Em nossos dias a atividade intelectual se faz passar inúmeras vezes(e facilmente) como luxo, passatempo, coisa de gente sofisticada cujo olhar desdenhoso aceita preguiçosamente( e com uma pontinha de culpa) a ordem política estabelecida. É aquele punhadinho de gente que na sua conduta diária promove práticas culturais inofensivas. Nada mais oposto a isto do que um intelectual da seara de Mário Pedrosa(1900-1981). Não basta dizer que ele foi um dos mais importantes críticos de arte do Brasil. É muito pouco citar suas ideias estéticas arrojadas, sua audácia vanguardista. O legado de Mário Pedrosa nos leva a concluir que o intelectual deve ser um revolucionário na arte e na política. Os escritos e a atuação deste inquieto e inovador pensador pernambucano possuem um valor prático: servem para inspirar aqueles que desejam fazer do conhecimento a arma da crítica.
Desde a sua juventude Mário Pedrosa colocou os pés na trilha dos intelectuais que arriscam o pescoço. O autor concebeu os movimentos de vanguarda como forças culturais que participam da transformação política da sociedade. Mas diferentemente de tantos da sua geração, Pedrosa compreendeu que a contribuição política da arte para a libertação do humano reside na própria arte, na dimensão estética, e não nos insuportáveis panfletos políticos disfarçados de pintura.
Até o fim da vida Pedrosa defendeu algo que pouca gente ainda conhece e entende: a arte revolucionária independente. Este conceito foi apresentado e defendido no célebre manifesto Por uma Arte Revolucionária Independente, redigido por André Breton e Leon Trotsky em 1938. O crítico brasileiro foi um divulgador e entusiasta deste documento. Segundo o texto, a obra de arte só pode servir a emancipação humana se for livre e independente de qualquer centro de poder político. Assim, o trecho do manifesto “Toda licença em Arte “, sempre foi palavra de ordem para Mário Pedrosa que apostou alto no valor libertador da forma artística. Segundo Pedrosa:
“ Em essência a atividade criadora repete, inconscientemente, a incessante recriação do milagre da vida no organismo; e é isto que dá esse poder exultante ao trabalho de criação pura “.
Ao longo do seu itinerário como crítico de arte, Mário Pedrosa se engajou em torno das ideias e dos projetos artísticos capazes de sacudir o conformismo social e assustar os reacionários. Entrincheirado em suas colunas sobre artes plásticas na imprensa brasileira, atuando em museus e instituições artísticas, Pedrosa estava antenado nas correntes estéticas cujos programas resumiam aquilo que o próprio autor definiu como sendo o sentido da atividade artística:
“ A arte é o exercício experimental da liberdade “.
Ninguém pode negar que esta frase bate fundo, acende centelhas dentro do peito. É uma frase que por si só desafia o reinado da caretice, dos abobalhados, que defendem com unhas e dentes o mais do mesmo, o entretenimento rasteiro, aquele mundinho de classe média em que as idas ao museu para ver uma exposição de arte rimam com bocejos, risinhos baixinhos… Ou seja, a experiência estética não abriu nestas pessoas novos caminhos, não alargou a visão, não permitiu questionar tudo aquilo que se apresenta como regra ou norma. Mário Pedrosa era inimigo declarado deste tipo de conduta. Ele mobilizou a crítica de arte como divulgação das experiências formais que libertam a cuca.
Militante comunista em sua juventude, Pedrosa foi um dos pioneiros na organização do movimento trotskista no Brasil. Ele estava entre os revolucionários do período entreguerras que enfrentavam a extrema direita e o stalinismo. Em fins da década de 1920 Mário Pedrosa frequentava nada menos que as reuniões do movimento surrealista em Paris, criando laços de amizade com autores do porte de André Breton e Benjamin Péret. Enquanto crítico de arte, analisou e divulgou a obra de artistas portadores de uma sensibilidade revolucionária: da politizada artista alemã Kaethe Kollwitz em 1933 ao anárquico e contracultural artista brasileiro Hélio Oiticica durante a década de 1960. Pedrosa viveu cercado por jovens inovadores, gente de vanguarda, como aqueles que fundaram em 1948 o primeiro núcleo de artistas abstratos do Rio de Janeiro.
Foi inclusive no final da década de 1940 que Mário Pedrosa estabeleceu contato com o trabalho da Doutora Nise da Silveira envolvendo pacientes do serviço de terapêutica ocupacional no Hospital Pedro II. Pedrosa mergulhou no maravilhoso projeto em que a arte torna-se uma estratégia única para abordar e superar as dores da alma. É um projeto em que a criação artística ocupa o lugar do eletrochoque e da lobotomia. Mais uma vez na história, a arte combate a repressão. A organização de exposições de obras de arte realizadas pelos pacientes e a divulgação do papel da pintura no tratamento dos internos, culminam na criação do Museu de Imagens do Inconsciente em 1952. As atividades de Pedrosa envolvem uma crítica da cultura ocidental na medida em que o autor abordava a importância da arte realizada por aqueles que não sucumbiram ao veneno do racionalismo: os chamados “ loucos “, as crianças, os indígenas. Para o crítico todos eles são sujeitos que se expressam através da arte. Quer dizer, se “ o alienado “ é trancafiado, esquecido e isolado da sociedade, se os povos indígenas são encarados pela ideologia dominante como “ bárbaros e exóticos “ e se as crianças são, por esta mesma sociedade, ignoradas e subestimadas, Pedrosa demostra que ao fazerem uso da arte todos eles nos ensinam a combater uma sociedade repressiva e decadente. Estes sujeitos, portanto artistas também, proporcionam lições libertárias sobre o papel da imaginação criadora na vida humana.
As ideias de Mário Pedrosa sempre incomodaram os conformistas, sejam eles de “esquerda “ou de direita. Internacionalismo, Surrealismo, arte social, abstracionismo, subjetividade rebelde, contracultura, eram alguns dos assuntos abordados por ele. As ideias deste crítico ainda dão o que falar. Elas nos ajudam a entender que o intelectual só pode estar a serviço da liberdade: seja na arte, seja na política.
Afonso Machado (1981) é escritor, historiador e professor. Autor dos livros Modernidade E A Estética Do Credo Vermelho(2016) e A Arte De Narrar As Lutas de Classes(2025), sua produção abrange artigos, ensaios, poemas e contos.
Instagram: @afonsomachado68
