Brincando em Chinês – Cosmopolita
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Brincando em Chinês

Essas férias eu viajei para a China, imersa naqueles símbolos que não me diziam nada, por todos os lados. A comunicação era via gestos, sorrisos, apontar de dedos, e uma boa dose de google tradutor.

Em uma tarde eu estava no metrô e havia um menino, de uns 4 anos de idade, em um carrinho, que me olhou e logo reconheceu ali alguma diferença. Estrangeira. Eu sorri pra ele e ele ficou muito tímido. Virava o rosto para se esconder, mas logo voltava a me olhar e disfarçar um sorriso que não segurava.

Ali começamos um jogo: eu mostrava a língua pra ele e ele escondia o rosto.

Logo ele já estava mostrando a língua pra mim também e rindo.

Naquele momento não compartilhávamos quase nenhuma semelhança.

Nascemos em direções opostas do planeta, nossas famílias certamente têm histórias bem diferentes, assim como costumes e crenças. Muito provavelmente jamais falaremos a mesma língua.

Contudo, em um minuto entramos no que Winnicott já dizia ser universal: a

gente estava brincando.

Nessa cena do brincar em chinês, eu lembrei que sempre tive certeza que jamais atenderia crianças na clínica, porque tudo me fazia dar dois passos para trás.

Imagina, na minha cabeça era algo meio assim: você tem que fingir que está brincando ao mesmo tempo em que está analisando e interpretando. Coisa demais para um adulto.

Eu só não sabia que não é bem fingir que está brincando. E nem exatamente brincar como se fosse criança também. Muito menos ir interpretando tudo. É uma posição que é assim: estamos brincando, você criança e eu adulto. Com toda a delicadeza que uma transferência pede.

Outro dia, uma amiga analista disse que lidar bem com crianças é quando não as infantilizamos. Como é possível isso? Nosso português, e outras línguas também, tomam essa palavra como inferiorizar alguém, ou alguma coisa; dizemos “você está sendo infantil”, “parece uma criança”, normalmente quando alguém está “fazendo birra”, ou sendo egoísta. Sim, crianças têm mesmo um jeitinho curioso de levar as situações sempre que elas se sentem em desvantagem. Acredito que elas têm se sentindo cada vez mais, por isso tantos diagnósticos por aí.

Mas, o que ela quis me dizer, é que o melhor a se fazer não é tratá-las como quem não entendem o que estamos dizendo. Usar aquele tom meio bobo, dizendo tudo no diminutivo. Eu comecei a prestar atenção que na verdade quem tem dificuldade de entender as crianças e ler suas mensagens somos nós. Os crescidinhos. Talvez eu já desconfiasse antes de pensar em fazer psicanálise com crianças.

Elas muito bem já endereçam suas questões com CEP e número da casa, para os adultos poderem receber. E no melhor dos casos, poderem escutá-la…(essa parte vêm sendo delegada ao YouTube ultimamente).

Os pequenos estão sempre dizendo coisas importantíssimas enquanto estão ali brincando de esconder, de cortar o cabelo da boneca, de colocar o leãozinho malvado de castigo, de fazerem um labirinto e mandarem você fechar o olho, e de fingirem que não escutaram o que você disse e mudarem de assunto. Que fantástico que pelo menos as crianças ainda tenham esse aval ultimamente. Mas, é nítido que estamos vivendo em um momento que pouco é oferecido para que esse espaço criativo, que é a brincadeira, possa acontecer.

Não é à toa que Winnicott afirmava que o brincar era um indicativo de saúde. A capacidade de fazer substituições simbólicas e encenar o próprio inconsciente e seus conflitos já é por si só uma cura.

Podendo escutar e brincar com crianças, fui me deparando com o fato de que, na clínica com adultos, o brincar — ou não brincar — também aparece como um indicativo interessante de como andam as coisas.

Semana passada, uma analisante adulta se deu conta de que estava conseguindo voltar a brincar com as pessoas do seu cotidiano. No trabalho, com sua família. “Não estou mais séria como eu fui nesses últimos anos”.

Claro, cada um com o seu jeito, mas tem uma coisa nessa capacidade de surpreender o outro, e a si mesmo, na inversão que a brincadeira e o humor causam, que quando não está presente é um sinal.

Venho pensado que para muitas pessoas que chegam à análise, o trabalho pode ser mesmo o de fazer brincar, como uma boa maneira de fazer laço no mundo.

Em tempos em que a promessa de futuro está em crise e a tela é o que entra como tentativa de tampar um buraco fundo, retomar a brincadeira da criança parece dar luz à nossa capacidade criativa, acima de tudo. Essa disposição para brincar, com as palavras, com o corpo, com quem conhecemos e não conhecemos, introduz sempre uma diferença e pode produzir novas posições subjetivas, sem que se perceba.

Júlia Fiorello é graduada em Psicologia pela Puc Campinas, e pós Graduada pelo Instituto Israelita Albert Einstein, em Psicologia da Saúde e Hospitalar. Atuou como psicóloga clínica na saúde pública, na Unidade Básica de Saúde, ao longo de três anos, executando o trabalho junto às equipes interdisciplinares. Hoje está na clínica com crianças, adolescentes e adultos, em formação contínua.

  • Instagram: @juliafiorello.psi

Autor

Julia Fiorello

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