A fulana, o sabichão e o mestre – Cosmopolita
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A fulana, o sabichão e o mestre

Foi um feliz acontecimento que, na minha busca pelos relatos de experiências de psicanalistas de Campinas, pelo menos alguma coisa tenha se revelado para mim. E isso foi sobre minha própria motivação para fazer essas entrevistas, algo parecido com o que Mauro Mendes Dias1 disse na nossa conversa: “Porque você sabe, né, todos nós que participamos do meio analítico sabemos: o meio analítico é mais decepcionante do que ele se anuncia.”

Ser “mais decepcionante do que ele se anuncia” talvez não signifique que a comunidade analítica seja algo, em si, decepcionante, mas sim que ela se anuncia como algo diferente do que é – e que isso nos decepciona.

Lembro-me de uma conversa, no meu primeiro ano de formada, em que um colega analista mais experiente me deu um verdadeiro balde de água fria com algumas vinhetas bastante impactantes sobre o meio analítico de Campinas, seguido de uma frase que nunca esqueci: “No fim, é tudo sobre o ego.” Discordei na hora, respondendo ao interlocutor: “Essa é apenas a sua experiência! Não é tudo assim.” Ao que ouvi de volta: “Estou apenas te alertando, a realidade é essa. Eu gostaria que alguém tivesse me dito isso quando eu comecei na psicanálise.”

Por muito tempo achei que tinha me incomodado porque queria continuar sustentando, naquele ponto da minha trajetória, a fantasia de que as instituições de psicanálise seriam um lugar repleto de pessoas bem-resolvidas, capazes de reconhecer suas próprias questões nos incômodos com os outros e, por isso, de se comunicar de maneira clara e eficiente, proporcionando aquilo que se entenderia por um ✨ambiente saudável✨. Mas hoje, depois de realizar essas entrevistas, acredito que me incomodei naquela conversa não porque fui desiludida, mas porque não tem nada mais chato nessa vida do que um sabichão te dando um spoiler daquilo que você pode descobrir por conta própria.

Ainda assim, recentemente chamei o sabichão para um café. Não resisti à curiosidade de saber como seria o encontro em que eu diria a ele: “Adivinha só o que eu estou pesquisando agora?”

E foi a primeira coisa que disse, assim que pedi meu café coado e ele o seu affogato. Sr. Sabichão, para o meu divertimento, errou feio: todos os seus chutes sobre o que eu estaria fazendo foram parar muito longe do gol. Quando finalmente contei que estava colhendo relatos de experiências em instituições de psicanálise, para minha surpresa ele arregalou os olhos – também surpreso – e disse: “E como está sendo isso?” Após alguns minutos do meu relato de experiência colhendo relatos de experiência, começamos a especular como teria sido uma entrevista com alguém de uma geração ainda mais antiga, como a dos mestres que meus entrevistados citaram.

“Não tenha dúvida: você ia se ver sentada na sala de espera de um consultório antigo e silencioso, depois de uns vinte e cinco minutos de cadeira, à la lacanianos old school, até que se abrisse uma porta e dela saísse um senhor vestindo o clássico uniforme do analista tradicional: sapato social, calça segurada por um cinto, camisa por dentro da calça, óculos de armação de metal e poucos cabelos brancos. Ele não diria nem ‘bom dia’, nem ‘boa tarde’, diria apenas, muito seriamente: ‘Carolina.’

“E aí? Você entraria na sala?” – desafiou-me Sr. Sabichão.

“Mas é claro!”, disse, hipoteticamente corajosa.

Sr. Sabichão: Sei. Mas você sabe o que ele iria te perguntar logo de cara, né?

Carolina Manente: O meu nome não seria. Aparentemente ele já sabe.

SS: Não. Ele perguntaria algo assim: “Me diga uma coisa, Carolina, você se diz psicanalista?”

CM: Capaz! 

SS: Ia perguntar quem é seu ou sua analista, qual a sua trajetória, como você entende a psicopatologia da vida cotidiana… 

CM: E eu provavelmente iria me emaranhar nos bordões, como quem tenta disfarçar que só está dizendo o que imagina que um psicanalista renomado quer ouvir. Dizer que estou em formação, que uma formação dura uma vida inteira, tentar falar algo sensato sobre o inconsciente ou sobre o desejo…

SS: Você diria também alguma coisa para impressioná-lo, tipo “ser psicanalista não é algo que se conquista e pronto. É um ato!”

CM: Tipo as coisas que você falou para os seus mestres, como um bom discípulo?

SS: Tipo. [riu] 

CM: Imagina só se ele me fizesse essas perguntas! Eu iria entrevistar o velho (com todo respeito) e acabaria num interrogatório!

SS: E dependendo do humor dele, sairia de lá sem entrevista nenhuma, mas com uma frase interrompida e um dever de casa do tipo “você precisa pensar sobre isso”. 

Ri de nervoso diante da insensibilidade que estávamos atribuindo ao nosso analista das antigas.

SS: Mas, vem cá, o que você acha que um psicanalista idoso teria para te dizer?

CM: Ah, acho que ele teria uma experiência de instituição psicanalítica muito diferente da que existe hoje, né? E imagino que também seria bem diferente dos relatos que colhi, mas não sei direito o que imaginar. Em sua entrevista, Lúcia Bertazzoli2 comentou que, para ela, a melhor forma de as pessoas trabalharem juntas para estudar psicanálise é sem a institucionalização, só com o vínculo pelo estudo. E ela tem mais de quarenta anos na área. Isso quer dizer alguma coisa, né?

E para as pessoas que tentaram fundar uma instituição num modelo que se propõe diferente de todas as outras, parece que a experiência psicanalítico-institucional fica marcada como algo impossível. No relato de Mauro, o que contribuiu para a dissolução da Escola foram as divergências teóricas e também relacionais. E os lacanianos das antigas, como lidaram com essas questões nas instituições deles?

SS: A teoria propõe uma instituição em que o vínculo entre os envolvidos se dá pela transferência de trabalho. Mas, na prática, outras coisas entram em cena. Você deveria perguntar sobre as dinâmicas relacionais. A Maria Teresa3, como você contou, disse que toda instituição, no fundo, morre por causa do poder. Como o nosso psicanalista lidaria com isso? Deveria perguntar a ele como um grupo de analistas lida com suas questões egóicas!

CM: Isso se eles admitissem ter questões egóicas com que lidar! 

Aquela cena hipotética abriu nosso apetite histórico, e Sabichão e eu caímos num silêncio repleto de pensamentos barulhentos. A essa altura, meu café estava frio e o affogato dele, morno: tínhamos esquecido o nosso cenário atual enquanto estávamos naquela outra cena, a da suposta entrevista com um suposto mestre da psicanálise.

“É…”, disse Sabichão num suspiro, “acho que a nossa pergunta de verdade é se um psicanalista das antigas, um renomado mestre da psicanálise vintage, admitiria você, ‘uma fulana’, sentada à sua frente lhe fazendo perguntas sobre ele – e não deitada no divã, decifrando questões angustiantes sobre si.”

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Durante as entrevistas, busquei algo sobre a história das instituições analíticas em Campinas, mais especificamente sobre a transmissão da psicanálise por aqui, que se dá pela teoria, pela clínica, pelas experiências institucionais, pelas trocas com os colegas e pela relação com os mestres.

Talvez o alerta de alguns anos atrás, “é tudo sobre o ego”, não estivesse totalmente errado, apenas incompleto. É sim sobre o ego, mas sobre o que acontece com o Eu do analista quando o trabalho funciona, seja numa instituição ou na clínica. O analista, assim como o mestre – que ocupa o lugar de sujeito suposto saber – cai, sejam lá de qual geração forem. E, nessa queda, o Eu se machuca. Ele se dói. A questão é como ele vai reagir.

Se o meio analítico é mais decepcionante do que se anuncia, talvez seja porque se anuncia – e nós esperamos que seja assim – como o lugar onde o sujeito suposto saber não cai. Só que cai. 

Entendo, assim, que o trabalho do analista é bancar essa queda egóica e não tentar sustentá-la no ar feito um truque de mágica. Claro que, para isso, teríamos de abrir mão de nos deixar ludibriar pelo impacto zero da gravidade e pelo poder do mágico.

Afinal, se vamos vestir o uniforme de psicanalista, que saibamos de qual traje realmente estamos falando: um tomara que caia… não é mesmo? Mas, me diga você, de todos os analistas que você conhece – sejam eles sabichões, mestres ou fulanas –, quais bancariam um tomara que caia?

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Série “Um psicanalista numa Instituição de Psicanálise” completa: https://cosmopolita.ipep-psicanalise.com.br/categoria/ce/

Carolina Manente, formada em Psicologia (PUCC), com experiência clínica no Serviço-Escola do Hospital PUC-Campinas, no Treinamento em Psicoterapia de Apoio e Arteterapia do Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas (UNICAMP) e no Instituto Hospitalar de Psicanálise do GHU Hôpital Sainte-Anne, em Paris. Pós-graduada em Teoria Psicanalítica pelo IPEP/UNIFAJ e mestranda em Linguística (UNICAMP). 

  • Instagram: @carolinamanente_
  1. Entrevista Mauro Mendes Dias: https://cosmopolita.ipep-psicanalise.com.br/ce/03/09/2026/diante-de-uma-divida/ ↩︎
  2. Entrevista Lúcia Bertazzoli: https://cosmopolita.ipep-psicanalise.com.br/destaque/08/10/2026/um-convite/ ↩︎
  3. Entrevista Maria Teresa: https://cosmopolita.ipep-psicanalise.com.br/politica/04/08/2026/uma-coisa-apaixonada/ ↩︎

Autor

carolina manente

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