Na ocasião do lançamento do seu livro, a psicanalista Isildinha Baptista Nogueira1 conta uma cena de supervisão realizada na Sociedade Brasileira de Psicanálise: um analista relata que teve apenas um paciente negro que ao longo da sua análise nunca havia falado sobre a negritude e o analista também nunca havia se colocado sobre o assunto. Diante dessa cena, Isildinha faz uma questão fundamental: qual seria o sentido e a função de uma análise?
Citando Maud Mannoni, Isildinha diz que o sentido e a função da análise é tornar o indivíduo sujeito da sua própria história, para isso é preciso se resgatar, olhar para si mesmo e, de repente, experienciar um processo que você não pode olhar para si e nem se nomear, será que é um processo analítico?
O presente texto nasce das interrogações acima e de outras cenas vividas por mim enquanto supervisor clínico na qual me pergunto sobre essas não-nomeações, ou ainda, um determinado tipo de silêncio na clínica psicanalítica.
Em 2020, início da pandemia do novo coronavírus e em meio aos protestos contra a morte de George Floyd, aconteceu um fenômeno bastante curioso na minha clínica. Grande parte dxs analisandxs negrxs começavam a sessão dizendo da angústia de testemunharem o assassinato de George Floyd, enquanto isso passou ao largo do relato dxs analisandxs brancxs.
Logicamente, o desenrolar da análise de cada um dos indivíduos, deu-se de forma singular, porém vale escutar a repetição presente a partir do impacto da morte de Floyd em alguns corpos negros e um certo alheamento em outros: como escutar este silêncio na clínica psicanalítica?
Há vários tipos de silêncio na clínica: existe um silêncio do analista que se cala para poder escutar, há o silêncio dx analisandx de inibição que resiste falar sobre algo doloroso, há silêncio de elaboração etc. Gostaria de nesse texto tecer algumas palavras sobre um silenciamento fruto da “branquietude” (nascimento, 2019); para isso, primeiramente, diferenciá-lo-ei de alguns silêncios na clínica:
Em análise trata-se de falar para criar o silêncio, pois, assim como o grito funda o silêncio, unicamente a palavra lhe dá existência. Sem palavra pronunciada, um desenho de criança não quer dizer nada, um gesto fica perdido em sua intenção, um ato falho permanece realmente falho; pois só a palavra pode deixar nascer o silêncio que conferirá ao desenho, ao gesto ou ao ato falho seu valor de ato analítico. (ZOLTY, 2010, p.193)
Há uma cena clichê do consultório em que o psicanalista permanece em silêncio mesmo diante de questionamentos diretos que x analisandx lhe faz. Tal silêncio é essencial ao processo analítico, pois ele cria possibilidade dx analisandx se escutar no seu desenho, no seu gesto, no seu ato falho, no seu sonho, no lapso, em resumo, nas pulsações inconscientes.
O silêncio na análise é experiência cotidiana do não saber, da castração simbólica do analista, de sua ignorância equivalente à do paciente. Pelo silêncio, o analista suspende sua posição de saber, de compreensão, de julgamento. O analista não se abandona ao silêncio, mas se deixa levar por ele até a precipitação de um dizer… (idem)
É pela experiência do silêncio que uma análise é possível, um silêncio no corpo do analista que abre espaço a processos de singularização que o encontro analítico produz, sem esse intervalo não há emergência de um dizer.
Falamos de silêncio e, no entanto, não há experiência do silêncio, esse ponto assintótico do não acontecido, ainda que tudo nos conduza a ele. Há uma experiência da palavra muda, aquela que ainda não foi proferida, parasitas turbilhonando em volta do objeto ausente, há o ruído ligado à dinâmica de cada objeto pulsional, e há também o do movimento no corpo do analista. (idem, p. 194)
Tal experiência da palavra-muda é da palavra que possibilita mudanças, transformações que habitam a lacuna de um espaço potencial, por exemplo, é muito comum xs analisandxs em determinado sessões chegarem dizendo que não tem “nada a dizer”, tal ponto é fundamental ao processo clínico, pois advêm após muita tagarelice e o silêncio do analista convoca esse nada a dizer, uma “outra presença num silêncio compartilhado”(idem, p. 192).
Creio que tais perspectiva sobre o silêncio já foram bem trabalhadas pela literatura psicanalítica, gostaria de abordar a “branquietude”(nascimento, 2019) na psicanálise, uma forma particular de silenciamento proveniente do pacto narcísico da branquitude (BENTO, 2002).
O pacto narcísico da branquitude (BENTO, 2002) é um dos sintomas do racismo estrutural, em que se oblitera o conjunto de relações de poder na sociedade brasileira que coloca as pessoas brancas em uma posição de privilégio já estabelecida e reconhecida, e ao mesmo tempo relega a população negra e indígena aos lugares de subalternidade: “Assim, o que parece de [brancxs] não se reconhecerem como parte absolutamente essencial na permanência das desigualdades raciais no Brasil.” (BENTO, 2002, p. 26)
Nesse sentido, dizer que a branquitude é um sintoma psicanalítico visa podermos escutar o circuito dinâmico das relações raciais, tanto no seu grito quanto no seu silenciamento, afinal a branquitude
(…) um centro ausente, uma identidade que se coloca no centro de tudo, mas tal centralidade não é reconhecida como relevante, porque é apresentada como sinônimo de humano. Em geral, pessoas brancas não se veem como brancas, mas sim como pessoas. A branquitude é sentida como a condição humana. No entanto, é justamente esta equação que assegura que a branquitude continue sendo uma identidade que marca outras, permanecendo não marcada. E acreditem em mim, não existe uma posição mais privilegiada do que ser apenas a norma e a normalidade (KILOMBA, 2016, p. 17).
Poderíamos agregar a essa ideia que “ser apenas a norma e a normalidade”, tomada como suposto privilégio é precisamente o sintoma da branquitude, visto que de uma maneira geral, o racismo nem é percebido pelas pessoas brancas, como se a população branca estivesse ausente em todo passado colonial e, comumente, quando se fala de racismo o foco é colocado sob as pessoas negras. A indiferença em relação ao racismo e a ausência de implicação das pessoas brancas na dimensão racial são efeitos do pacto narcísico da branquitude:
O silêncio, a omissão, a distorção do lugar do branco na situação das desigualdades raciais no Brasil têm um forte componente narcísico, de autopreservação, porque vem acompanhado de um pesado investimento na colocação desse grupo como grupo de referência da condição humana. Quando precisam mostrar uma família, um jovem ou uma criança, todos os meios de comunicação social brasileiros usam quase que exclusivamente o modelo branco. Freud identifica a expressão do amor a si mesmo, ou seja, o narcisismo, como elemento que trabalha para a preservação do indivíduo e que gera aversões ao que é estranho, diferente (BENTO, 2002, p. 30).
Tal pacto traduzido em silêncio se evidencia na clínica psicanalítica, por exemplo, na exígua bibliografia sobre a temática clínica e relações raciais ao longo da história, o que levanta questões sobre: até onde x analista brancx escuta os efeitos do racismo nx analisandx e em si? Como xs analistas escutam a sua própria experiência racial e dx analisandx?
Tais questões caminham na direção do que foi apresentado no início do texto no que se refere a função e o sentido da análise, em outros termos, apontam para a ética psicanalítica quem pode falar e ser escutado no divã e como vai ser ouvido? (AYOUCH, 2019)
Se a formação de um analista começa necessariamente por sua análise pessoal, para que possa resgatar um olhar sobre si, então, se o analista não enxerga sequer que é racializado, nem como isso afeta a relação transferencial, como escutará isso no outro? O risco dessa opacidade é invisibilizar a dimensão violenta do racismo.
O silêncio do psicanalista convoca um Sujeito-suposto-Saber que o analisando vai encontrar em todos os lugares imaginários: estabelecimento da transferência. Mas o analista não pode senão ignorar os efeitos de seu silêncio. No entanto, o que o analista não sabe seu corpo comprova que ele não deixa de saber. O corpo responde sempre, quer ele fale ou se cale.(ZOLTY, 2010, p. 194)
O silêncio fala no corpo do analista, supõe-se que na transferência caibam questões e estas possam orbitar à relação. Nessa perspectiva, o racismo no processo analítico deve ser uma questão viável, de modo que o sujeito possa elaborar seus efeitos de maneira singular, por exemplo, por meio da pergunta: o que o racismo fez com você e o que foi possível responder?
Portanto, não se supõe que o racismo afete a todxs de maneira homogênea, mas que uma das funções e sentidos da análise seja de reconhecer a sua existência enquanto uma pergunta à clínica psicanalítica, tanto no que tange a sua constituição histórico-política, no que as pesquisas da Psicanálise silenciaram sobre o assunto, seja na dimensão singular do encontro clínico.
Referências bibliográficas
AYOUCH, T. Psicanálise e hibridez: gênero, colonialidade e subjetivações. Curitiba: Calligraphie, 2019.
BENTO, M. A. S. Branqueamento e branquitude no Brasil. In: ______.; CARONE, I. (Orgs.). Psicologia social do racismo: estudos sobre branquitude e branqueamento no Brasil. Petrópolis – RJ: Vozes, 2002.
BENTO, C. O pacto da branquitude. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.
KILOMBA, G. Descolonizando o conhecimento: uma Palestra-Performance. Tradução de J. Oliveira. 2016. Disponível em: <www.geledes.org.br/descolonizando-o-conhecimento-umapalestra/?gclid=EAIaIQobChMIj6jUtNbm6gIViYeRCh3wJAyvEAAYASAAEgJEHPD_BwE>. Acesso em: 12 mar. 2021.
nascimento, t. Cuírlombismo literário. São Paulo: n-1 Edições, 2019.
ZOLTY, L. O psicanalista à escuta do silêncio. In: NASIO, J.-D. (Org.). O silêncio na psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 2010. p. 191-196
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1 Vídeo: Publicação | A cor do inconsciente: significações do corpo negro, com Isildinha Nogueira — https://youtu.be/MxspWRYbqW8?si=anKWEpCpx4ymJa5_
