Origens – Cosmopolita
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Origens

O que um contador de histórias precisa para contar uma história? Escuta. Só isso? Não, mas sem isso não se conta uma história. 

No filme Minhas tardes com Margueritte (2010), cujo título original é La tête en friche, Germain (Gérard Depardieu), um analfabeto convicto, após um incidente vespertino, passa a ter encontros regulares com Margueritte (Gisèle Casadesus) que, como leitora profissional, propõe ler livros para ele. Num dos primeiros encontros, logo depois de ler uma extensa passagem de um livro, Margueritte diz a Germain, “você é um bom leitor”. Ele ri e a relembra que ele não sabe ler. Mas ela insiste, “para ser um bom leitor é preciso saber escutar; e você escuta como um bom leitor”. Germain encontrou em Margueritte alguém que se interessasse por ele, que lhe dirigisse a palavra e isso despertou, nele, o interesse por escutar o que aquela velha senhora tinha a lhe dizer. Frequência, palavra e interesse, foi tudo o que ele teve para começar a dar um outro rumo a sua própria vida.    

Antes que pareça que estou pretendendo apresentar uma tese em que a escuta é o princípio da escrita – o que seria uma bela tese, caso fosse demonstrável – o que me salta aos ouvidos nesse fragmento fílmico é que a escuta, para ser escuta, precisa ser ativa. Precisa que haja interesse. Precisa do outro. Lembra do filme Cast Away, conhecido por nós como Náufrago (2000)? Chuck Noland (Tom Hanks), depois de um acidente aéreo, sobrevive em uma pequena ilha perdida no oceano. O que o possibilita sair da loucura do isolamento não foi apenas falar com Wilson (a bola de vôlei adornada), como, e principalmente, poder escutá-la; com seus equívocos, riscos e sem garantias. Sua escuta contribuiu muito para o movimento de sua salvação. 

Essas banais lembranças cinematográficas são oportunas, me parece. Há exatos 10 anos era lançado nos cinemas brasileiros o filme Hestórias da Psicanálise: Leitores de Freud (2016), que tive o prazer de idealizar e dirigir. Tenho a recordação de dizer, em várias das sessões de exibição para as quais fui convidado (e quiçá tenha escrito isso em algum lugar), que aquele filme era um filme para ser escutado. Era isso que passava em minha cabeça quando estava na fase de montagem. As pessoas que tive a oportunidade de entrevistar me dirigiram a palavra com profundo interesse, sem exceção. Cada palavra, cada pensamento, cada gesto recebeu o devido tratamento, já que o interesse era mútuo, apesar de alguns ruídos. Minha ideia, naquele momento, era colocar o espectador no lugar de quem escuta. A cena inicial em black e uma voz off em alemão é um convite. Há uma década eu já sabia que estava indo na contramão. Convidar pessoas para uma sala de cinema para ouvir já era um enorme desafio, hoje em dia, então, um absurdo. Mesmo assim, o filme foi bem aceito pelo público – maioria não psicanalistas – chegando a ser o quarto documentário mais assistido naquele ano.

O Hestórias não foi apenas a produção de um documento histórico para a psicanálise, foi também um testemunho de uma parcela da psicanálise praticada aqui no Brasil. 

Ainda no período de lançamento do filme, minha cabeça estava a mil com várias ideias de novos projetos cinematográficos. Parecia que tinha tomado gosto pela coisa. Duas ou três ideias comecei a desenvolver, realizei gravações, mas aí veio a pandemia e, com ela, uma reconfiguração do nosso modo de usar as redes sociais. Confesso que tais eventos me fizeram repensar cada projeto. Alguns ressignifiquei, outros apenas abandonei. 

Autores Brasileiros da Psicanálise (2024) foi uma série de única temporada pensada originalmente naquele período pós-Hestórias. Era a junção de uma reflexão antiga sobre se produzirmos autores originais no Brasil ou se tais autores eram apenas imitação de autores europeus. Quis trazer essa reflexão pro campo da psicanálise. Imaginei diversos psicanalistas que poderiam compor esta série. E tive a grata oportunidade de contar com quatro deles nesse projeto. 

A reflexão sobre a brasilidade, sobre o que é um autor brasileiro – já algo sazonal no pensamento psicanalítico – não para na produção desta série. Na verdade, é aí que ela se publiciza e permite um aprofundamento de uma questão que não é minha, mas que encontraremos em larga escala em literatos, intelectuais, artistas e tantos outros brasileiros. 

Agora, depois de alguns anos de pesquisa, e mais recentemente, de uma pesquisa sistemática, lanço a série (também de temporada única) Origens (2026). É uma série de entrevistas. Cinco, para ser exato. Mas seria mais honesto dizer que é uma série de escutas.

Reuni depoimentos de pessoas que estiveram lá quando o pensamento de Lacan chegou ao Brasil, e de algumas que estavam do outro lado do oceano, na França, quando esse pensamento se organizava e, depois, se reconfigurava. Marie Christine Laznik, Inês Oseki-Dépré, Miriam Chnaiderman, Patrick Guyomard, Sylvie Sesé-Léger. Cada uma guarda um fragmento dessa história: o exílio durante a ditadura, a primeira e improvável tradução dos Écrits para o português brasileiro, os bastidores dessa recepção, a implantação do ensino de Lacan por aqui, a dissolução da École Freudienne de Paris. Não são grandes teorias. São memórias. E toda memória, quando dita a alguém que se interessa, vira testemunho.

Se o Hestórias pedia que o espectador escutasse, Origens não é diferente. Meu trabalho, dessa vez, foi mais de intervenções, no entanto, sempre procurando estar presente e interessado. Sentar diante de alguém e deixar que a palavra viesse no tempo dela. Confesso que há aqui uma urgência que antes não havia. Algumas dessas vozes já não podem mais ser gravadas. O tempo de escutar as origens é sempre breve; as origens, por definição, são pretéritas.

Sem querer dar a impressão de uma escuta perfeita, admito: escuto como posso. Mais de uma vez intervim quando devia ter calado, ou só entendi o que me diziam tarde demais — às vezes na montagem, às vezes anos depois. A escuta se distrai, se impacienta, quer ouvir o que já esperava ouvir. Possivelmente por isso ela precise de tanta frequência.

Tudo isso dito, convido você a reservar um tempo e testemunhar essas outras hestórias. Origens está no canal do Estúdio IPEP, no YouTube, com todos os episódios já disponíveis. Não quero mais uma sala escura. Mas continuo a oferecer o que ofereci em 2016 quando imaginei que cada espectador poderia estar no lugar de quem escuta.

E é aqui que eu me despeço. Origens é o último trabalho audiovisual que dirijo. Foram mais de dez anos gravando psicanalistas atrás de uma câmera (entrevistas, aulas, testemunhos), tempo suficiente, talvez, para descobrir que o que eu procurava não estava exatamente na imagem, mas para além dela. Na escuta. E a escuta, felizmente, não depende de uma câmera. Ela continua: no consultório, na página, na sala de aula. Na vida. 

Não sei se registrar essas vozes em imagem foi a melhor forma. Não sei sequer se um filme feito para ser escutado chegou a ser escutado de fato — ou se, ao querer pôr o espectador no lugar de quem escuta, eu não me pus, tantas vezes, no meio do caminho. Sinceramente não sei, mas fica a dúvida. Pode ser que ela também seja uma forma de escuta.

Germain, o analfabeto do começo desta conversa, precisou de frequência, palavra e interesse para dar outro rumo à sua vida. O que me deu frequência, palavra e interesse foram minhas análises, e a partir disso os filmes. O futuro está em aberto.

in memoriam: Antônio Muniz de Rezende, Lya Luft, Sérgio Paulo Rouanet e Terêncio Hill.

Autor

Francisco Capoulade

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