Em plena pandemia de covid decidi abandonar o açúcar. Não os doces e chocolates. Isso é mais recente. Mas o açúcar que colocava no café. Eram duas ou três colheres de açúcar, a depender do quão forte o café estava. Quanto mais forte, mais açúcar, óbvio. O primeiro dia foi difícil. Um gosto amargo na boca. O segundo não foi diferente. O terceiro a mesma coisa. Comecei a diminuir o tanto de café que tomava por dia. Alguns amigos me diziam, “em duas semanas você acostuma”. Duas semanas intermináveis. E eu continuava sem me acostumar àquele gosto amargo.
Quando criança, lembro-me de tomar café. Minha mãe diz que já na mamadeira eu tomava leite misturado com café. Mas a lembrança que eu tenho é à mesa da cozinha, no meio da tarde, sentado com minha família para merendar e o café estava lá, no centro. Aquele sabor reconhecido antes por minhas narinas, depois pelo calor da xícara em meus dedos, até chegar à minha boca. Era o momento em que ouvia as histórias que os adultos (e outros nem tanto) contavam. Eu me deliciava com aquelas palavras, com o café adocicado e com algumas bolachas Cream cracker com manteiga. Raramente tinha geleia.
Ainda pequeno (não devia ter mais de nove anos) tenho a memória de estar na cozinha fazendo café. E, modéstia à parte, era o melhor café de casa, e quiçá da vizinhança. Minha mãe dizia isso para todos. Provavelmente minhas irmãs tinham ciúmes, mas eu, que não era bobo nem nada, assumi aquela posição e em pouco tempo já fazia café todos os dias. Toda vez que uma visita chegava em casa, eu me animava e ia logo perguntando se queriam café. Minha mãe, imediatamente, ressaltava para a visita, não advertida ainda, que ela tomaria o melhor café. Eu me enchia de orgulho e ia para a cozinha. Colocava a chaleira com água para ferver, preparava o filtro Melitta, e deixava o pacote do pó ao lado do fogão até o derradeiro momento. Enquanto as bolhas começavam a surgir na chaleira, eu colocava algumas colheres de pó no filtro. E não era qualquer pó. Era Pilão. Assim que apagava o fogo, derramava lentamente a água fervendo dentro do filtro com aquele pó preto tão afetuoso. O aroma que subia era inconfundível. Preparava a bandeja de madeira com o que precisava: xícaras, pires, colheres, bolachas, manteiga, açúcar e a garrafa térmica com o café já prontinho. Imagine o equilíbrio que eu precisava fazer, aquele corpo mirradinho carregando tudo aquilo numa bandeja.
Ah, antes de servir os convidados, uma coisa que eu esqueci de dizer. O café em casa era forte. Nada de café fraco, chafé ou coisa que o valha. Bebíamos café forte e quem não gostasse que diluísse em um pouco de água quente que sobrava.
Ao chegar à mesa, servia os convidados e esperava ansioso os elogios. Depois que todos degustavam os primeiros goles, os elogios vinham por unanimidade, “que coisa maravilhosa!”, “nunca tomei um café tão bom”, “virei todos os dias tomar esse café”. Eu acreditava naquelas palavras. Depois disso, me sentava e tomava o meu café enquanto ouvia cada uma das histórias com uma atenção particular. Toda minha atenção estava lá, naquela conversa de meio de tarde. Não queria perder um detalhe sequer. Às vezes, as histórias se alongavam tanto que pareciam pedir mais café. Era um prêmio para mim. Ia para a cozinha, mas com um dos ouvidos na sala. Repetia aquele mesmo ritual, só que mais depressa. Não esperava mais os elogios – ainda que eventualmente alguém se lembrasse e os proferisse – estava mesmo era interessado na conversa, queria meu pagamento em palavras.
Os cheiros, os gostos, o papo, as vozes, as gargalhadas de minha mãe, tudo isso era marcante. Tomar café passou desde aí a ser um ato afetuoso. Não houve um só dia em que eu deixasse de tomar café, mesmo quando não tinha vontade e já não me lembrava, ao menos conscientemente, do que aquele gesto repetia.
E o açúcar estava lá. Em pó ou em cubinhos. O açúcar era um parceiro inseparável do meu ato de tomar café. Inquestionável. Aliás, eu não havia concebido a ideia de tomá-lo sem seu parceiro tão íntimo que se dissolvia naquelas águas turvas e quentes. É verdade que, vez ou outra, alguém dizia que não colocava açúcar no café, causando-me certo estranhamento. Eu perguntava, “como assim?”. Para mim não fazia sentido. Eu me lembrava dos minúsculos cristais brancos que habitavam um potinho, igualmente branco, na minha casa. Não aceitava tomar com açúcar demerara ou mascavo. Era o Ó. Meu paladar tinha memória e afeto, e o açúcar estava definitivamente associado a ele.
Mas, então, você deve estar se perguntando por que eu tirei o açúcar do café. Eu poderia lhe responder de várias maneiras. Eu poderia justificar a decisão pela saúde ou até inventar uma razão ideológica, como talvez fizesse aos vinte anos. Mas a verdade é que alguma coisa começou a me incomodar na minha relação com o café. Eu gostava realmente do café ou da doçura que o tornava reconhecível?
Então, agora você consegue entender ou pelo menos vislumbrar o quão difícil foi tomar contato por semanas com aquele amargo. Não tinha nada a ver com aquelas experiências precoces. Nem as que se repetiram por anos a fio. Amargo não era um gosto que me apetecia. Entrei em crise. Aquela relação já não era a mesma. Eu precisava reaprender a me relacionar com o café ou abandoná-lo de vez.
Aos poucos, percebi que não estava apenas aprendendo a tomar café sem açúcar. Estava aprendendo que o café podia ter outros sabores, aromas e texturas, e assim também podia construir outra relação com ele. O amargo deixou de ser uma ausência de doçura e passou a ter suas próprias nuances. Nem todo café era aquele café forte de minha infância; nem toda mudança precisava significar uma perda total.
Ainda hoje, quando alguém chega em casa, tenho o ímpeto de perguntar, enquanto conversamos, se aceita um café. Pode ser que tenha sido o que permaneceu. O modo de preparar mudou, o gosto também. Só não há mais açucareiro à mesa.
Francisco Capoulade é psicanalista, diretor e cofundador do Instituto de Pesquisa e Estudos em Psicanálise nos Espaços Públicos (IPEP) e pesquisador convidado no Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS – EHESS/Lier-FYT, Paris) em 2025. Doutor em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e em Psychopathologie et Psychanalyse pela Université Paris Cité (Paris-Diderot), é bacharel em Filosofia e mestre em Psicologia pela PUC-Campinas. Atualmente, realiza pesquisa de pós-doutorado na USP sobre a recepção do ensino de Lacan no Brasil (Bolsa FAPESP). Em 2016, dirigiu o documentário Hestórias da Psicanálise: Leitores de Freud, que discute a recepção do ensino freudiano no Brasil. Coordena o curso de pós-graduação em Teoria Psicanalítica do IPEP/UniFAJ e tem publicações sobre história e epistemologia da psicanálise. Foi membro da ACP de 2010 a 2025, presidindo a instituição entre 2018 e 2020.
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