Antes não havia limites, ou se havia, era mais do que precisava, nunca chegava até lá. Ainda assim, fazia uso de tudo quanto possível, todas as opções que pensava precisar, não poderia deixar faltar nada. Querer e não ter ao alcance das mãos? Se puder evitar, melhor. Então carregava peso vendo-se em vantagem. Aquele peso era um privilégio, talvez porque vinha fantasiado de escolha.
Então, começaram a cobrar pelo excesso e quando mexe com dinheiro, você sabe… A angústia era companhia aérea a pensar naquilo que iria ou não.
Se antes o limite estava tão distante que nem se preocupava, bastava disposição para carregar tanto peso quanto pudesse, agora pesava quanto ia, quanto ainda cabia. E geralmente sem grandes desafios ou propostas conflitantes.
Mais do mesmo.
Até que ficou pouco, ou muito. Muito pouco. Muito pouco mesmo. E pesado. Talvez pesar tenha feito perceber o peso que antes só se propunha a carregar.
Passou a querer diferente. Diferença. E querer diferente muitas vezes é um problema.
Frio e calor.
Chuva e sol.
Bangkok e Paris.
Se fosse uma planta ou qualquer outro animal desse planeta tudo isso não seria questão.
Só ser deve ser bom.
Só que somos seres que – na melhor das hipóteses – pretendemos mais que ser. Buscamos conhecer, crescer, amadurecer (sim, são coisas diferentes). E nessa toada vamos tecendo um tanto de coisa.
Preparou-se então, portando tudo que cabia ao alcance das mãos e menos de sete quilos. E foi. E foi de novo. E indo, percebeu que a escolha que importa é a de ir. E que indo, vai. Sempre vai. E vai mais leve, levando assim consigo alguma liberdade.
* Foto de Capa, gerada com inteligência artificial
Camila Scarpati Dias, psicanalista membro da Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória, psicóloga e historiadora.
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