No instável centro da nossa experiência cultural, o tempo não é apenas fragmentado : o tempo torna-se achatado. Numa segunda feira, por volta das 6 horas da manhã, uma moça trabalhadora com seus vinte anos, aguarda o ônibus no ponto . Para tapear o tempo, ela assiste a um microdrama: as novelas verticais transmitidas nos celulares, oferecem um modelo de dramaturgia que dura cerca de dois minutos.
Não que o novelão da TV ou o filme da sala de cinema tenham deixado de existir. Também a canção ligeira e a notícia descartável pululam no velho rádio . Para alguns, a coisa toda envolve uma coexistência entre velhas e novas mídias. No caso da teledramaturgia, atores, roteiristas e diretores pensam como o alto consumo de vídeos curtíssimos no contexto das redes sociais, exige uma estrutura dramática que corresponda a esta realidade. A necessidade de comunicação requer uma atenção especial sobre as novas realidades técnicas. Talvez, mais importante do que assinalar a superação ou a coexistência entre produtos culturais nos meios de comunicação de massa, seja refletir sobre o caráter histórico da transformação da nossa experiência com os chamados bens culturais.
O lavrador italiano, que em fins do século XIX residia numa colônia no interior de São Paulo, reunia no começo da noite filhos e netos em seu entorno. Sentados ao redor de uma rústica mesa de madeira, todos ouviam atentamente o ancião camponês contar histórias de sua terra. Era um tipo de narrativa artesanal: tal como observou Walter Benjamin em suas reflexões sobre o declínio da narrativa, ocorria neste tipo de situação a transmissão de uma experiência autêntica do narrador para os ouvintes. Num sentido contrário a este tipo de experiência, o jornal e o romance testemunhariam o leitor isolado na grande cidade capitalista, anônimo perante o repórter e o ficcionista. No caso da mencionada jovem que acompanha capítulos pílulas no smartphone, ocorre uma nova etapa na transformação da nossa relação com a arte de contar histórias.
Estamos metidos num momento histórico em que as ligações das massas com o patrimônio cultural, com as longas narrativas de um livro impresso por exemplo, se transformaram radicalmente. Benjamin, que decifrava os contornos iniciais da pré história desta situação lá nos idos dos anos de 1930, ainda fornece um ponto de partida crítico: ficamos culturalmente mais pobres e é preciso se relacionar, aceitar a “ bárbara“ produção cultural que nos rodeia. Tal é o desafio intelectual que o filósofo alemão apresenta no seu artigo Experiência e Pobreza(1933). Isso é muito importante porque não se pode ficar trancado em redutos aristocráticos com sofisticados produtos culturais e desdenhar daquilo que as pessoas estão curtindo nas atuais condições de produção cultural. A despeito da necessária análise crítica destes produtos, o que está em questão é o inerente prazer da experiência estética: quem quiser vivenciar o mundo, visando inclusive a sua transformação, deve observar as formas assumidas por este prazer que orienta as chamadas horas livres. Benjamin nos fala do cansaço e da saturação de informações culturais, sendo que ao nos entretermos com um filme ou um desenho de Mickey Mouse(o autor escreve num momento em que o cinema sonoro dera seus primeiros passos) entramos no campo do sonho, da facilidade de todas as coisas, da fantasia:
(…) “ Ao cansaço segue-se o sonho, e não é raro que o sonho compense a tristeza e o desânimo do dia, realizando a existência inteiramente simples e absolutamente grandiosa que não pode ser realizada durante o dia, por falta de forças. A existência do camundongo Mickey é um desses sonhos do homem contemporâneo. “ (…).
Mais do que uma tarefa hercúlea para os autores de novelas adaptarem os enredos neste espaço relâmpago do microdrama, o que chama nossa atenção é como aquilo que nasce em França por volta de 1836 enquanto folhetim, desdobra-se em filme, programa radiofônico e televisivo no século XX, torna-se em nossos dias uma síntese dramática em que o espectador/ouvinte não se dirige para uma sala ou um quarto onde o aparelho está mas faz com que este aparelho esteja em múltiplos ambientes. Certo, as novas formas de entretenimento vão nesta toada. Entretanto, se admitimos que entretenimento e conhecimento não são opostos, o que fazer com as tradições culturais, inclusive as tradições livrescas?
Sem perder de vista o empobrecimento da experiência de que nos fala Benjamin e da necessidade de nos relacionarmos positivamente com as novas manifestações culturais, não podemos dar as costas aos necessários pressupostos da formação humana que passam pelos grossos volumes dos livros de filosofia, literatura, história, sociologia etc. Não dá para simplesmente se conformar com a apressada ideia de que espetáculos teatrais, exposições de pinturas e sinfonias “ não interessam “ ao povo supostamente fadado ao consumo de produtos massificados. Eis que professores, jornalistas, artistas e intelectuais de um modo geral se deparam com um claro limite histórico quando o assunto é Educação e Cultura: a elevação cultural das massas, a assimilação de produtos culturais etiquetados como “ sofisticados “, não se efetiva pra valer num mundo regido pela exploração do trabalho; inclusive a sobrecarga do trabalho hoje dissolve em muitos casos o limiar entre a hora do trampo e a as horas livres.
O ócio necessário para a aprendizagem e o saborear de livros, ideias e obras de arte, é incompatível com as condições de vida e trabalho das massas trabalhadoras. O capitalismo não pode, pela sua natureza histórica, oferecer um amplo desenvolvimento cultural para toda a sociedade. Para encurtar conversa: os problemas da cultura não podem ser resolvidos a partir da cultura. Uma cultura livre e plural, sem preconceitos e aberta a todo tipo de experiência intelectual, requer transformações econômicas e políticas. E esta cultura livre e plural diz respeito tanto a uma novela de dois minutos quanto aos volumes das obras completas de Proust.
Afonso Machado (1981) é escritor, historiador e professor. Autor dos livros Modernidade E A Estética Do Credo Vermelho(2016) e A Arte De Narrar As Lutas de Classes(2025), sua produção abrange artigos, ensaios, poemas e contos.
Instagram: @afonsomachado68
