Chegando à zona eleitoral na qual voto, logo após estacionar o carro, um menino, de no máximo 7 anos, passa de bicicleta por mim num ziguezague engraçado. Com um ar lépido e faceiro, ele vestia uma camisa do Flamengo sem número e um pouco surrada. Desci do carro e fiquei um breve momento na calçada enquanto decidia se deixava o veículo ali ou se o colocava num lugar mais perto de onde votaria, já que havia uma longa ladeira para subir e o trânsito estava insuportável. Não tão distante, vejo o menino voltando. Agora não ziguezagueava, pois estava concentrado desembrulhando uma pequena bala. Logo que a coloca na boca, joga o papel no chão e com a manga da camisa rubro-negra enxuga algum excesso de saliva que lhe escapara. Imediatamente, volta ao ziguezague inicial em ato arriscado e, mesmo, ousado entre os carros que passavam.
Por um instante, absorto em meus pensamentos, comecei a imaginar que destino teria aquele menino. Ainda tão jovem, teria pela frente uma vida inteira. Poderia viver a vida que quisesse ou mesmo várias vidas. Se quisesse escolher ser jogador de futebol, seria; se quisesse ser médico, seria; se pretendesse ser agrônomo, poderia ser; até mesmo se não quisesse nada, seria possível. Veio-me a frase de Sartre, o único filósofo que se rotulou como existencialista, “estamos condenados à liberdade”. E essa liberdade, como dizia Cecília Meireles, não há ninguém que a explique, mas também ninguém que não a entenda.
Calma! Permiti-me não concordar comigo mesmo. Nem com Sartre, nem com Meireles.
E se um carro atropelasse aquele menino? Que escolha ele teria? O filósofo francês diria que esta conta é dada ao acaso. De fato, me sinto obrigado a dizer que faz sentido. Mas e a camisa? Como ele a escolheu? Será que ele tinha todas as possibilidades para escolher ser flamenguista? Ele é flamenguista? Ou essa foi uma dentre duas ou três possibilidades? Ou realmente a única? Será que nós entendemos a liberdade em suas diversas facetas?
A escola onde vou votar é provavelmente a escola em que ele estuda. E estuda lá porque deve morar aqui perto. Talvez os pais não tenham condições de o colocar em outra escola, ou talvez tenham escolhido esta porque é a melhor. As pessoas com quem ele convive no bairro, os amigos, os amores, as desavenças, o quanto ele foi capaz de escolher e o quanto ele sabe que escolheu?
Aquelas ideias multiplicavam-se em minha cabeça. E meus pensamentos continuavam: o que aqueles pais e avós esperavam dele? O que ele acreditava que era possível ser quando crescer? Ele pensa nisso? O que ele deseja em sua vida? E mesmo a língua que ele fala, será que ele pensa que ele não teve muita possibilidade de escolha? No fundo, nós não escolhemos entre todas as possibilidades, nem mesmo, eu diria, entre possibilidades, antes de escolher, já havia um campo possível pré-estabelecido por alguém ou por alguma condição, seja geográfica, histórica, ou política.
Interrompi meu fluxo de pensamento pois era eu que precisava escolher, agora em ato. Fiz minhas escolhas e voltei caminhando para o carro que havia deixado naquele mesmo lugar do início. Enquanto descia, lembrava-me de um sociólogo alemão, menos lido do que mereceria fora das ciências sociais, chamado Norbert Elias. Ele desconfiava dessa linha que traçamos com tanta naturalidade entre o indivíduo e a sociedade, como se fossem duas coisas separadas. Para ele, não somos ilhas que depois se ligam por pontes; já nascemos atravessados pelos outros. A pergunta que o menino herdará — livre ou determinado? — talvez seja uma falsa questão. Ele não será nem um nem outro: escolherá de dentro de uma trama que não escolheu e que, ainda assim, é o que torna qualquer escolha possível. E há um paradoxo que Elias me ajuda a enxergar: numa época como a nossa, dirão a esse menino “você pode ser o que quiser”. Só que esse convite a se inventar não é a ausência de amarras — é a amarra do nosso tempo, talvez a mais discreta de todas, porque se veste de liberdade. Antes, cobrava-se obediência; agora, cobra-se autenticidade. Exige-se que ele seja livre, e ele sentirá essa exigência como se fosse o seu desejo mais próprio, mais particular. Seria então a multiplicidade de possibilidades do viver a coerção moderna?
Voltemos ao menino. Imaginemos que ele vai crescer e que vai ter que escolher. E sim, ele vai. E quando ele escolher, isso significará que ele também terá que abandonar uma série de outras escolhas. Cada profissão escolhida deixa para trás milhares de outras que não puderam acontecer. Cada amor escolhido excluirá outras tantas e tantas histórias de amor que jamais acontecerão. No entanto, cada decisão permite que ele possa compor a sua própria história, aquilo que chamamos de “minha vida”. E ao mesmo tempo se aglomerará em torno dele aquilo que ele poderia ter sido. Escutei de alguém esses dias que a autonomia moderna produz também um cemitério de possibilidades. Tendo a concordar. O futuro de escolhas e decisões leva a organizar e a criar um passado de inacontecimentos, mas que, nem por serem inacontecidos, deixam de produzir efeitos no presente. E quem terá a ousadia de dizer isso àquele menino?
Chego ao carro. Rapidamente, abro a porta e as janelas, já que o calor é infernal. Ligo o carro e, de repente, o mesmo menino atravessa na minha frente, em seu ziguezague habitual. Saio lentamente e sigo-o por um pequeno trecho da rua. Percebo que ele está se encaminhando de volta à padaria, e agora leva na mão esquerda um cartão de banco de cor roxa. Provavelmente, sua mãe tenha pedido para ele comprar o frango assado de domingo. Provavelmente. Acelero, ultrapasso o menino na bicicleta. Por alguns poucos segundos vejo sua imagem no meu retrovisor, até o momento em que ele vira a esquina, de supetão, e se desvia da padaria e de mim mesmo, que não alcanço mais seu caminho.
Francisco Capoulade é psicanalista, diretor e cofundador do Instituto de Pesquisa e Estudos em Psicanálise nos Espaços Públicos (IPEP) e pesquisador convidado no Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS – EHESS/Lier-FYT, Paris) em 2025. Doutor em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e em Psychopathologie et Psychanalyse pela Université Paris Cité (Paris-Diderot), é bacharel em Filosofia e mestre em Psicologia pela PUC-Campinas. Atualmente, realiza pesquisa de pós-doutorado na USP sobre a recepção do ensino de Lacan no Brasil (Bolsa FAPESP). Em 2016, dirigiu o documentário Hestórias da Psicanálise: Leitores de Freud, que discute a recepção do ensino freudiano no Brasil. Coordena o curso de pós-graduação em Teoria Psicanalítica do IPEP/UniFAJ e tem publicações sobre história e epistemologia da psicanálise. Foi membro da ACP de 2010 a 2025, presidindo a instituição entre 2018 e 2020.
- Instagram: @francisco.capoulade
