
O Risco da Compreensão e o Legado de Lacan
Lacan reforça essas advertências. No Seminário 1: Os escritos técnicos de Freud (1953-1954), ele adverte sobre o perigo do “furor da compreensão” — uma armadilha do sujeito epistêmico alicerçada no Ego e no desejo de domínio da realidade. Compreender rápido demais apaga o outro, reafirma o narcisismo do analista e aprisiona o paciente em uma relação de alienação.
Com a famosa máxima “Façam como eu, não me imitem”, Lacan estabeleceu a condição indispensável para que um analista avance: a recusa à cópia. Foi interrogando Freud na teoria e a si mesmo na experiência viva da análise que Lacan pôde assumir seu próprio estilo, convocando cada um de nós a sustentar o risco de reinventar a psicanálise a cada sessão.
O “Façam Como Eu” e a Recusa da Imitação
O psicanalista Antonio Quinet (2009) interpreta a famosa máxima de Lacan da seguinte forma: “Façam como eu, saibam lidar com seu sintoma, e inventem um estilo que lhes seja próprio”. E vai além: “Ponham algo de si na psicanálise, não se identifiquem comigo”. Poderíamos formular que o “não me imitem” está do lado do sintoma, enquanto o “façam como eu” está do lado do estilo. Em suma, a tradução seria: “Tenham, cada um, seu estilo próprio, pois eu tenho o meu”.
Essa mesma lógica aparece quando ouvimos Lacan dizer: “Sejam vocês lacanianos, eu sou freudiano”. Dizer-se freudiano não significa imitar Freud, assim como dizer-se lacaniano não implica copiar Lacan. Pelo contrário, implica dar lugar à singularidade de cada analista.
Essas provocações partem do imperativo de vigiar as premissas universalizantes que rondam a formação e a prática analítica. Ao recusar a tipificação do analista e o saber universal, a ética da psicanálise evoca uma postura que dialoga diretamente com a mensagem de Belchior: “Façam como eu, inventem. Ou melhor, não façam como eu, inventem!”. Afinal, a clínica não comporta ideais rígidos, exigindo que cada analista invente seu próprio percurso diante do singular.
Referências
FREUD, Sigmund. Sobre a psicoterapia (1904). In: FREUD, Sigmund. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, volume VII. Tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, Sigmund. Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise (1912). In: FREUD, Sigmund. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, volume XII. Tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, Sigmund. Sobre o início do tratamento (Novas recomendações sobre a técnica da psicanálise I) (1913). In: FREUD, Sigmund. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, volume XII. Tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 1: os escritos técnicos de Freud (1953-1954). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução de Betty Milan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1986.
QUINET, Antônio. A estranheza da psicanálise: a Escola de Lacan e seus analistas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009.
Elisabete Aparecida Monteiro. Psicanalista. Cofundadora do Instituto de Estudos e Pesquisas em Psicanálise nos Espaços Públicos (IPEP). Possui graduação em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (1993), especialização em Fundamentos Filosóficos da Psicologia e da Psicanálise pelo IFCH – UNICAMP, mestrado (2000), doutorado (2005) e pós-doutorado em Psicanálise e Educação na FE-USP (2013). Autora do livro: Entre Professor e Aluno, um estudo psicanalítico sobre transferência, publicado pelo Mercado de Letras (2016).
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