O psicanalista que comprava seguidores e o human fracking nas redes sociais – Cosmopolita
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O psicanalista que comprava seguidores e o human fracking nas redes sociais

Há algumas semanas, por obra do acaso (ou do algoritmo?) fui surpreendida não por um fato em si, mas pela localização dele.

Conto-lhes.

Recebi um conteúdo bastante artificial de um ilustre psicanalista do campo lacaniano.

Ao visitar o seu perfil, a surpresa: deparei-me com uma horda de robôs, claramente sintéticos, com seu colorido plástico inflando de puro gás a página do colega.

Pensei com meus botões.

– O que leva um analista, com nome consolidado e longo percurso no campo da psicanálise, a investir na compra de seguidores? O que está operando tão fortemente no imaginário para que a fantasia narcísica de fama possa precipitar um sujeito nesse nível? E mais: o que a Ética da Psicanálise teria a dizer sobre isso?

Lembrei de uma entrevista recente com o escritor e ativista norte-americano Peter Schmidt, no Programa Roda Viva, da TVE.

Peter transpôs uma metáfora radical para a cena do mundo atual, que agora relaciono de alguma maneira com essas perguntas.

Ele apresentou o que vem sendo chamado, no grupo de pessoas preocupadas com a “economia da atenção”, de human fracking.

A metáfora articula a exploração da nossa atenção, cada vez mais trabalhada pelas BigTechs, com o fracking, um método agressivo de extração de petróleo no subsolo, que consiste na injeção de detergentes e produtos químicos tóxicos nas camadas mais profundas do solo, para forçar a extração do produto para ser vendido.

Na analogia do chamado “fracking humano”, a lógica seria a da injeção de fluxos massivos de conteúdos para alcançar o ativo tão valorizado hoje: a nossa atenção.

No atual estágio do capitalismo, estaríamos paulatinamente convertidos em mercadoria, explorada e vendida dentro de um mercado feito sob medida para isso.

Comunicadores têm apontado, ainda, para uma saturação cada vez maior das agora rebatizadas “redes parassociais”. 

Essas redes, antes vendidas como modelo de socialização horizontal, de fuga do monopólio da mídia tradicional de TV e Rádio, de democratização da circulação da informação, converteram-se rapidamente no avesso do que declararam ser.

O que antes era homogêneo e em parte responsável pela construção de hegemonias de pensamento (o chamado quarto poder) aparece agora desfeito pela rede digital, em que “falsas-verdades” circulam de maneira individualizada e baseada nos interesses singularmente mapeados pela lógica algorítmica, “verdades-paralelas”, criadas conforme a demanda do cliente.

As redes parassociais estão cada vez mais contaminadas pela lógica da competição e busca de visibilidade. Todos querem ser vistos, em uma saturação do olhar, de um registro especular de si mesmo cada vez mais fantástico e dono de uma plenitude imaginária que não se sustenta na realidade.

Jacques Lacan trabalhou muito bem o conceito de desejo em sua relação com a demanda e com a recusa em seu enigmático paradoxo da oferta e do desejo, que ele formulou em “eu te peço que recuses o que te ofereço, porque não é isso”.

A surpresa, portanto, foi localizar um analista que, a essa altura, ignora que a demanda desesperada por reconhecimento público é imaginária, e que toda oferta será sempre estruturalmente insatisfatória, pois não há suporte para o desejo.

Não estaríamos nós, psicanalistas, alertados o suficiente para o fato de que o desejo do sujeito não possui nenhuma outra substância além daquela que é garantida pelos próprios nós do seu discurso?

O analista que compra seguidores intenta receber, justamente, quando nossa função impõe que se recuse. Em outras palavras, impõe que nos encontremos com a falta, que sejamos capazes de tolerar e suportar o vazio.

Se aceitarmos que o estatuto em vigor é o do vale-tudo para chamar atenção e do topa-tudo por dinheiro, sacrificaremos de maneira irreversível nossa capacidade crítica e nossa credibilidade.

A pergunta, afinal e ao final, é: – o que restará do tecido e do laço social depois de tantas fraturas? 

Vitória, ES.

Setembro de 2026.

* Foto de Capa, gerada com inteligência artificial

No tema? – O que ler & assistir:

🔗 TVE. Roda Viva. Peter Schmidt. 

🔗 NETFLIX. O dilema das redes. 

🔗 Julieta Jerusalinsk. Intoxicações eletrônicas: o sujeito na era das relações digitais.

🔗 FLOATVibes – A recessão da influência.

🔗 Lacan. O Seminário, livro 19. … Ou pior. 

Joseane Duarte Ouro Alves. Psicanalista, membra da Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória/ELPV, Analista Judiciária do Tribunal de Justiça do Estado do Espírito Santo, Graduada em Psicologia e Serviço Social e Mestre em Serviço Social.

  • Instagram: @ouro.joseane

Autor

Joseane Duarte Ouro Alves

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