A casa que mora em nós – Cosmopolita
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A casa que mora em nós

Há livros que terminam quando fechamos a última página. Outros continuam nos olhando.

A Queda da Casa Usher, de Edgar Allan Poe, para mim, pertence a essa segunda categoria.

À primeira vista, é apenas um conto gótico. Uma velha mansão isolada. Um homem doente. Uma irmã misteriosa. Corredores escuros. Um lago imóvel. Um final catastrófico.

Mas basta voltar algumas páginas para perceber que a história nunca foi sobre uma casa.

Era sobre aquilo que ela sustentava.

Talvez seja por isso que, desde a primeira descrição, Poe não nos apresenta somente paredes, janelas ou telhados. Ele descreve uma atmosfera. Antes mesmo de conhecermos os personagens, já sabemos que alguma coisa está prestes a desmoronar.

E não é curioso?

Todos nós conhecemos alguém assim… Ou talvez já tenhamos sido essa casa.

Por fora, aparentemente inteira, por dentro, tomada por rachaduras que ninguém percebe.

Existe uma estranha habilidade humana para conservar fachadas.

Continuamos trabalhando.

Respondendo mensagens.

Comparecendo às reuniões.

Sorrindo nas fotografias.

Enquanto alguma parede interna começa, silenciosamente, a ceder.

As casas antigas fazem isso. Primeiro surge uma pequena fissura, quase invisível, depois outra.

Com o tempo, a rachadura deixa de ser um detalhe da construção e passa a revelar a própria estrutura.

Há algo semelhante na vida psíquica.

Nenhum sofrimento importante começa no dia em que aparece.

Ele costuma chegar muito antes.

Instala-se discretamente.

Muda pequenos hábitos.

Altera o sono.

A maneira de olhar para as pessoas.

O interesse pelas coisas.

Mas seguimos dizendo que está tudo bem.

Porque aprendemos a admirar construções sólidas. Mesmo quando são apenas cenográficas.

Poe parecia conhecer essa arquitetura da alma.

Roderick Usher não teme monstros, teme a si mesmo. Teme aquilo que já não consegue nomear.

Há dias em que qualquer barulho parece excessivo.

Qualquer luz incomoda.

Qualquer presença pesa.

Não porque o mundo tenha mudado. Mas porque algo mudou naquele que o percebe.

Freud escreveu que o estranho, o inquietante, nem sempre é aquilo que desconhecemos. Muitas vezes, o mais assustador é justamente aquilo que nos é familiar e, por algum motivo, retorna com uma aparência irreconhecível.

Talvez seja essa a verdadeira sensação produzida pela casa dos Usher.

Ela parece viva. Mas talvez esteja apenas devolvendo aos seus moradores aquilo que eles tentam não ver.

Quantas casas fazemos dentro de nós?

Há um quarto onde guardamos perdas. Outro onde escondemos vergonhas. Um sótão cheio de lembranças que juramos ter esquecido. Um porão onde trancamos aquilo que preferimos chamar de passado.

Acreditamos que basta fechar a porta.

O silêncio conserva, mas também amplia.

Na clínica, às vezes acontece algo parecido.

Alguém chega dizendo que deseja apenas resolver uma ansiedade recente. Depois de algumas sessões, aparece uma pequena rachadura.

Não na história.

Na narrativa.

Uma frase contradiz outra.

Uma lembrança surge onde antes havia apenas um “não sei”.

Um detalhe aparentemente insignificante insiste em retornar.

É curioso perceber que o inconsciente raramente arromba portas… Ele prefere as frestas.

É por elas que começa a entrar luz, ou vento, ou ambos.

Lacan dizia que o sintoma fala.

Talvez possamos acrescentar que ele também constrói.

Ele ergue paredes provisórias para impedir que algo desabe completamente.

O problema é que, às vezes, passamos a morar dentro do próprio sintoma.

Decoramos suas paredes. Aprendemos seus horários. Chamamos de personalidade aquilo que começou como defesa.

A casa torna-se prisão sem que percebamos.

No conto de Poe, há um detalhe que sempre me chama atenção.

O narrador percebe uma fissura na fachada, ela é estreita, quase imperceptível, mas atravessa toda a construção. É uma imagem poderosa! 

Porque nenhuma grande queda acontece de repente.

O colapso apenas torna visível um processo muito antigo.

Vivemos numa época fascinada por reformas rápidas. Queremos trocar móveis emocionais sem olhar os alicerces.

Mudamos de cidade. De emprego. De relacionamento. De academia. De aplicativo.

De corte de cabelo. Às vezes até mudamos de país.

Mas levamos conosco a mesma planta da casa.

As paredes continuam nos mesmos lugares.

A distribuição dos cômodos permanece idêntica.

Só mudamos o endereço.

A psicanálise talvez proponha justamente o contrário.

Não uma reforma estética, mas a coragem de visitar os quartos fechados.

Não para permanecer neles, nem para demolir tudo. Mas para descobrir quem foi que trancou aquelas portas.

Existe uma fantasia contemporânea de que saúde mental significa ausência de rachaduras.

Talvez seja exatamente o oposto.

Talvez saúde seja reconhecer onde elas estão.

Toda casa viva respira. Toda estrutura sofre pequenas alterações.

O problema nunca foi a existência das fissuras.

O problema começa quando fingimos que elas não existem.

Porque aquilo que é negado não desaparece.

Apenas encontra outro modo de aparecer….

No final do conto, a casa desaba. Leitores costumam dizer que é um desfecho trágico.

Talvez seja.

Mas talvez seja também inevitável.

Porque nenhuma construção permanece de pé indefinidamente quando seus alicerces deixam de sustentar aquilo que carregam.

Isso vale para casas, vale para instituições, vale para famílias, vale para as imagens que fazemos de nós mesmos.

Há identidades inteiras construídas para evitar uma única pergunta.

Há carreiras erguidas sobre um medo.

Há relações sustentadas apenas pelo receio da solidão.

Por muito tempo funcionam.

Até que deixam de funcionar… E então chamamos isso de crise.

A palavra assusta.

Mas sua origem é curiosa.

Crise é também momento de decisão, ponto de inflexão.

Aquilo que interrompe um modo de existir para tornar outro possível.

Talvez por isso tantas análises comecem justamente quando alguma casa interna começa a ruir.

Não porque a análise provoque o desabamento.

Mas porque, diante dele, já não é possível continuar acreditando que bastará pintar as paredes.

Suzane Costa é psicanalista, doutoranda em psicologia social (USP), mestre em educação e graduada em psicologia pela Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP). Professora universitária nos curso de pós-graduação: Teoria Psicanalítica (IPEP) e em Clínica Psicanalítica (UNASP). Supervisora Clínica (Psicanálise Lacaniana). Pesquisadora no IPEP na linha de  na História do movimento psicanalítico e Epistemologia. Autora do livro “Psicanálise e Educação no Brasil: traços de uma formação”, lançado pela editora Dialética (2024).

  • Instagram: @suzanecostapsi

Autor

Suzane Costa

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