O mundo que já não é o mesmo – Cosmopolita
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O mundo que já não é o mesmo

(1) Imagine um homem idoso que vive em seu apartamento, habituado aos móveis, aos quadros, aos objetos pessoais e aos pequenos hábitos cotidianos. Tudo parece estar em seu devido lugar. Porém, algumas coisas começam a ficar estranhas. Sua principal queixa é o desaparecimento constante de seu relógio, mas outras inquietações começam a surgir: um entra e sai de pessoas, conversas que parecem se repetir e acontecimentos recentes que já não encontram lugar em suas lembranças. Esse é o motor do filme The Father (2020), de Florian Zeller, lançado no Brasil como Meu Pai. Anthony (Anthony Hopkins) desconfia de todos, especialmente daqueles que procuram ajudá-lo. Sua filha, Anne (Olivia Colman), tenta explicar o que está acontecendo, mas suas explicações pouco contribuem para diminuir a confusão, que se torna cada vez mais frequente. Com ritmo, e não sem angústia, descobrimos que não é apenas a memória de Anthony que está se desfazendo. É o próprio mundo que, diante de seus olhos, vai perdendo a familiaridade. 

(2) A experiência de Anthony produz consequências para além dele. Anne, sua filha, acompanha com sofrimento as mudanças no comportamento do pai. Entre a preocupação, o cansaço e as tentativas de convencê-lo a aceitar ajuda, ela se vê diante de uma situação para a qual parece nunca estar suficientemente preparada. Aquele homem que antes cuidava de si, tomava suas decisões e organizava a própria vida passa, progressivamente, a depender dela. A resistência de Anthony é comovente. Ele não aceita facilmente que outras pessoas decidam por ele, tampouco compreende por que sua filha insiste em interferir em sua rotina. O que se vê é uma espécie de inversão: se, durante muitos anos, são os pais que cuidam dos filhos, chega um momento em que alguns filhos precisam assumir os cuidados daqueles de quem antes dependiam. Não se trata apenas de acompanhar o envelhecimento de alguém, mas de assistir à transformação de uma relação que, durante boa parte da vida, parecia ter lugares bem definidos

(3) Há algo de inquietante, de estranho, na maneira como Zeller constrói essa história. Por sua decisão, o diretor não quis apresentar a demência a partir do olhar daqueles que acompanham o doente, mas sim nos convidar a experimentar a desorientação do protagonista. Os ambientes se modificam discretamente, os personagens parecem trocar de identidade e a sequência dos acontecimentos já não obedece a uma ordem reconhecível. Nem mesmo o relógio, tão procurado por Anthony, parece capaz de restituir-lhe a orientação no tempo, ainda que seja um símbolo de orientação e apego para ele. Como espectador, fui tomado pela dúvida sobre aquilo que via. Sentia-me numa espécie de labirinto, no qual o familiar vai se tornando estranho. Como não lembrar de Freud? Em seu ensaio O inquietante, ele quis compreender essa experiência perturbadora em que aquilo que nos é conhecido e familiar pode adquirir um caráter assustador. Convém, porém, uma distinção: nem toda perda é da mesma natureza. É possível que o que mais cause estranhamento no filme não seja a perda de memória de Anthony, nem as confusões às quais somos submetidos ao longo da narrativa fílmica, mas a possibilidade de que o mundo ao qual estamos habituados deixe, em algum momento, de nos parecer reconhecível.

(4) De alguma maneira, o processo de envelhecimento nos permite acompanhar as transformações do mundo que aprendemos a conhecer. Mesmo aquelas lembranças que nos parecem inexoráveis tendem a se alterar diante das mudanças nos costumes. As relações entre pais e filhos se modificam, as maneiras de exercer a autoridade e de expressar os sentimentos já não são necessariamente as mesmas com as quais crescemos. Regras, normas e costumes que para uma geração pareciam naturais e evidentes podem se tornar estranhos, absurdos ou incompreensíveis para outra. É bem comum ouvirmos que as famílias já não são como antes, que os filhos não respeitam mais os pais (nem os mais velhos) ou que as pessoas perderam suas referências. Tais expressões não dizem respeito apenas a uma nostalgia do passado. Elas indicam a maneira como experimentamos as transformações sociais e, sobretudo, como tendemos a interpretar o desaparecimento de formas de vida que durante muito tempo nos pareceram seguras e perenes. Com frequência, aquilo que deixa de ser familiar passa a ser percebido como decadência. 

(5) Essa percepção de decadência não se restringe às conversas cotidianas. Ela também aparece em importantes interpretações sobre as transformações da sociedade contemporânea. O sociólogo Christopher Lasch, por exemplo, associou o enfraquecimento das antigas formas de autoridade familiar a mudanças culturais mais amplas, especialmente à emergência de uma cultura do narcisismo. No campo psicanalítico, encontramos interpretações que seguem caminho semelhante, identificando nas transformações da família e das relações entre gerações os sinais de um suposto declínio da função paterna ou mesmo da ordem simbólica. É uma leitura bem comum. Embora partam de pressupostos diferentes, essas interpretações tomam, com frequência, o desaparecimento de determinadas formas de autoridade como índice de uma perda mais profunda na organização da vida social e psíquica. O problema é que, ao privilegiar aquilo que deixa de existir, corre-se o risco de não reconhecer as novas formas de relação e de regulação que se constituem historicamente. 

(6) Essas transformações podem ser compreendidas de outro modo. Norbert Elias, em A sociedade dos indivíduos, critica a ideia de que as sociedades se comportariam como organismos vivos, atravessando etapas de nascimento, amadurecimento, envelhecimento e morte. As sociedades não possuem, diferentemente dos indivíduos, um destino biológico que as conduza inevitavelmente à decadência. Elas se constituem a partir de redes de interdependência entre pessoas e grupos, cujas relações de poder, normas e comportamentos se transformam ao longo da história. Aquilo que numa época parecia indispensável à organização da vida coletiva pode perder sua importância ou adquirir outras funções em configurações sociais posteriores. Não se trata, então, de negar que determinadas formas de organização desapareçam, mas de compreender que seu desaparecimento não significa necessariamente a desintegração da vida social. 

(7) Na esteira disso, tomo aqui o pensamento do sociólogo holandês Cas Wouters, que, ao investigar as transformações dos costumes nas sociedades ocidentais, identificou um longo processo que denominou informalização (tema que já abordei no texto Novas formas de subjetivação?). Ao longo do século XX, códigos de comportamento marcados por hierarquias explícitas, regras rígidas de convivência e forte repressão das emoções foram pouco a pouco sendo substituídos por formas mais flexíveis de interação. As relações entre pais e filhos, por exemplo, passaram a admitir maior proximidade, horizontalidade, diálogo e negociação, enquanto antigas exigências de obediência e deferência perderam parte de sua força. Isso não significa dizer que as pessoas tenham se tornado menos reguladas. Ao contrário, a informalização passou a exigir formas mais elaboradas de autocontrole, nas quais é preciso reconhecer os próprios sentimentos, considerar os dos outros e ajustar o comportamento às diferentes situações. Wouters descreve esse paradoxo com a expressão a constraint to be unconstrained, que traduzo aqui por “uma exigência social de ser espontâneo”. Ou seja, somos chamados a agir com naturalidade, mas sem perder o controle de nós mesmos. 

(8) Assim, o enfraquecimento das antigas formas de autoridade paterna não significa necessariamente seu desaparecimento. O pai que já não exige obediência incondicional dos filhos não deixa, por isso, de exercer autoridade. O que se modifica são as condições pelas quais ela se estabelece, se exerce e é reconhecida. As relações que antes eram organizadas majoritariamente pela hierarquia e pela distância exigem agora maior negociação, proximidade afetiva e reconhecimento mútuo. Isso não quer dizer que os conflitos tenham desaparecido ou que as novas formas de convivência sejam menos exigentes. Pelo contrário, elas apresentam dificuldades outras e demandam habilidades diferentes de regulação das emoções e dos comportamentos. É possível, então, que esse seja o limite das interpretações que insistem em reconhecer nas transformações familiares apenas o declínio de uma ordem anterior: ao tomar uma forma histórica de autoridade como referência universal, acabam confundindo sua transformação com seu desaparecimento. 

(9) De volta ao filme. Em Meu Pai, o sofrimento produzido naquela relação não é mera ilusão, tampouco uma simples dificuldade de adaptação às mudanças. Anthony perde efetivamente capacidades que antes lhe permitiam reconhecer as pessoas, orientar-se no tempo e conduzir a própria vida. Anne, por sua vez, precisa aprender a conviver com um pai que já não consegue ocupar o mesmo lugar na relação entre ambos. Há perdas que pertencem à fragilidade da condição humana e mudanças que dizem respeito à história das formas de convivência. Confundi-las seria, no mínimo, correr o risco de transformar toda mudança numa narrativa de decadência. Ao se perguntar insistentemente sobre o paradeiro de seu relógio, Anthony parece procurar algo que pudesse devolver-lhe alguma orientação. Mas, mesmo quando o encontra, o relógio já não é capaz de lhe restituir um tempo que não para. Os ponteiros giram, giram, giram… e continuam se movendo, enquanto o mundo que ele imaginou conhecer já não se organiza da mesma forma.

Francisco Capoulade é psicanalista, diretor e cofundador do Instituto de Pesquisa e Estudos em Psicanálise nos Espaços Públicos (IPEP) e pesquisador convidado no Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS – EHESS/Lier-FYT, Paris) em 2025. Doutor em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e em Psychopathologie et Psychanalyse pela Université Paris Cité (Paris-Diderot), é bacharel em Filosofia e mestre em Psicologia pela PUC-Campinas. Atualmente, realiza pesquisa de pós-doutorado na USP sobre a recepção do ensino de Lacan no Brasil (Bolsa FAPESP). Em 2016, dirigiu o documentário Hestórias da Psicanálise: Leitores de Freud, que discute a recepção do ensino freudiano no Brasil. Coordena o curso de pós-graduação em Teoria Psicanalítica do IPEP/UniFAJ e tem publicações sobre história e epistemologia da psicanálise. Foi membro da ACP de 2010 a 2025, presidindo a instituição entre 2018 e 2020.

  • Instagram: @francisco.capoulade

Autor

Francisco Capoulade

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